Estudo avalia quantidade de passos diários como parâmetro de mortalidade

Will Pass

Notificação

21 de setembro de 2021

Dar pelo menos 7.000 passos por dia pode reduzir o risco de morte em até 70% entre pessoas de meia-idade, de acordo com dados prospectivos de mais de 2.000 indivíduos.

Os resultados foram consistentes, independentemente de raça ou sexo, e a intensidade dos passos não teve impacto no risco de morte, segundo a primeira autora do estudo, Dra. Amanda E. Paluch, Ph.D., da University of Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos, e seus colaboradores.

"Em resposta à necessidade de dados empíricos sobre a associação entre quantidade/intensidade de passos e mortalidade em populações mais jovens e diversas, realizamos um estudo prospectivo com adultos negros e brancos de meia-idade acompanhados para mortalidade por aproximadamente 11 anos", escreveram os pesquisadores no periódico JAMA Network Open . "O objetivo do nosso estudo foi examinar as associações entre quantidade/intensidade de passos e mortalidade global e por raça e sexo".

Passos por dia: um parâmetro simples

A Dra. Amanda observou que a quantidade de passos por dia é um "parâmetro muito atraente para mensurar a atividade", tanto para pesquisadores quanto para leigos.

A quantidade de "passos por dia é algo simples e fácil de comunicar em ambientes clínicos e de saúde pública", disse a Dra. Amanda em uma entrevista.

"Além disso, o enorme aumento de dispositivos vestíveis (wearables, em inglês) que contam os passos torna atraente e amplia o alcance da promoção da atividade física para muitos indivíduos. Caminhar é uma atividade que a maioria da população geral pode praticar. Além de poder ser acumulada ao longo do dia, talvez pareça mais exequível, de modo a caber na correria do cotidiano, do que uma sessão de exercícios estruturada".

A pesquisa em tela foi realizada como parte do Coronary Artery Risk Development in Young Adults (CARDIA). O conjunto de dados incluiu 2.110 participantes entre 38 e 50 anos de idade (média de 45,2 anos). Uma porcentagem ligeiramente maior de participantes era de mulheres (57,1%) e pessoas brancas (57,9%).

Todos os participantes usaram um acelerômetro ActiGraph 7164 por uma semana e então foram acompanhados (média de 10,8 anos) para morte por todas as causas. Os modelos de risco proporcional de Cox com ajuste multivariável incluíram diversas covariáveis, como história de tabagismo, peso corporal, ingestão de álcool, pressão arterial, colesterol total e outros. Os participantes foram categorizados em função da quantidade de passos diários: pequena (< 7.000), moderada (de 7.000 a 9.999) e grande (≥ 10.000).

Em comparação com o grupo que deu uma pequena quantidade de passos por dia, o grupo da quantidade moderada teve um risco de morte reduzido em 72% (razão de risco ou hazard ratio, HR, de 0,28; intervalo de confiança, IC, de 95% de 0,15 a 0,54). Dar mais de 10.000 passos aparentemente não trouxe mais benefícios, com base em um risco 55% menor de morte por todas as causas no grupo que deu uma grande quantidade de passos por dia, em comparação com o grupo da pequena quantidade de passos por dia (HR de 0,45; IC de 95% de 0,25 a 0,81).

Andar mais rápido também não pareceu ajudar, já que a intensidade do passo não foi associada ao risco de morte; no entanto, a Dra. Amanda recomendou uma interpretação cautelosa deste achado, chamando-o de "inconclusivo" e sugerindo que são necessárias mais pesquisas.

"Também é importante observar que este estudo analisou apenas a morte por todas as causas prematura e, portanto, os resultados podem ser diferentes para outros desfechos de saúde como risco de doença cardiovascular, diabetes, câncer ou desfechos de saúde mental", explicou ela.

"Os resultados do nosso estudo demonstraram que as pessoas menos ativas têm mais a ganhar", disse a Dra. Amanda. "Mesmo pequenos acréscimos na quantidade de passos por dia foram associados a um risco de morte menor na meia-idade. Um plano de caminhada que gradualmente alcance de 7.000 a 10.000 passos por dia em pessoas de meia-idade pode ter benefícios para a saúde e reduzir o risco de morte prematura".

