Privação de andrógenos isolada não é mais aceitável no tratamento do câncer de próstata

Neil Osterweil

Notificação

23 de setembro de 2021

Novos dados recém-apresentados sobre o tratamento do câncer de próstata de novo metastático sensível a castração devem "mudar a prática" clínica, dizem especialistas.

"Se algo acontecer, não importa o que você faça, não opte por terapia de privação de androgênio isolada para esses pacientes", comentou a Dra. Eleni Efstathiou, Ph.D., médica do Houston Methodist Cancer Center, nos Estados Unidos.

Ela estava falando sobre os novos resultados do estudo PEACE-1, que mostram que, independentemente do esquema terapêutico padrão sendo usado, acrescentar abiraterona tem um "impacto clinicamente significativo na sobrevida".

A Dra. Eleni foi convidada a comentar o estudo após a apresentação dos resultados de longo prazo na reunião anual da European Society for Medical Oncology (ESMO).

Adicionar abiraterona à terapia de privação de androgênio + docetaxel resultou em um aumento significativo na sobrevida livre de progressão radiográfica e na sobrevida global em comparação com o tratamento padrão.

Os desfechos, incluindo uma mediana de 2,5 anos no aumento da sobrevida livre de progressão radiográfica e de 25% na redução do risco de morte com abiraterona, foram significativos, apesar de uma alta proporção de pacientes no braço de controle recebendo tratamento padrão ter migrado para o braço da abiraterona durante o estudo, observou o primeiro autor, Dr. Karim Fizazi, Ph.D., médico do Institut Gustave Roussy e da Université Paris-Saclay, na França.

"Acreditamos que os dados mudarão a prática clínica. Ao menos os homens com câncer de próstata metastático de novo de alto volume devem receber terapia de privação de androgênio + docetaxel + abiraterona em função das evidências de que esta tripla associação retardará a progressão radiográfica ou morte em 2,5 anos e aumentará a sobrevida em 1,5 ano", disse ele.

"É um estudo que mudará a prática clínica", concordou a Dra. Eleni. "Os desfechos positivos são certamente significativos quando se trata de sobrevida livre de progressão radiográfica e sobrevida global, com exceção da doença de baixo volume."

Lógica e desenho do estudo PEACE-1

Desde 2015, o padrão de tratamento para homens com câncer de próstata metastático sensível a castração tem sido terapia de privação de androgênio associada a docetaxel, inibidores da sinalização de andrógenos (p. ex., abiraterona e enzalutamida) ou radioterapia para o tumor primário para homens com baixa carga metastática.

Até a divulgação dos novos resultados do estudo PEACE-1, não estava claro se a terapia de privação de androgênio + uma associação de outras terapias poderia melhorar ainda mais os resultados, disse o Dr. Karim.

O ensaio de fase 3 teve um planejamento fatorial de 2 x 2. Homens com câncer de próstata de novo metastático sensível a castração e 0 a 2 pontos no performance status do Eastern Cooperative Oncology Group em terapia de privação de androgênio contínua foram estratificados por performance status, locais metastáticos (linfonodos, ossos ou vísceras), tipo de castração (orquiectomia versus agonista ou antagonista de hormônio liberador de hormônio luteinizante) e docetaxol, e foram então distribuídos aleatoriamente de forma igualitária para um dos quatro braços do estudo.

Todos os participantes receberam tratamento padrão, que foi terapia de privação de androgênio com ou sem docetaxel.

Os braços do estudo foram:

  • tratamento padrão isolado: 296 pacientes;

  • tratamento padrão + abiraterona: 292 pacientes;

  • tratamento padrão + radioterapia: 293 pacientes; e

  • tratamento padrão + radioterapia + abiraterona.

Risco de progressão reduzido pela metade

Para os pacientes que receberam abiraterona + terapia de privação de androgênio + docetaxel (com ou sem radioterapia), a mediana de sobrevida livre de progressão radiográfica foi de 4,5 anos, em comparação com 2,0 anos para pacientes que receberam apenas o tratamento padrão. Isso se traduziu em uma razão de risco (HR, sigla do inglês Hazard Ratio) para a progressão com abiraterona de 0,50 (P < 0,0001).

Para homens com alta carga metastática, a mediana de sobrevida livre de progressão radiográfica foi de 4,1 anos com abiraterona, em comparação com 1,6 anos para o tratamento padrão isolado (HR de 0,47; P < 0,0001).

