Seis meses de trastuzumabe foram eficazes para tratar o câncer de mama HER2+

Liam Davenport

Notificação

21 de setembro de 2021

O trastuzumabe complementar após a cirurgia (Herceptin, Roche) pode ser administrado com segurança para pacientes com câncer de mama inicial HER2+ durante seis meses em vez de 12 meses, sem nenhum impacto na eficácia do tratamento, de acordo com uma análise dos dados de cada paciente proveniente de cinco ensaios importantes no Reino Unido.

A Professora Emérita Dra. Helena Earl, Ph.D., médica do departamento de oncologia do Addenbrooke’s Hospital, Cambridge, e colaboradores, combinaram dados em mais de 11.000 pacientes tratadas com trastuzumabe por nove semanas ou seis meses em comparação ao esquema atual de 12 meses.

Constataram que o tratamento das pacientes com câncer de mama HER2+ em fase inicial durante seis meses não era inferior ao tratamento contínuo durante 12 meses, sem diferença significativa nos índices de sobrevida sem doença invasiva em cinco anos.

Entretanto, ao comparar nove semanas de trastuzumabe a 12 meses, os índices de sobrevida livre de doença invasiva foram menores com a menor duração do tratamento, e acima do limite pré-especificado de não inferioridade, indicando mau desempenho.

A pesquisa foi apresentada na reunião anual de 2021 da European Society for Medical Oncology (ESMO) em 17 de setembro.

E agora?

“Existe não inferioridade com seis meses de trastuzumabe em comparação a 12 meses, e isso foi confirmado”, disse a Dra. Helena, mas a não inferioridade de nove semanas versus 12 meses “não foi confirmada”.

No entanto, a questão-chave é: “E agora?"

A especialista explicou que existe uma “preferência prévia de desfecho, que é bastante forte, que 12 meses devem permanecer como tratamento de escolha, portanto serão feitas importantes críticas estatísticas à nossa análise".

A Dra. Helena disse que há outros fatores que poderiam pesar contra a modificação da prática médica em resposta a seus achados, como a “aversão à perda” e pela “força do hábito”.

“De modo que as implicações para a prática clínica nos países que fazem 12 meses de trastuzumabe” é que “devemos considerar alterar as diretrizes para possibilitar a escolha personalizada de cada paciente".

A pesquisadora sugeriu que as pacientes fazendo monoterapia com trastuzumabe após seis meses de tratamento vejam “as evidências de que continuar até 12 meses só traz um benefício adicional marginal".

Então, “as pacientes, junto com seus oncologistas, podem escolher se continuam até completar 12 meses", disse a especialista.

Grande valor

O Dr. Antonio Llombart-Cussac, médico do Departamento de Oncologia, Hospital Arnau de Vilanova (Espanha), que não participou do estudo, deu as boas-vindas à análise.

Ele comentou, no entanto, que, para uma decisão clínica a ser tomada sobre a duração do tratamento com trastuzumabe, “seria de grande valor” uma metanálise levando em conta os fatores prognósticos clássicos.

O médico também observou que há evidências de que a quimioterapia pode ser retrocedida no câncer de mama  HER2+ de baixo risco em estágio inicial, em vez de 12 meses de trastuzumabe, mas nenhum ensaio clínico atualmente está estudando a “quimioterapia concomitante e regressão do trastuzumabe".

Dr. Antonio questionou: “A associação de paclitaxel e trastuzumabe semanal durante seis meses é uma opção razoável, apesar de não ter sido testada em um ensaio clínico?"

O médico também indicou que vários estudos têm observado estratégias de associação, como o conjugado anticorpo-medicamento trastuzumabe entansina (Kadcila, Roche), com o qual os benefícios são “muito maiores do que as diferenças absolutas observadas entre os esquemas de 6 ou 12 meses de trastuzumabe".

Globalmente, Dr. Antonio acredita que a intensidade e duração do tratamento “devem ser moduladas” por critérios de risco, com o tratamento de menor intensidade considerado “de escolha” nos casos de baixo risco, enquanto a sensibilidade e/ou a resistência farmacológicas devem ser levadas em consideração para os pacientes de alto risco.