Não é possível estabelecer causalidade

De acordo com o Dr. Raed A. Joundi, médico da University of Calgary, no Canadá, o tamanho do estudo, a diversidade da população e a duração do acompanhamento devem aumentar a confiança nos resultados, embora uma relação causal permaneça indefinida.

"Como este estudo é observacional, a causalidade entre a quantidade de passos e a mortalidade não pode ser confirmada; no entanto, os autores levaram em consideração muitos fatores, e a associação foi consistente em diferentes análises e com a literatura anterior", disse o Dr. Raed em uma entrevista. "Os autores não avaliaram o risco de outros eventos importantes, como acidente vascular cerebral (AVC) e infarto do miocárdio, e isso pode ser abordado em um estudo futuro."

O Dr. Raed, que recentemente publicou um estudo associando exercícios a uma redução de 50% na mortalidade após um AVC, observou que "a atividade física traz inúmeros benefícios e é importante que as pessoas se envolvam em atividades que possam ser regulares e consistentes, independentemente do tipo ou da intensidade".

Para tanto, ele destacou o uso de "dispositivos capazes de contar a quantidade de passos dados, o que pode ser uma importante ferramenta motivacional", e sugeriu que os achados do estudo podem trazer um alívio para quem já monitora seus passos diários e fica um pouco aquém da meta de um dia comum.

"A meta de 10.000 passos é bastante usada para promoção da saúde pública, e este estudo agora fornece evidências observacionais convincentes de que pode ser uma meta de contagem de passos ideal para a redução da mortalidade", disse o Dr. Raed. "No entanto, se 10.000 passos por dia não for viável, 7.000 passos parecem ser uma meta muito razoável, dada sua associação com mortalidade significativamente mais baixa neste estudo."

Nem todos os pedômetros são iguais

Infelizmente, essas recomendações são dificultadas pela incerteza na mensuração, visto que os dispositivos com pedômetros mais usados, como os smartwatches, podem não produzir os mesmos resultados que os acelerômetros de nível de pesquisa, de acordo com a Dra. Nicole L. Spartano, Ph.D., da Boston University, nos EUA.

"Muitos estudos de comparação foram conduzidos em ambientes laboratoriais o com jovens adultos saudáveis, mas isso não necessariamente reflete as experiências de uso da vida real, que serão generalizáveis para a população como um todo", escreveu a Dra. Nicole em um editorial que acompanha o estudo.

Ela solicitou a realização de estudos de comparação em grande escala para comparar dispositivos de nível de pesquisa e de consumo.

"A razão para conduzir estudos de comparação não é desenvolver diretrizes distintas para diferentes dispositivos ou subgrupos da população, mas sim compreender a variabilidade para que possamos desenvolver uma mensagem clara, que seja mais apropriada para o público", escreveu a Dra. Nicole. "Alguns dispositivos podem ter vieses em termos de contagem de passos em diferentes intensidades de atividade, e podem não registrar passos com tanta precisão em idosos, indivíduos com obesidade ou distúrbios de mobilidade. Por exemplo, quando adultos obesos usaram o monitor ActiGraph em um ambiente laboratorial, o dispositivo registrou apenas 80% dos passos dados em um ritmo moderado, enquanto outros dispositivos registraram quase 100% dos passos dados. Se nós, da comunidade de saúde pública, pretendemos usar mais esses dispositivos para prescrição de atividades físicas, esses detalhes precisarão ser explorados mais a fundo."

CARDIA foi conduzido e financiado pelo National Heart, Lung, and Blood Institute em colaboração com a University of Alabama, Northwestern University, University of Minnesota e Kaiser Foundation Research Institute. Alguns autores do estudo receberam fundos dos National Institutes of Health e do Kaiser Foundation Research Institute. A Dra. Nicole informou relações com Novo Nordisk, American Heart Association, Alzheimer’s Association e National Institutes of Health. A Dra. Amanda e o Dr. Raed informaram não ter conflitos de interesses.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.com Medscape Professional Network.

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