O efeito arrasador dos esteroides anabolizantes

Equipe Medscape

24 de setembro de 2021

O uso indiscriminado de esteroides anabolizantes (derivados sintéticos da testosterona usados com o objetivo de aumentar a massa magra e a força muscular) se tornou um sério problema de saúde pública.
"A mortalidade de indivíduos que usam esteroides anabolizantes pode ser três vezes maior do que a observada na população geral. É o que mostra um estudo dinamarquês que acompanhou por 12 anos um grupo de usuários", disse o Dr. Clayton Luiz Dornelles Macedo, Ph.D., durante o simpósio sobre o tema no Congresso Brasileiro de Atualização em Endocrinologia e Metabologia (e-CBAEM 2021), realizado de 09 a 12 de setembro de 2021.

Ele e outros especialistas discutiram o impacto dos esteroides anabolizantes no cérebro, no coração, no fígado e na fertilidade. Segundo o Dr. Clayton, os usuários de esteroides têm alterações eletroencefalográficas muito semelhantes às provocadas pelo consumo de anfetaminas e podem ter mais comportamentos de risco. Há "uma série de estudos descrevendo que os danos neuropsiquiátricos dos esteroides anabolizantes são múltiplos. Essas substâncias podem causar dependência, tolerância, agressividade, raiva, instinto assassino, abuso sexual, irritabilidade, ansiedade, alteração na memória, vários tipos de psicose, delírio, paranoia, depressão, risco de suicídio e síndrome de abstinência", disse o especialista. Outra alteração psiquiátrica relacionada ao uso de esteroides mencionada pelo médico foi a dismorfia muscular, ou vigorexia. Alterações de humor e sono são também bastante prevalentes: "Isso é cada vez mais frequente, principalmente entre os praticantes de fisiculturismo e os frequentadores de academia."

O mesmo estudo dinamarquês citado pelo Dr. Clayton aponta que 20% dos participantes observados por mais de uma década cometeram crimes e foram presos. A partir dessa perspectiva, o médico comentou a situação brasileira: "Vemos cada vez mais feminicídios na mídia. Muitos indivíduos que usam esteroides anabolizantes acabam cometendo esse tipo de crime", disse o Dr. Clayton, que é doutor em Endocrinologia Clínica e Especialista em Medicina do Esporte pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde coordena o Ambulatório de Endocrinologia do Exercício e participa do grupo transdisciplinar do Laboratório de Endocrinologia do Exercício. Dr. Clayton também preside a comissão de Endocrinologia do Exercício da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), recém-transformada em departamento.

A lista de danos é extensa. Ao fígado, as injúrias abrangem o aumento transitório das enzimas hepáticas, icterícia colestática, peliose, tumores e outros problemas, especialmente a esteatose. No entanto, a real prevalência dessas lesões segue desconhecida. "Não temos nenhum estudo duplo-cego de longo prazo ou ao menos uma coorte bem-feita para avaliar isso. A maior parte dos dados disponíveis são provenientes de séries de casos ou de casos-controle", disse o Dr. Fábio Ferreira de Moura, especialista em Endocrinologia e Metabologia pela SBEM e mestre em ciências da saúde pela Universidade de Pernambuco (UFPE).

Segundo o Dr. Fábio, o risco de lesão depende tanto da susceptibilidade individual como do tempo de exposição, dose e tipo de esteroide. As formas alquiladas de testosterona, por exemplo, são uma das estratégias para fazer com que o produto não sofra metabolização hepática e que sua ação dure por mais tempo.
"São justamente essas as principais formas responsáveis pelas doenças hepáticas", disse o médico. Além disso, a fisiopatologia não está muito bem esclarecida, mas acredita-se que o principal fator seja um aumento do estresse oxidativo e da lesão mitocondrial.

"Em todos os casos, é recomendável suspender o uso androgênico", preconizou o especialista. Mesmo depois de ter interrompido o uso de esteroides, o indivíduo permanece sujeito a manifestar ou persistir com colestase, por exemplo, por alguns meses.

Os tumores hepáticos talvez sejam a complicação mais temida pelo uso crônico de anabolizantes. "Se houver doença hepática prévia, como hepatite B, C ou autoimune, esse risco aumenta, elevando também a chance de doenças mais graves, como hepatocarcinoma."

O impacto na fertilidade é mais complexo do que os usuários supõem. "Nem um dos anabolizantes androgênicos que circulam hoje em dia é seguro do ponto de vista da fertilidade em qualquer dose por uso", disse o Dr. Marcelo Fernando Ronsoni, doutor em Ciências Médicas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde atua como professor substituto de endocrinologia e metabologia. Ele também é integrante da diretoria do Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia da SBEM.

Várias associações hormonais podem ser usadas na tentativa de recuperar a fertilidade. "Nem todos os pacientes terão sucesso. O tempo de recuperação da espermatogênese parece ser altamente variável e é quase impossível prever a resposta do organismo", afirmou o Dr. Marcelo. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) sugerem que menos de 50% dos usuários de testosterona injetável recuperam os parâmetros prévios ao uso. 

No sistema cardiovascular, doses acima ou abaixo da quantidade fisiológica estão implicadas no aumento dos casos de dislipidemia, cardiomegalia, acidente vascular cerebral, infarto, adiposidade abdominal e resistência insulínica.

"Metanálises mostram que o hipogonadismo está diretamente relacionado ao aumento de casos de morte cardiovascular. Também existe uma associação clara da testosterona livre e da aterosclerose de carótida em homens com diabetes tipo 2", afirmou o Dr. João Eduardo Nunes Salles, coordenador da disciplina de endocrinologia e metabologia na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e secretário geral da Sociedade Brasileira de Diabetes.

Na opinião dos especialistas, ainda são necessários mais estudos para esclarecer os efeitos protetores da testosterona. "É importante que a gente discuta qual é a causa do hipogonadismo, se tem um entrelaçamento com a síndrome metabólica, o que é fator de risco. Mas, se esse paciente repuser testosterona e ficar num nível sérico adequado, vários estudos mostram que há redução da mortalidade cardiovascular", disse o Dr. João. Ele advertiu que os indivíduos eugonádicos que usam testosterona têm risco aumentado de doença cardiovascular. "Testosterona baixa aumenta o risco, testosterona alta também."

Bomba, tô fora

Para fazer frente ao desafio de combater o uso de esteroides anabolizantes, a SBEM criou o programa Bomba, tô fora. A iniciativa busca esclarecer a população e prevenir o uso de esteroides anabolizantes e similares. Uma das metas do projeto é difundir o protocolo de abordagem.

"Hoje, se o usuário de esteroide anabolizante chegar a uma unidade básica de saúde, a porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), pode ser que o colega encontre alguma dificuldade para manejar o caso. A gente precisa quebrar barreiras e aumentar o acesso, dando opções para o não uso desses esteroides", destacou o Dr. Clayton Macedo.

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