Uso de antibióticos e câncer do cólon: mais evidências da associação

Liam Davenport

Notificação

24 de setembro de 2021

Mais um estudo mostra associação entre uso de antibióticos e aumento do risco de câncer de cólon.

Os dados mais recentes são provenientes de um estudo populacional sueco. Os pesquisadores analisaram dados de mais de 40.000 pacientes com câncer colorretal e de 200.000 controles sem câncer.

Eles descobriram que o uso moderado de antibióticos aumentou em 9% o risco de câncer do segmento proximal do cólon, e que o uso muito frequente de antibióticos aumentou em 17% este risco.

Por outro lado, o risco de câncer retal diminuiu 4% com o uso moderado e 9% com o uso frequente, mas esta associação se limitou às mulheres.

O uso de antibióticos foi classificado como inexistente (sem relato de uso de antibióticos durante o período do estudo), baixo (de 1 a 10 dias), moderado (de 11 a 60 dias), frequente (de 61 a 180 dias) e muito alto (> 180 dias).

O estudo, liderado pela bióloga Dra. Sophia Harlid, Ph.D., Departamento de Ciências Radiológicas, Oncologia da Umeå universitet, na Suécia, foi publicado on-line em 1º de setembro do periódico Journal of the National Cancer Institute.

Os resultados complementam as conclusões de um estudo recente feito na Escócia, que constatou que a história de uso de antibióticos por pessoas com menos de 50 anos aparentemente aumenta em 49% o risco de câncer do cólon, mas não de câncer retal.

Os novos dados da Suécia “reforçam as evidências prévias e jogam nova luz sobre a carcinogênese específica local, bem como o suporte indireto do papel da microbiota intestinal”, comentou a primeira autora do estudo, Dra. Sophia, para o Medscape.

“As associações positivas entre o uso de antibióticos e o câncer do segmento proximal do cólon começaram com o nível mais baixo de uso de antibióticos, oferecendo uma potencial justificativa para diminuir a prescrição de antibióticos na prática clínica”, acrescentou a especialista.

No artigo, a equipe sugere que o aumento do risco pode resultar do “efeito disruptivo” que os antibióticos têm no microbioma intestinal.

O achado do aumento do risco do câncer na parte proximal do cólon, mas não no restante do trato digestivo, “é compatível com o grande impacto microbiano na parte proximal do cólon e uma concentração decrescente de ácidos graxos de cadeia curta ao longo do cólon”, comentaram os autores.

Isso resulta em “maior atividade bacteriana, formação de biofilme e fermentação no segmento proximal, em comparação ao segmento distal do cólon e ao reto”.

Uma análise ulterior mostrou que o uso de quinolonas e sulfonamidas e/ou trimetroprima foi associado a aumento do risco de câncer na parte proximal do cólon, enquanto o uso de nitrofurantoína, macrolídios e/ou lincosamidas e metronidazol e/ou tinidazol foi inversamente associado ao câncer retal.

Detalhes dos achados do estudo

Para o estudo, a equipe analisou dados de toda a população nos registros nacionais suecos para o período de 1º de julho de 2005 a 31 de dezembro de 2016.

Os pesquisadores parearam os pacientes com diagnóstico de câncer colorretal de 1º de janeiro de 2010 a 31 de dezembro de 2016 a controles sem câncer, em uma proporção de 1:5. Os dados sobre o uso de antibióticos foram obtidos do Registro Sueco de Medicamentos Prescritos.

Outras variáveis, como fatores socioeconômicos e utilização dos serviços de saúde, foram obtidas no Registro Sueco de Pacientes Internados e no Banco de Dados Longitudinais de Integração para Estudos de Seguros de Saúde e Mercado de Trabalho.

A equipe identificou 40.545 pacientes com câncer colorretal; eram 202.720 controles. Pouco mais da metade (52,9%) dos participantes eram homens; a média de idade no momento do diagnóstico de câncer foi de 72 anos. Entre os casos, 36,4% eram de câncer do segmento proximal do cólon, 29,3% eram câncer do segmento distal do cólon e 33,0% de câncer retal.

Os pacientes do grupo de controle tiveram maior probabilidade de não ter recebido prescrição de antibióticos, com 22,4% versus 18,7% para os pacientes com diagnóstico de câncer. Os pacientes com câncer tiveram maior probabilidade do que as pessoas do grupo de controle de ter usado antibióticos por mais de dois meses (20,8% vs. 19,3%; P < 0,001).

Em geral, o uso de antibióticos teve uma associação positiva com o câncer colorretal. Em comparação com não usar, a razão de chances (OR, sigla do inglês odds ratio) para o uso moderado foi de 1,15 e para uso muito frequente foi de 1,17 (P < 0,001 para tendência).

A exclusão do uso de qualquer antibiótico nos dois anos que precederam o diagnóstico de câncer colorretal atenuou a associação de tal forma que já não foi significativa para uso muito frequente em comparação à não usar antibióticos.

Aplicando este ponto de corte às demais análises, a equipe constatou que a relação de dose e resposta entre o uso de antibióticos e o câncer colorretal ficou largamente confinada ao câncer do segmento proximal do cólon, com uma OR de 1,09 para uso moderado e de 1,17 para uso muito frequente em comparação a não usar (P < 0,001 para tendência).

Para o câncer distal do cólon, a relação foi “quase nula”.

Houve uma discreta inversão da relação entre o uso de antibióticos e o câncer retal, com uma OR de 0,96 para o uso moderado e de 0,91 para uso muito frequente vs. não usar (P < 0,001 para a tendência). Essa associação foi observada apenas nas mulheres, enquanto as outras associações foram observadas tanto nos homens quanto nas mulheres.

O estudo foi apoiado pela Fundação Lions de Pesquisa sobre Câncer, Umeå universitet e Västerbotten. A Dra. Sophia Harlid informou não ter conflitos de interesses. Três coautores informaram vínculos com a indústria farmacêutica, como descrito no artigo original.

J Natl Cancer Inst. Publicado on-line em 1º de setembro de 2021. Texto completo

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