O papel dos probióticos na saúde mental

Marta Zaraska

Notificação

27 de setembro de 2021

Em 1950, no Sea View Hospital, nos Estados Unidos, um grupo de pacientes com tuberculose terminal recebeu um novo antibiótico, chamado isoniazida, que causou alguns efeitos colaterais inesperados. Os pacientes referiram euforia, estimulação mental, melhora do sono e até passaram a socializar com mais vigor. A imprensa cobriu todo o caso, escrevendo sobre os pacientes que "dançavam nos corredores, apesar de seus buracos nos pulmões". Logo os médicos começaram a prescrever isoniazida como o primeiro antidepressivo da história.

O experimento do Sea View Hospital foi uma primeira dica de que alterar a composição do microbioma intestinal – neste caso, por meio de antibióticos – poderia afetar a nossa saúde mental. No entanto, apenas nas últimas duas décadas as pesquisas sobre as conexões entre o que ingerimos e os transtornos psiquiátricos realmente decolaram. Em 2004, um importante estudo mostrou que camundongos livres de bactérias (nascidos em condições tão estéreis que lhes faltava microbiota) tiveram uma resposta exagerada ao estresse. Os efeitos foram revertidos, no entanto, se os ratos fossem alimentados com uma cepa bacteriana Bifidobacterium infantis, um probiótico. Isso despertou o interesse acadêmico e milhares de pesquisas se seguiram.

De acordo com Dr. Stephen Ilardi, Ph.D., psicólogo da University of Kansas, nos EUA, cujo trabalho é focado na etiologia e no tratamento da depressão, este é o "momento de empolgantes descobertas" no campo dos probióticos e transtornos psiquiátricos, embora reconhecidamente ainda haja muito a ser esclarecido.

Perfis de microbioma intestinal em transtornos mentais

Nós, humanos, temos cerca de 100 trilhões de micróbios morando em nossos intestinos. Alguns são archaea, alguns são fungos, outros são protozoários e há até mesmo vírus, mas a maioria é de bactérias. Elementos como alimentação, sono e estresse podem afetar a composição do nosso microbioma intestinal. Quando há uma alteração considerável em relação ao microbioma típico, os médicos e pesquisadores chamam de disbiose ou desequilíbrio. Estudos identificaram disbiose em pacientes com depressão, ansiedade, esquizofrenia e transtorno bipolar.

"Acredito que agora existem evidências bastante boas de que o microbioma intestinal é na verdade um fator importante em uma série de distúrbios psiquiátricos", disse o Dr. Allan Young, psiquiatra do King's College London, no Reino Unido. A composição do microbioma intestinal parece diferir entre pacientes psiquiátricos e as pessoas saudáveis. Na depressão, por exemplo, uma recente revisão de nove estudos identificou um aumento no nível do gênero em Streptococcus e Oscillibacter e baixa abundância de Lactobacillus e Coprococcus, entre outros. No transtorno de ansiedade generalizada, entretanto, parece haver um aumento de Fusobacteria e Escherichia/Shigella.

Para Dr. Stephen, a próxima questão importante é se existem mecanismos plausíveis que poderiam explicar como a microbiota intestinal pode influenciar o funcionamento do cérebro. E, ao que parece, existem.

"Os micróbios no intestino podem liberar neurotransmissores no sangue que entram no cérebro e influenciam a sua função. Também podem liberar hormônios no sangue, que também passam para o cérebro. Eles têm muitos truques na manga", disse o psicólogo.

Um caminho particularmente importante passa pelo nervo vago. Outro caminho é a via imunológica. As bactérias intestinais podem interagir com as células do sistema imunitário e reduzir a produção de citocinas, o que, por sua vez, pode reduzir a inflamação sistêmica. Os processos inflamatórios são implicados na depressão e no transtorno bipolar. Além do mais, os micróbios intestinais podem regular positivamente a expressão de uma proteína chamada BDNF (do inglês brain-derived neurotrophic fator), que contribui para o desenvolvimento e a sobrevivência das células nervosas no cérebro.

A promessa dos probióticos varia de acordo com a doença

À medida que as vias pelas quais a disbiose intestinal pode influenciar os transtornos psiquiátricos se tornam mais claras, o próximo passo lógico é tentar influenciar a composição do microbioma para prevenir e tratar a depressão, ansiedade ou esquizofrenia. É aí que entram os probióticos.

A evidência dos efeitos dos probióticos – microrganismos vivos que, quando ingeridos em quantidades adequadas, conferem um benefício à saúde – até agora é a mais forte para a depressão, disse a Dra. Viktoriya Nikolova, doutoranda e pesquisadora do King's College London. Em uma metanálise de sete ensaios publicada em 2021, Nikolova e colegas revelaram que os probióticos podem reduzir significativamente os sintomas depressivos após apenas oito semanas. Houve, no entanto, uma ressalva: os probióticos só funcionaram quando usados em associação com um antidepressivo aprovado. Outra metanálise, publicada em 2018, também mostrou que, em comparação com placebo, os probióticos melhoram o humor de pessoas com sintomas depressivos (aqui, nenhum antidepressivo foi necessário).