O benefício foi menos pronunciado entre homens com metástase de baixo volume, porque nesse grupo houve relativamente menos casos de progressão ou morte. A sobrevida livre de progressão radiográfica mediana entre os homens neste grupo que receberam abiraterona + tratamento padrão não foi alcançada; de 2,7 anos para o grupo tratamento padrão isolado (HR de 0,58; P = 0,006; o desenho do estudo exigia um valor P < 0,001 para a significância estatística de sobrevida livre de progressão radiográfica).

Na população geral do estudo, a sobrevida global mediana foi de 5,7 anos para os pacientes que receberam o tratamento padrão + abiraterona versus 4,7 anos para aqueles que receberam tratamento padrão isolado. A HR para óbito com abiraterona foi de 0,82 (P = 0,030).

Entre os pacientes que receberam terapia de privação de androgênio + docetaxel com ou sem radioterapia, a sobrevida global mediana não foi atingida no momento do corte de dados em junho de 2021; foi de 4,4 anos para o tratamento padrão isolado (HR de 0,75; P = 0,017).

O benefício de sobrevida geral da abiraterona entre os pacientes que também receberam terapia de privação de androgênio + docetaxel ocorreu quase exclusivamente entre os pacientes com alta carga metastática. A sobrevida global mediana foi de 5,1 anos versus 3,5 anos com o tratamento padrão, o que se traduziu em uma HR para óbito com abiraterona de 0,72 (P = 0,019).

Em contraste, entre os homens com doença de baixo volume, a sobrevida global mediana não foi alcançada em nenhum dos braços de comparação. Houve 29 mortes entre 131 pacientes que receberam abiraterona e 31 entre 123 pacientes que receberam tratamento padrão isolado. A HR de 0,83 favorecendo a abiraterona não foi estatisticamente significativa.

Entre os pacientes tratados com terapia de privação de androgênio + docetaxel como tratamento padrão isolado (com ou sem radioterapia), 84% receberam tratamentos adicionais para prolongar a sobrevida após a progressão e 81% receberam terapias hormonais de próxima geração. Em contraste, entre os pacientes que também receberam abiraterona, os respectivos percentuais foram de 74% e 46%.

Sete dos 346 pacientes que receberam abiraterona morreram. Ocorreram três mortes entre os pacientes que receberam tratamento padrão isolado. Os eventos adversos mais frequentes com a abiraterona foram toxicidade hepática, hipertensão e hipocalemia.

Opções de tratamento

A Dra. Eleni afirmou que os pontos fortes do estudo PEACE-1 são a estratégia de associação terapêutica, que ajuda a resolver questões que estavam em aberto; um desenho comparativo entre uma estratégia experimental e a prática clínica padrão; e o uso de tratamentos acessíveis às práticas da comunidade.

Ainda incerto, no entanto, é como a associação de terapia de privação de androgênio, docetaxel e abiraterona se compara com terapia de privação de androgênio + abiraterona isolada.

Em suma, ela disse que os dados mais recentes do PEACE-1 e de outros estudos com docetaxel e inibidores de sinalização de andrógenos sugerem que a monoterapia com terapia de privação de androgênio não é mais aceitável para o tratamento de homens com câncer de próstata metastático sensível a castração.

As possíveis opções de tratamento incluem associações de terapia de privação de androgênio + abiraterona, enzalutamida ou apalutamida, ou terapia de privação de androgênio + docetaxel; e uma tripla associação de terapia de privação de androgênio + docetaxel + abiraterona, especialmente para pacientes com doença de alto volume.

Ela disse que mais dados são necessários sobre a possível associação de terapia de privação de androgênio + docetaxel e apalutamida ou enzalutamida.

O estudo PEACE-1 é financiado pela Janssen, Ipsen, Sanofi e EORTC. O Dr. Karim recebeu remuneração por consultoria da Janssen, Sanofi e outras empresas. A Dra. Eleni recebeu apoio para pesquisa ou remuneração por consultoria da Janssen-Cilag, Sanofi e outras empresas.

Encontro anual de 2021 da European Society for Medical Oncology (ESMO): Abstract LBA5_PR. Apresentado em 19 de setembro de 2021.

Neil Osterweil, um premiado jornalista médico, é colaborador recorrente e de longa data do Medscape.

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