Covid-19 prolongada pode causar problemas renais no futuro

Maureen Salamon

Notificação

21 de setembro de 2021

Os médicos que cuidam de sobreviventes da covid-19 devem verificar rotineiramente a função renal, que muitas vezes é comprometida pelo SARS-CoV-2 meses após a resolução de casos graves e leves, indica uma nova pesquisa.

O maior estudo e com o maior tempo de acompanhamento dos desfechos renais associados à covid-19 já realizado também constatou que todo tipo de problema renal, incluindo doença renal em estágio terminal, foi muito mais comum em sobreviventes da covid-19 que passaram pela unidade de terapia intensiva (UTI) ou tiveram lesão renal aguda durante a internação.

Os pesquisadores analisaram dados da US Veterans Health Administration de mais de 1,7 milhão de pacientes, incluindo mais de 89.000 que testaram positivo para covid-19.

O estudo foi publicado on-line em 1º de setembro no periódico Journal of the American Society of Nephrology.

O risco de problemas renais "é mais robusto ou pronunciado em pessoas que tiveram infecção grave, mas está presente até mesmo na doença assintomática e leve, que não deve ser desconsiderada. Essas pessoas representam a maioria das pessoas com covid-19", disse o autor sênior, Dr. Ziyad Al-Aly, médico do VA St. Louis Health Care System, nos Estados Unidos.

“É por isso que os resultados são importantes, porque mesmo em pessoas com doença leve, o risco de problemas renais não é trivial”, disse ele ao Medscape. "É menor do que o das pessoas que passaram pela UTI, mas não é zero."

Os especialistas ainda não têm certeza de como a covid-19 pode comprometer os rins e teorizam que vários fatores podem estar em jogo. O vírus pode infectar diretamente as células renais, que são ricas em receptores da enzima conversora de angiotensina 2 (ECA2), fundamentais para a infecção, disse o nefrologista Dr. F. Perry Wilson, da Yale University School of Medicine e membro do conselho consultivo do Medscape nos EUA.

Os rins também podem ser particularmente vulneráveis à cascata inflamatória ou à coagulação frequentemente observada na covid-19, sugeriram os Drs. Ziyad e Perry Wilson.

Sobreviventes da covid-19 têm mais chances de comprometimento renal

“Muitos sistemas de saúde têm ou estão criando clínicas de atendimento pós-covid-19, e achamos que essas clínicas definitivamente deveriam incorporar um componente renal”, aconselhou o Dr. Ziyad. "O sangue e a urina dos pacientes devem ser verificados para problemas renais."

Isso é particularmente importante, porque "os problemas renais, em sua maioria, são indolores e silenciosos", acrescentou.

“Perceber, dois anos depois, que alguém tem doença renal em estágio terminal, quando precisa de diálise ou transplante, não é o que queremos. Não queremos que isso deixe de ser reconhecido, nem cuidado, nem tratado”, disse ele.

Dr. Ziyad e colaboradores avaliaram os registros do sistema de saúde do VA, incluindo dados de 89.216 pacientes com exame positivo para covid-19 entre março de 2020 e março de 2021, bem como 1,7 milhão de controles que não tinham covid-19. Ao longo de um acompanhamento médio de cerca de 5,5 meses, a taxa de filtração glomerular estimada (eTFG) e os níveis de creatinina sérica dos participantes foram rastreados para avaliar a saúde renal e os desfechos de acordo com a gravidade da infecção.

Os resultados foram surpreendentes, com os sobreviventes da covid-19 tiveram probabilidade cerca de 33% maior do que os controles de apresentar comprometimento renal ou declínios significativos na função renal entre um e seis meses após a infecção. Mais de 4.700 sobreviventes de covid-19 perderam pelo menos 30% da função renal em um ano, e esses pacientes tiveram probabilidade 25% maior de atingir esse nível de declínio do que os controles.

Além disso, os sobreviventes da covid-19 apresentaram quase duas vezes mais chances de lesão renal aguda e quase três vezes mais chances de serem diagnosticados com doença renal terminal do que os controles.

Se o seu paciente teve covid-19, "é bom verificar a função renal"

"Esta informação nos diz que, se o seu paciente teve covid-19 e foi a uma consulta de acompanhamento, é bom verificar a função renal dele", destacou ao Medscape o Dr. Perry Wilson, que não participou da pesquisa.

"Mesmo para os pacientes que não foram hospitalizados, se ficaram de repouso ou desidratados, isso deve fazer parte do pacote de cuidados pós-covid-19", disse ele.

Se apenas uma fração dos milhões de sobreviventes de covid-19 nos Estados Unidos evoluírem com problemas renais de longo prazo, o efeito cascata sobre a saúde americana pode ser substancial, concordaram os Drs. Ziyad e Perry Wilson.

“Ainda estamos vivendo em uma pandemia, então é difícil determinar o impacto total”, disse o Dr. Ziyad. "Mas isso, em última análise, contribuirá para um aumento do impacto de doenças renais. Esta e outras manifestações prolongadas da covid-19 vão alterar o panorama do atendimento clínico e da saúde nos Estados Unidos por uma década ou mais."

Como os problemas renais podem limitar as opções de tratamento de outras doenças importantes, incluindo diabetes e câncer, os comprometimentos renais associados à covid-19 podem, em última instância, impactar a sobrevida.

"Existem muitos medicamentos que não podem ser usados em pessoas com problemas renais avançados", disse o Dr. Ziyad.

A principal limitação do estudo foi que os pacientes eram em sua maioria homens brancos mais velhos (média de idade de 68 anos), embora mais de 9.000 mulheres tenham sido incluídas nos dados do VA, observou o Dr. Ziyad. Além disso, os controles tiveram maior probabilidade de ser mais jovens, negros, morar em instituições de longa permanência e apresentar taxas mais altas de doenças crônicas e uso de medicamentos.

Os especialistas concordaram que a pesquisa em andamento para monitorar os resultados renais é crucial nos próximos anos.

"Também precisamos acompanhar uma coorte desses pacientes como parte de um protocolo de pesquisa, no qual eles voltem a cada seis meses para uma série de exames laboratoriais padronizados para que a gente realmente entenda o que está acontecendo com os seus rins", disse o Dr. Perry Wilson.

“Por último – e algo muito mais difícil – é o fato de precisarmos de biópsias. É muito difícil inferir o que está acontecendo em doenças complexas com os rins sem tecido de biópsia”, acrescentou.

O estudo foi financiado pela American Society of Nephrology e pelo US Department of Veterans Affairs. Os Drs. Ziyad e Perry informaram não ter conflitos de interesses.

J Am Soc Nephrol. Publicado on-line em 1º de setembro de 2021.  Abstract

Maureen Salamon é jornalista de saúde freelancer. Ela mora em New Jersey e assina matérias publicadas no New York Times, Atlantic, CNN.com e outros grandes veículos.

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