Os fogachos podem ser um sinal de alerta?

Equipe Medscape

27 de setembro de 2021

Apesar de considerada benigna, a ocorrência de fogachos vem sendo cada vez mais associada a aumento do risco cardiovascular, afirmou o Dr. Alexandre Hohl durante a apresentação “O que eu faço com esses calores?”, feita durante o Congresso Brasileiro de Atualização em Endocrinologia e Metabologia (e-CBAEM), realizado de 09 a 12 de setembro.

Fogachos são ondas de calor que acometem a maioria das mulheres na perimenopausa, comprometendo a qualidade de vida desta população. Com a duração de minutos, podem ser acompanhados ou não de sudorese e rubor. “O que acontece é um rápido aumento da temperatura com vasodilatação concomitante”, explicou o médico, que é mestre em neurociência, doutor e pós-doutor em ciências médicas e professor de endocrinologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Do ponto de vista da fisiopatologia, os fogachos têm a ver com um estreitamento fisiológico do sistema termorregulador hipotalâmico, e isso é afetado pelo hipoestrogenismo”, descreveu o especialista.

Mas por que os fogachos podem ser um sinal de alerta? “A função endotelial acaba sendo comprometida e os fogachos acabam sendo o marcador dessa disfunção, que tem uma relação direta com a diminuição do estrogênio no endotélio feminino. Ainda não sabe se o tratamento com terapia hormonal para atenuar as ondas de calor diminuiria os eventos cardiovasculares associados”, disse o médico.

De acordo com o especialista, há vários questionamentos mais recentes sobre os fogachos – a maioria ainda sem resposta. Um deles é se o sintoma vasomotor poderia ser entendido como um preditor de palpitação na meia-idade e se teria algum gatilho associado com a covid-19.

“Foi uma discussão levantada em um editorial, mas não há nenhuma prova sobre isso. As mulheres que entraram no climatério durante a pandemia talvez tenham tido uma percepção maior dos fogachos”, ponderou o médico.

Os fogachos costumam ocorrer por cerca de quatro a cinco anos, no entanto, em quase 25% dos casos duram 10 anos ou mais, o que tem uma relação direta com a piora da qualidade de vida, disse o especialista. Isso quer dizer que uma em cada quatro mulheres acima dos 60 anos convive com o sintoma vasomotor.

“Alguns autores falam que 40% das mulheres entre 60 e 65 anos podem ter fogachos moderados a graves. Isso levanta uma questão superimportante, que é a volta à discussão sobre a duração da terapia hormonal. Dar uma idade limite para a terapia hormonal não tem mais lógica hoje em dia”, disse o Dr. Alexandre.

Quanto às opções terapêuticas para controlar os fogachos, o médico assegurou que a terapia hormonal é a mais efetiva.

“Uma revisão feita em 2021 sobre os riscos das diferentes modalidades de tratamento da menopausa mostrou que o estrogênio oferece um claro benefício para os sintomas vasomotores. Para as mulheres que não têm fatores de risco e podem fazer reposição, a relação é de altíssimo benefício com baixíssimo risco, principalmente quando se fala desse sintoma que tanto afeta a qualidade de vida das mulheres”, observou o Dr. Alexandre. Ele lembrou que a reposição deve ser individualizada e baseada nos dados clínicos da paciente, sempre considerando as suas preferências.

“Além disso, todas as candidatas à terapia hormonal devem ser amplamente avaliadas quanto ao risco de doença cardiovascular, tromboembolia e câncer de mama”, destacou o especialista.

Para as pacientes com contraindicação de terapia hormonal, existem diversos medicamentos sem hormônios. Entre as possibilidades estão os antidepressivos como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, os inibidores mistos de recaptação de serotonina e noradrenalina, e alguns anticonvulsivantes.  

Sobre as terapias não farmacológicas que se propagam benéficas para os sintomas vasomotores, como o uso de fitoestrogênios, ômega 3, vitamina E, óleo de prímula, ioga e hipnose, o Dr. Alexandre disse que “as evidências dos estudos são inconsistentes e controversas”, e que, de modo geral, quando produzem alguma ação, “têm pouca efetividade”. Ele comentou sobre uma revisão sistemática feita na Ásia, onde as terapias complementares são muito utilizadas, que chegou à conclusão de que a acupuntura pode ser útil contra os fogachos, mas que sua eficácia está à frente apenas do placebo.

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