O Dr. Antonio acrescentou que, se os médicos quiserem “empurrar” a estratégia de seis meses para o trastuzumabe, precisam convencer os órgãos regulamentadores, porque se a US Food and Drug Administration ou a European Medicines Agency “não aceitarem que este possa ser um braço de controle razoável (...) será difícil continuar a construir uma estratégia no futuro".

No Twitter, o Dr. Nagi S. El-Saghir, médico e professor de medicina do Naef K. Basile Cancer Institute, American University of Beirut Medical Center, Beirut no Líbano, descreveu a metanálise como “muito importante”.

https://twitter.com/nagisaghir/status/1438868680700571653?s=21

O Dr. Nagi concordou que com a Dra. Helena que a duração de seis meses do trastuzumabe deve ser conversada com cada pacientes e “merece estar nas diretrizes para as pacientes de baixo risco”.

No entanto, Dr. Nagi advertiu que a “regredir" um tratamento é mais difícil do que implementá-lo.

Detalhes do estudo

A Profa. Helena explicou que, para a esta análise, sua equipe examinou os dados da duração do tratamento com trastuzumabe em cinco ensaios clínicos de não inferioridade randomizados e controlados, para o câncer de mama HER2+ em fase inicial.

Três ensaios clínicos compararam 12 meses a 6 meses de tratamento: PERSEPHONE com 4.088 pacientes; PHARE com 3.380 pacientes; e HORG com 493 pacientes. Os dois estudos restantes examinaram 12 meses em comparação a nove semanas de trastuzumabe: SOLD com 2.174 pacientes; e SHORT-HER, com 1.254 pacientes.

No total, 11.389 pacientes foram incluídas na análise e a equipe fez uma análise por intenção de tratamento individual dos dados das pacientes, a partir do início do protocolo de tratamento.

Um modelo de efeitos aleatórios mostrou que, na combinação dos cinco ensaios, a sobrevida livre de doença invasiva em cinco anos foi de 88,46% por um período de tratamento de 12 meses versus 86,87% por períodos de tratamento mais curtos.

A razão de risco ajustada para 12 meses versus menor duração do tratamento com trastuzumabe não foi significativa, de 1,14 (intervalo de credibilidade de 95%, ICr, 0,88 a 1,47), no qual o limiar de não inferioridade foi de 1,19 (P = 0,37).

Olhando a seguir os ensaios clínicos com tratamento de 12 meses em comparação aos de seis meses, a equipe constatou que, para os resultados combinados dos três ensaios, os índices de sobrevida livre de doença invasiva em cinco anos foram de 89,26% e 88,56%, respectivamente, com uma razão de risco ajustada de 1,07 (ICr de 95% 0,98 a 1,17), sem significado estatístico.

A Dra. Helena destacou que isto “é significativamente menor do que o limite de não inferioridade” de 1,20 (P = 0,02).

Por outro lado, os dois ensaios combinados de 12 meses versus nove semanas indicaram que os índices de sobrevida livre de doença invasiva em cinco anos foram de 91,40% e 89,22%, respectivamente, com razão de risco ajustada de 1,27 (ICr de 95% 1,07 a 1,49), estatisticamente significativa.

Isto, disse a professora Helena, está “bem acima” do limiar de não inferioridade de 1,25 (P = 0,56).

O estudo foi financiado em grande parte pelo governo do Reino Unido.

A Profa. Dra. Helena Earl informa ter relações com a Asian Society for Continuing Medical Education, Intas Pharmaceuticals.

O Dr. Antonio Llombart-Cussac informa ter relações com as empresas MedSIR, Initia Research, Eisai, Celgene-BMS, Lilly, Pfizer, Roche, Novartis, MSD, Tesaro-GSK, Pierre-Fabre e Genomic Health.

ESMO Congress 2021 : Abstract LBA11. Apresentado em 17 de setembro.

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