Composição do microbioma intestinal pode facilitar a perda ponderal

Damian McNamara

1 de outubro de 2021

Se algo lhe diz que alguma coisa te impede de perder a quantidade de peso que deseja, você pode estar certo.

Pesquisadores descobriram que o microbioma intestinal (conjunto do material genético das bactérias que ajuda a digerir os alimentos e a absorver os nutrientes no intestino) pode influenciar as tentativas de perda ponderal.

Eles identificaram genes dentro dessas bactérias que determinam a rapidez com que as bactérias crescem, o quão bem as pessoas podem tirar proveito dos nutrientes dos alimentos e se os amidos e as fibras, particularmente, são quebrados em açúcares muito rapidamente, para ajudar na perda ponderal.

Dr. Sean Gibbons

“Algumas pessoas têm mais dificuldade de perder peso do que outras”, disse o autor do estudo, Dr. Sean Gibbons. "Por exemplo, algumas são capazes de controlar o próprio peso corporal por meio de intervenções básicas no estilo de vida, enquanto outras não."

Além disso, é difícil prever quais indivíduos responderão a mudanças na dieta ou exercícios e quais podem exigir estratégias mais intensas.

O estudo, que foi publicado on-line em 14 de setembro no periódico mSystems, da American Society for Microbiology, pode nos aproximar de uma resposta.

"Identificamos assinaturas genéticas específicas no microbioma intestinal que foram preditivas de resposta à perda ponderal em um pequeno grupo de pacientes após uma intervenção de estilo de vida saudável", explicou Dr. Sean, pesquisador da Washington Research Foundation e professor assistente do Institute for Systems Biology, nos Estados Unidos.

A perda de p eso vem de dentro de você?

Diferenças em 31 genes funcionais surgiram do microbioma intestinal em 48 pessoas que perderam ≥ 1% de peso corporal por mês, em comparação com 57 pessoas cujo peso corporal permaneceu o mesmo. Esses achados são provenientes de amostras fecais coletadas de 6 a 12 meses após o início de um programa para perda ponderal.

Dra. Hana Kahleova

Em contraste, o líder do estudo, Dr. Christian Diener, Ph.D., também do Institute for Systems Biology, e seus colegas encontraram apenas um fator no sangue que diferia entre os grupos de perda e de manutenção de peso. Eles avaliaram especificamente proteínas associadas à obesidade no sangue e dados genéticos de amostras fecais em um conjunto de 25 participantes.

Estes achados estão alinhados aos de pesquisas anteriores, mostrando que diferentes tipos de bactérias na microbiota intestinal podem comprometer as intervenções para perda ponderal, mas eles deram um passo adiante para determinar como isso funciona.

“Sabemos que o microbioma intestinal desempenha um papel importante no controle ponderal e também pode influenciar a resposta às intervenções para perda ponderal. No entanto, características específicas do microbioma intestinal que poderiam explicar esta observação com mais detalhes ainda precisam ser identificadas", disse Dra. Hana Kahleova, Ph.D., médica e diretora de pesquisa clínica do Physicians Committee for Responsible Medicine, nos Estados Unidos.

Boa microbiota vs. má microbiota

Pelo lado positivo, os genes que ajudam as bactérias a crescerem mais rapidamente foram associados à perda ponderal. Essas bactérias retiram mais nutrientes dos alimentos para si mesmas, deixando menos para o ganho ponderal humano em comparação com as bactérias de crescimento mais lento.

Na verdade, evidências anteriores apontam para um gênero específico de bactéria intestinal, o Prevotella, como sendo benéfico para a perda ponderal. "Em nosso estudo", disse Dr. Sean, "descobrimos que alguns dos micróbios de crescimento mais rápido no grupo que respondeu à perda ponderal eram do gênero Prevotella."

Por outro lado, bactérias que produzem mais enzimas para quebrar amidos ou fibras rapidamente em açúcares, por exemplo, foram associadas a tornar as pessoas mais resistentes à perda ponderal.

"Ao compreender esses padrões funcionais, podemos um dia ser capazes de projetar microbiomas resistentes para serem mais permissivos à perda ponderal", disse Dr. Sean.

A Dra. Hana concordou. "Essas descobertas expandem nossa compreensão sobre as características específicas do microbioma intestinal que desempenham um papel na perda ponderal", disse ela.

Além do IMC

Curiosamente, os pesquisadores controlaram o índice de massa corporal (IMC) da linha de base e outros fatores que podem comprometer a perda ponderal.

Pessoas que começam com um IMC mais alto tendem a perder mais peso do que as demais, um fenômeno conhecido como "regressão à média". Esse fator confundiu algumas pesquisas anteriores, eles observaram.

"A maioria das características associadas à perda ponderal, independentemente do IMC, eram genes funcionais no metagenoma intestinal", disse Dr. Sean.

"Isso nos diz que o microbioma intestinal é um modulador importante da perda ponderal, independentemente de seu estado de saúde metabólica subjacente, dieta básica ou IMC."

O Dr. Sean compartilhou seus achados, incluindo o papel predominante desempenhado pelo microbioma intestinal, via Twitter.

https://twitter.com/gibbological/status/1437808458544205831

"Este estudo descreveu várias características funcionais metagenômicas que foram associadas à perda ponderal após o controle de possíveis fatores de confusão como idade, sexo e IMC basal", disse Dra. Hana. "Essas descobertas podem ajudar a otimizar os protocolos de perda ponderal em estudos futuros."

Transplante da microbiota fecal?

O que as descobertas significam para as pessoas que desejam ajustar sua dieta ou fazer um transplante fecal para incluir mais bactérias intestinais que facilitam a perda ponderal?

“Talvez seja muito cedo para esse tipo de intervenção”, disse Dr. Sean. "Ainda é muito difícil projetar racionalmente o microbioma intestinal."

"Curiosamente, um estudo recente sugere que os transplantes fecais de um doador com alto índice de Prevotella podem ser capazes de mudar recipientes com baixo teor de Prevotella para alto índice de Prevotella", disse Dr. Sean.

Mais pesquisas são necessárias, no entanto, para entender se os indivíduos que receberam transplante microbiano fecal também se tornam mais capazes de perder peso, acrescentou.

Além disso, "não posso dar nenhuma recomendação específica, a não ser que as pessoas deveriam comer mais alimentos integrais ricos em fibras e vegetais e reduzir o consumo de carne vermelha. Isso é bem respaldado pela literatura."

"Também prepare a sua própria comida em vez de depender de alimentos processados, ricos em sódio e açúcar", disse Dr. Sean.

Dr. Sean e sua equipe esperam validar o trabalho em estudos humanos maiores "e talvez desenvolver diagnósticos clínicos ou intervenções para quem tenta perder peso."

mSystems. Publicado on-line em 14 de setembro de 2021. Texto completo

Damian McNamara é jornalista da equipe de Miami. Ele cobre diversas especialidades médicas, incluindo infectologia, gastroenterologia e terapia intensiva. Acompanhe Damian no Twitter: @MedReporter.

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