Inteligência artificial em mamografia ainda não substitui avaliadores humanos

M. Alexander Otto

Notificação

22 de setembro de 2021

A inteligência artificial (IA) tem um longo caminho antes de se tornar rotina na triagem do câncer de mama, diz equipe que revisou estudos recentes sobre a tecnologia.

"Os sistemas de inteligência artificial não são suficientemente específicos para substituir a revisão de radiologistas em programas de triagem", concluíram os autores do estudo.

A revisão foi publicada on-line em 02 de setembro no periódico BMJ.

Tem havido muito alarde em relação ao uso da inteligência artificial na radiologia, inclusive de alguns artigos de opinião sugerindo que "a substituição dos radiologistas pela inteligência artificial é iminente", pois computadores não sentem sono nem têm dias ruins. Além disso, seu desempenho está em constante ascensão, explicaram os revisores, liderados por Karoline Freeman, pesquisadora da University of Warwick, no Reino Unido.

No entanto, ainda está longe de haver a quantidade necessária de evidências de qualidade para que a inteligência artificial seja incorporada à mamografia de rotina, disseram os autores.

A equipe extraiu dados de 12 estudos que descreveram a precisão do teste de algoritmos de IA isolado ou feito junto com radiologistas. Esses estudos foram selecionados a partir de uma extensa revisão da literatura com a metodologia mais sólida.

No total, os estudos incluíram 131.822 mulheres que passaram pelo rastreamento para câncer de mama de 2010 a maio de 2021.

Entre outras análises, os pesquisadores compararam o desempenho da inteligência artificial e do radiologista em relação a resultados de biópsias.

Os autores constataram que nos três maiores estudos retrospectivos, que incluíram 79.910 mulheres rastreadas na Europa e nos Estados Unidos, a maioria dos sistemas de inteligência artificial (34 de 36; 94%) era menos precisa do que um radiologista sozinho, e que todos os sistemas eram menos precisos do que dois ou mais radiologistas.

Além disso, resultados promissores de pequenos estudos não foram replicados em estudos maiores, e não houve estudos prospectivos de vida real avaliando a precisão do teste com IA.

As atuais evidências "ainda não permitem uma avaliação da acurácia da inteligência artificial nos programas de rastreamento para câncer de mama, e não está claro onde na prática clínica a inteligência artificial pode ser mais útil", comentaram os revisores.

"Complementar, ao invés de competir com os radiologistas, é um caminho potencialmente promissor”, talvez usando a “inteligência artificial para pré-selecionar mamografias normais e de fácil interpretação que não necessitem de revisão posterior", sugeriram.

Separando o joio do trigo

A esta altura, os ensaios clínicos randomizados são cruciais para determinar o papel adequado da inteligência artificial no rastreamento do câncer de mama, incluindo ensaios que coloquem um sistema de inteligência artificial contra outro, disseram os revisores.

A médica Dra. Constance Lehman, Ph.D., chefe de exames de imagem da mama no Massachusetts General Hospital, Estados Unidos, disse ao Medscape que ela concorda.

Avaliações como esta são "fundamentais para uma avaliação cuidadosa da implementação da inteligência artificial na prática clínica”, mas “ensaios rigorosos, propostos pelos autores, nos aproximarão de compreender os riscos e benefícios dos sistemas atualmente disponíveis", disse ela.

Os revisores sugerem que a razão para os seus achados terem sido menos otimistas do que os relatórios e artigos de opinião anteriores provavelmente reside na ênfase na qualidade do estudo e nas “comparações com a precisão dos radiologistas". Além disso, muitas publicações extraíram "as partes de ‘simulação’ dos estudos, que foram muito usadas como manchetes de artigos e muitas vezes estimavam maior precisão para a inteligência artificial do que os dados empíricos demonstravam".

Na análise em tela os pesquisadores não fizeram isso; eles se pautaram em dados da vida real, afirmam.

Cinco pequenos estudos incluídos no relatório do periódico BMJ concluíram que a inteligência artificial é mais precisa do que a leitura de um radiologista sozinho, mas "esses estudos examinaram imagens mamográficas de mulheres em um contexto experimental, o que não é generalizável para a prática clínica".

Em um sexto pequeno estudo, a comparação foi em relação a um radiologista sozinho "com uma precisão abaixo da esperada na prática clínica habitual".

Os revisores esperam que "destacar as deficiências” inspire os “gestores a pressionarem por evidências de qualidade sobre a precisão do teste antes da "integração da inteligência artificial aos programas de rastreamento para câncer de mama".

Eles observaram, no entanto, que os sistemas de inteligência artificial estão em constante aprimoramento, portanto, análises como esta podem estar desatualizadas quando publicadas.

O estudo foi encomendado pelo UK National Screening Committee. Os pesquisadores e a Dra. Constance informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

BMJ. Publicado on-line em 02 de setembro de 2021.

M. Alexander Otto é médico assistente, tem mestrado em ciências médicas. Ele é um jornalista premiado, que trabalhou para diversos portais de notícias antes de se juntar ao Medscape. M. Alexander é fellow do MIT Knight Science Journalism. E-mail: aotto@mdedge.com.

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