Nova ferramenta de previsão de tumores subsequentes ao câncer infantil

Pam Harrison

1 de outubro de 2021

Uma ferramenta on-line de rastreamento de predisposição ao câncer aumenta em mais de 50% a probabilidade de previsão do surgimento de neoplasias malignas subsequentes ao câncer infantil, mostram resultados de um estudo de caso-controle aninhado.

"Consideramos que todos os pacientes oncológicos pediátricos devem ser rastreados (com esta ferramenta) no momento do diagnóstico ou a qualquer momento no acompanhamento para determinar a probabilidade de síndrome de predisposição ao câncer subjacente e para prever o risco neoplasias malignas subsequentes", disseram os autores.

A ferramenta de triagem, que é baseada nas McGill Interactive Pediatric OncoGenetic Guidelines (MIPOGG), pode ser baixada gratuitamente.

A equipe foi liderada pela Dra. Noelle Cullinan, médica do Hospital for Sick Children, no Canadá. O estudo foi publicado on-line em agosto no periódico Journal of Clinical Oncology.

Em um editorial que acompanhou o estudo, publicado on-line em 02 de setembro, as Dras. Roya Mostafavi e Kim Nichols, médicas do St. Jude Children's Research Hospital e do Danny Thomas Place, nos EUA, concordaram com os autores.

As neoplasias malignas subsequentes estão entre as principais causas de morte sem relação com a recidiva de sobreviventes de cinco anos de câncer infantil inicial. As neoplasias malignas subsequentes respondem por cerca de 50% de todas as mortes sem relação com a recidiva neste grupo de pacientes, apontam os autores.

“O desenvolvimento de ferramentas de apoio à decisão, como as MIPOGG, é um importante passo na direção certa”, comentam os editorialistas.

As principais vantagens da ferramenta é o fato de exigir apenas alguns minutos para ser concluída e de as informações geralmente estarem prontamente disponíveis. Além disso, pode reduzir os custos ao permitir que os médicos priorizem pacientes com mais chances de se beneficiar de um encaminhamento genético, e pode ser usada sequencialmente ao longo da trajetória de atendimento à criança.

No entanto, um resultado positivo das MIPOGG não informa qual câncer o paciente tem mais probabilidade de ter e, portanto, não orienta quanto à estratégia de vigilância. “Sem as informações genéticas germinativas do paciente, será um desafio para os profissionais de saúde determinarem se, quando e como monitorar as neoplasias malignas subsequentes”, observaram os autores.

Os editorialistas concluíram que "sobreviventes de câncer infantil com pontuação positiva nas MIPOGG devem ser triados para avaliação genética e, quando apropriado, realizarem exames genéticos da linhagem germinativa para dar suporte à vigilância do câncer e/ou medidas de redução de risco".

Casos versus controles

O estudo contou com uma coorte de 13.367 pacientes diagnosticados com câncer primário antes dos 18 anos de idade (tratados ou não). Destes, 317 pacientes (2,4%) desenvolveram neoplasia maligna subsequente (pacientes caso). Eles foram pareados com 1.569 sobreviventes de câncer na infância que não desenvolveram neoplasia maligna subsequente (pacientes controle).

A mediana de idade ao diagnóstico de câncer primário foi de 7,9 anos entre os casos e de 7,6 anos entre os controles. A média de idade ao desenvolvimento da neoplasia maligna subsequente foi de 18,3 anos.

O tempo médio entre o diagnóstico do câncer primário e a neoplasia maligna subsequente foi de 11,2 anos, embora quase um terço dos pacientes tenha evoluído com neoplasia maligna subsequente após 15 anos ou mais.

A equipe conduziu uma análise de modelo multivariável que controlou para exposição à quimioterapia e radioterapia para o câncer primário.

O modelo mostrou que MIPOGG recomendando avaliação foi significativamente associado com o desenvolvimento de neoplasia maligna subsequente (razão de risco ou odds ratio, OR, de 1,53; intervalo de confiança, IC, de 95% de 1,06 a 2,19).

A previsão da evolução para neoplasia maligna subsequente foi melhor para pacientes que sobreviveram a um tumor do sistema nervoso central ou tumor sólido do que para pacientes com neoplasia hematológica, bem como para pacientes que não fizeram radioterapia durante o tratamento da neoplasia primária.

Para os pacientes que tiveram um tumor no sistema nervoso central, aqueles cujo resultado das MIPOGG foi "sim" tiveram probabilidade 2,9 vezes maior de apresentar neoplasia maligna subsequente do que aqueles cujo resultado das MIPOGG foi "não", observaram os autores.

Embora a ferramenta tenha melhorado a previsão de câncer secundário em 53% no total, para os pacientes que tiveram um tumor sólido como doença primária, ela aumentou para 63%.

“Considerando que as MIPOGG encaminham aproximadamente 30% das crianças com câncer para avaliação de síndromes de predisposição ao câncer, este estudo demonstra que as taxas de encaminhamento de casos nesta coorte são mais altas do que o previsto”, observaram os pesquisadores.

Eles também acham que as MIPOGG podem atuar como um substituto para a previsão de síndromes de predisposição ao câncer em ambientes de saúde com baixo acesso a exames genéticos. Em ambientes nos quais o exame genético é acessível, as MIPOGG podem contribuir para priorizar o encaminhamento de pacientes para a avaliação de síndromes de predisposição ao câncer.

Embora entusiasmados com o potencial da nova ferramenta, os editorialistas apontam algumas limitações do estudo. “Nenhum paciente deste estudo foi submetido a exames genéticos germinativos”, observaram as Dras. Roya e Kim; portanto, não se sabe se os sobreviventes de câncer infantil que foram recomendados para um encaminhamento genético de fato tinham síndrome de predisposição ao câncer subjacente. “Por outro lado, não está claro se aqueles que não foram recomendados para um encaminhamento genético estavam realmente livres de uma predisposição subjacente”, acrescentaram.

No entanto, os dados de outro estudo apoiam a ideia de que uma resposta positiva nas MIPOGG é provavelmente um marcador de mutação germinativa subjacente. Esses dados são provenientes de 3.000 sobreviventes de câncer infantil que participaram do St. Jude Lifetime Cohort Study. Eles mostram que os portadores de mutações genéticas predisponentes ao câncer germinativo desenvolveram neoplasias malignas subsequentes em uma taxa significativamente maior.

O estudo foi financiado pelo Pediatric Oncology Group da Ontario Research Unit e por outras organizações. A Dra. Noelle informou não ter conflitos de interesses. A Dra. Kim é proprietária de ações da Incyte e recebe financiamento para pesquisas da Incyte/Novartis e Alpine Immune Sciences.

J Clin Oncol. Publicado on-line em 12 de agosto de 2021. Texto completoEditorial

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