O Dr. Roumen Milev, Ph.D., neurocientista da Queen's University, no Canadá, e coautor de uma revisão sobre probióticos e depressão publicada no periódico Annals of General Psychiatry, advertiu, no entanto, que a pesquisa ainda está engatinhando. “Atualmente, os probióticos devem ser usados junto com o tratamento antidepressivo”, disse ele.

Quando se trata de usar probióticos para aliviar a ansiedade, "as evidências na literatura animal são convincentes", disse Dr. Stephen. Estudos em humanos são, no entanto, menos convincentes, algo que Dr. Stephen mostrou em sua revisão e metanálise de 2018 com 743 animais e 1.527 humanos. “A maioria dos estudos é pequena e alguns não são muito bem conduzidos, e muitas vezes usam doses muito baixas de probióticos”, disse ele. Um dos maiores estudos duplo-cego e controlado por placebo mostrou que a suplementação com Lactobacillus plantarum ajuda a reduzir o estresse e a ansiedade, e diminui os níveis de citocinas pró-inflamatórias. Outra metanálise, publicada em junho de 2021, revelou que os resultados são mistos ao se tentar reduzir o estresse e a ansiedade em jovens.

As evidências da eficácia dos probióticos na esquizofrenia estão surgindo, mas também são limitadas. Uma revisão de 2019 concluiu que os resultados atualmente disponíveis apenas "indicam" a possibilidade de que os probióticos podem fazer a diferença na esquizofrenia. Da mesma forma, uma revisão de 2020 resumiu que o papel dos probióticos no transtorno bipolar "permanece indefinido e pouco explorado".

Melhores estudos, perguntas remanescentes

Além de pequenas amostras, um problema com a pesquisa sobre probióticos é que tendem a usar doses variadas de diferentes cepas de bactérias, ou mesmo misturas de várias cepas, dificultando a comparação dos resultados. Embora existam centenas de espécies de bactérias no intestino humano, apenas algumas tiveram seus efeitos antidepressivos ou ansiolíticos avaliados.

"Para piorar ainda mais, é quase certo que, dependendo da genética real de uma pessoa ou talvez de sua epigenética, uma cepa que é útil para uma pessoa pode não ser útil para outra. É quase certo que não existe uma formulação probiótica que sirva para todos", disse o Dr. Stephen.

Outra questão crucial, que ainda precisa ser respondida, é a dos possíveis efeitos colaterais.

"Os probióticos costumam ser vistos como suplementos alimentares, portanto, não seguem os mesmos regulamentos que os medicamentos", disse a Dra. Viktoriya. “Não precisam necessariamente seguir o padrão de testes de medicamentos em muitos países, o que significa que o monitoramento dos efeitos colaterais não é um requisito.”

Isso também preocupa o Dr. Allan, do King's College. "Se você está administrando algo para modular o funcionamento do cérebro, você pode potencialmente induzir sintomas ou um distúrbio psiquiátrico. Há a possibilidade de reações alérgicas. Pode acontecer muitas coisas diferentes", disse ele.

Se você buscar "probióticos" na internet, é provável que se depare com sites exaltando efeitos incríveis que esses produtos podem ter na saúde cardiovascular, no sistema imunitário e na saúde mental. Muitos também vendem vários suplementos probióticos "formulados" para a saúde intestinal ou para melhorar o humor.

No entanto, muitas dessas cepas comercialmente disponíveis nunca foram testadas em ensaios clínicos. Além do mais, de acordo com a Dra. Kathrin Cohen Kadosh, neurocientista da University of Surrey, no Reino Unido, "nem sempre está claro se as diferentes cepas chegam intactas ao intestino".

Por enquanto, considerando as evidências das poucas pesquisas, uma aposta mais segura é tentar melhorar a saúde intestinal por meio do consumo de alimentos fermentados que contêm probióticos naturalmente, como missô, kefir ou chucrute. Como alternativa, você pode usar prebióticos, como alimentos que contêm fibras (os prebióticos aumentam o crescimento de micróbios intestinais benéficos). Isso, disse Dra. Kathrin, pode ser "uma maneira mais sutil de melhorar a saúde intestinal" do que tomar uma pílula. Se haverá uma melhora da saúde mental, ainda está em aberto.

Marta Zaraska é uma jornalista polonesa-canadense com textos científicos publicados no Washington Post, Scientific American, Newsweek, Los Angeles Times, New Scientist, entre outros. Marta divide seu tempo entre a França e os Estados Unidos.

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