Dermatite atópica duplica risco de problemas psiquiátricos em crianças

Ted Bosworth

Notificação

23 de setembro de 2021

Crianças com dermatite atópica grave têm probabilidade cerca de duas vezes maior de apresentar depressão e comportamento de internalização do que crianças sem a doença, de acordo com um estudo de coorte publicado recentemente feito com mais de 11.000 crianças entre 3 e 18 anos.

Junto com estudos anteriores, que também associaram a dermatite atópica à depressão e outros problemas psiquiátricos em crianças, esses dados destacam a necessidade de "conscientização clínica sobre as necessidades psicossociais de crianças e adolescentes com dermatite atópica", relatou uma equipe de pesquisadores da University of California e University of Pennsylvania nos Estados Unidos e da London School of Hygiene and Tropical Medicine no Reino Unido.

Diferentemente de outros estudos, a pesquisa em pauta, que foi publicada on-line em 1º de setembro no periódico JAMA Dermatology, avaliou as crianças longitudinalmente e não em um único momento. A média do tempo de acompanhamento foi de 10 anos.  Para crianças com dermatite atópica ativa versus sem dermatite atópica, a razão de chances (OR, sigla do inglês odds ratio) de depressão global não foi significativa após o ajuste para variáveis como fatores socioeconômicos.

No entanto, o risco foi mais de duas vezes maior entre as crianças com dermatite atópica grave, mesmo após o ajuste (OR ajustada de 2,38; intervalo de confiança, IC, de 95% de 1,21 a 4,72), segundo relataram os pesquisadores – liderados pela autora sênior Dra. Katrina Abuabara, médica e professora associada de dermatologia e epidemiologia na University of California, San Francisco (UCSF), nos EUA.

Sintomas de internalização observados na dermatite atópica de leve a grave

O comportamento de internalização, que está intimamente ligado à depressão e descreve um espectro de atividades de foco interno, como retraimento social, foi significativamente mais comum em crianças com qualquer grau de dermatite atópica do que naquelas sem a doença. Após o ajuste, o aumento do risco foi de 29% naquelas com dermatite atópica leve (OR ajustada de 1,29; IC 95% de 1,06 a 1,57) para mais de 80% em crianças com dermatite atópica moderada (OR ajustada de 1,84; IC 95% de 1,40 a 2,41) e grave (OR ajustada de 1,90; IC 95% de 1,14 a 3,16).

No estudo, a depressão foi verificada por meio do Short Moods and Feelings Questionnaire. A resposta dos pais à subescala de sintomas emocionais do Strength and Difficulties Questionnaire foi usada para avaliar o comportamento de internalização.

Os dados são provenientes do Estudo Longitudinal Avon para Pais e Filhos (ALSPAC, sigla do inglês Avon Longitudinal Study for Parents and Children), uma coorte que inscreveu gestantes de uma determinada região no sudoeste da Inglaterra e, em seguida, acompanhou as crianças nascidas dessas gestações. Foram disponibilizados para o trabalho em tela os dados de 11.181 das 14.062 crianças inscritas no ALSPAC.

Uma metanálise anterior de estudos que documentaram uma associação entre dermatite atópica e eventos adversos no humor e psiquiátricos, identificou um impacto em crianças e adultos. Em crianças, a dermatite atópica foi associada a um aumento de 27% no risco de depressão (OR de 1,27; IC 95% de 1,12 a1,45). Em adultos, o risco foi mais de duas vezes maior (OR de 2,19; IC 95% de 1,87 a 2,57). A mesma metanálise constatou que o risco de ideação suicida entre adolescentes e adultos com dermatite atópica foi mais de quatro vezes maior (OR de 4,32; IC 95% de 1,93 a 9,66).

Nos dados do ALSPAC, os pesquisadores não conseguiram encontrar evidências convincentes de que a presença de distúrbios do sono ou asma concomitante tenha contribuído para o aumento do risco de depressão; um mecanismo anteriormente proposto por outros pesquisadores.

Em uma entrevista, a Dra. Katrina afirmou que esses e outros dados fornecem a base para o incentivo à conscientização clínica a respeito das necessidades psicológicas de crianças com dermatite atópica, mas a médica sugeriu que há uma lacuna no entendimento sobre o que isso significa em termos clínicos. “Precisamos de mais dados sobre como os dermatologistas podem efetivamente rastrear e tratar esses pacientes antes de tentarmos definir as expectativas para a prática clínica”, disse ela.

Além disso, esses dados, juntamente com os de estudos já publicados, sugerem que a mudança nos desfechos psiquiátricos deve ser incluída na avaliação de novas terapias, de acordo com a Dra. Katrina. Ela observou que existem várias ferramentas para avaliar a saúde mental de crianças potencialmente adequadas, cada uma com suas vantagens e desvantagens.

"Idealmente, as recomendações seriam publicadas a partir de um processo de consenso entre pacientes, médicos, pesquisadores e representantes da indústria, trabalhando juntos, como foi feito no caso de outros desfechos com o grupo Harmonizing Measures for Eczema (HOME)", explicou a Dra. Katrina.

Recomenda-se avaliação psiquiátrica

Estudos anteriores que avaliaram a relação entre dermatite atópica e depressão também recomendaram o acréscimo dos desfechos psiquiátricos a uma avaliação da eficácia das terapias para dermatite atópica.

O Dr. Jonathan I. Silverberg, Ph.D., médico e professor associado de dermatologia, George Washington University, nos EUA, é um dos pesquisadores que defende esta recomendação. Ele já monitora a depressão de seus pacientes de forma sistemática com a Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão.

"Essa escala foi validada na dermatite atópica e fornece informações muito importantes sobre a carga emocional da doença", explicou o Dr. Jonathan, cujo artigo mais recente sobre o assunto foi publicado no início deste ano. Nesse estudo, a relação entre dermatite atópica e depressão foi mais pronunciada em crianças brancas de famílias com renda mais baixa.

"Há poucas horas, um paciente me agradeceu por perguntar sobre sua saúde mental e por reconhecer os efeitos holísticos da dermatite atópica", disse o Dr. Jonathan.

O estudo que se baseou nos dados do ALSPAC traz mais evidências de que a dermatite atópica, particularmente na forma grave, produz efeitos deletérios na saúde mental de crianças, e o Dr. Jonathan acredita que os médicos deveriam se guiar por essas evidências.

“Eu incentivo fortemente que os médicos avaliem a saúde mental de rotina. Isso irá elevar a qualidade do atendimento oferecido, e os pacientes irão apreciá-los mais por isso”, concluiu.

A Dra. Katrina e outro autor informaram ter recebido financiamento de pesquisa da Pfizer para suas universidades para trabalhos não relacionados; não houve outras divulgações. O Dr. Jonathan informou relações financeiras com mais de 15 empresas farmacêuticas.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.com Medscape Professional Network.

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