Dados de acompanhamento do BrighTNess esclarecem o tratamento do câncer de mama triplo negativo

Neil Osterweil

Notificação

19 de setembro de 2021

Os detalhes do que funciona e do que não funciona no tratamento do câncer de mama triplo negativo vêm do acompanhamento prolongado da fase 3 do ensaio clínico randomizado BrighTNess.

A melhora inicial observada nos índices de remissão completa da doença confirmada pela histopatologia com o acréscimo de carboplatina ao paclitaxel e quimioterapia pré-cirúrgica convencional traduziu-se em melhores índices de sobrevida livre de doença para as pacientes com câncer de mama triplo negativo ressecável mais de quatro anos após a cirurgia.

Os benefícios do acréscimo da carboplatina à quimioterapia com paclitaxel, seguida de quatro ciclos de quimioterapia com AC (doxorrubicina e ciclofosfamida), foram observados tanto nas pacientes com mutações BRCA hereditárias como nas portadoras de BRCA do tipo selvagem.

Os resultados do ensaio clínico também demonstraram, no entanto, que não houve benefícios em curto ou longo prazo com o acréscimo ao esquema do veliparibe (ABT-888), um inibidor da polimerase poli-(ADP-ribose) (PARP, do inglês Poly – ADP-Ribose –Polymerase).

Embora a remissão completa da doença confirmada pela histopatologia e os índices de sobrevida livre de doença tenham sido significativamente melhorados com a combinação de paclitaxel e carboplatina comparada ao paclitaxel isolado, não houve diferenças significativas quando o veliparibe foi acrescentado, tanto em termos da remissão completa da doença confirmada pela histopatologia, quanto da sobrevida livre de doença e da sobrevida global.

“Estes achados corroboram em geral a inclusão da carboplatina na quimioterapia pré-cirúrgica para as pacientes com câncer de mama triplo negativo nos estágios 2 e 3, independentemente do estado hereditariedade da mutação BRCA”, concluiu a primeira autora, a Dra. Sibylle Loibl, Ph.D., médica, diretora executiva e presidente do German Breast Group.

A médica apresentou os novos dados durante uma sessão oral virtual no congresso de 2021 da European Society for Medical Oncology (ESMO).

Os resultados do BrighTNess mostram que “a carboplatina pré-cirúrgica junto com paclitaxel é superior ao paclitaxel isolado, com altos índices de remissão completa da doença confirmada pela histopatologia e benefício de índices de sobrevida livre da doença com níveis administráveis de efeitos tóxicos e sem sinais de segurança”, comentou a Dra. Monica Arnedos, Ph.D., médica e chefe do programa de pesquisa sobre o câncer de mama no Institut Bergonié em Bordeaux, na França.

Os achados também colocam de lado a noção de que as pacientes com mutações hereditárias BRCA não se beneficiariam do tratamento com a carboplatina por causa da extrema sensibilidade à quimioterapia pré-cirúrgica convencional.

“O ensaio clínico BrighTNess diz o contrário”, disse a Dra. Monica. “Hoje vemos que a remissão completa da doença confirmada pela histopatologia e a sobrevida livre de progressão da doença independem da hereditariedade da mutação BRCA, de modo que as pacientes com mutação BRCA hereditária precisam de carboplatina pré-cirúrgica”.

Estes novos dados podem promover mudanças nas diretrizes, sugeriu a médica.

Antes destes resultados, as evidências eram que “os sais de platina como quimioterapia pré-cirúrgica aumentavam os índices de remissão completa da doença confirmada pela histopatologia entre as pacientes com câncer de mama triplo negativo, mas isso foi associado a mais efeitos tóxicos, e com maiores índices de interrupção do tratamento e redução da dose, sem evidências fortes de benefício em longo prazo. Isto levou à ausência de consenso para recomendar os sais de platina nestes casos entre as diferentes diretrizes para o tratamento do câncer de mama”.

Os novos dados do BrighTNess mostraram que os melhores índices de remissão completa da doença confirmada pela histopatologia se traduziram em benefício em termos sobrevida livre de progressão da doença nos dois grupos do ensaio que receberam platina, o que está alinhado com o ensaio clínico KEYNOTE-522, mostrando que o acréscimo de pembrolizumabe (Keytruda) à quimioterapia melhorou a remissão completa da doença confirmada pela histopatologia nas pacientes com câncer de mama triplo negativo em estágio inicial.

Os resultados do BrighTNess sugerem que as pacientes com câncer de mama triplo negativo de risco moderado ou alto podem ser tratadas antes da cirurgia com paclitaxel e carboplatina, a seguir com quimioterapia convencional, concomitante ao pembrolizumabe, seguida da cirurgia, e tratamento complementar pós-cirúrgico com pembrolizumabe e olaparibe (Lynparza) para as pacientes com mutações BRCA hereditárias, ou capecitabina para as pacientes sem mutações, propôs a Dra. Monica.

Detalhes do estudo

O ensaio clínico BrighTNess foi feito com 634 pacientes com câncer de mama triplo negativo, sem história de tratamento, confirmado pela histologia ou pela citologia como sendo de estágio 2 a 3, candidatas à cirurgia potencialmente curativa e com desempenho funcional. Foram randomizadas para receber paclitaxel junto com carboplatina e veliparibe, paclitaxel e carboplatina ou somente paclitaxel antes de quatro ciclos de quimioterapia com doxorrubicina e ciclofosfamida (AC).

Os resultados iniciais foram publicados em 2018 no periódico Lancet Oncology e mostraram que o acréscimo do veliparibe à carboxina e ao paclitaxel melhorou os índices de remissão completa da doença confirmada pela histopatologia em comparação ao paclitaxel isolado, mas não ao paclitaxel com carboplatina. Os dados do ensaio clínico corroboraram o acréscimo da carboplatina à quimioterapia pré-cirúrgica convencional, mas não do veliparibe, afirmaram os pesquisadores na época.

Agora, na reunião de 2021 da ESMO, a Dra. Sibylle apresentou resultados do acompanhamento mais prolongado.

Após uma mediana de 4,5 anos de acompanhamento, a razão de risco ou hazard ratio, HR, para sobrevida livre de progressão da doença com a combinação de paclitaxel, carboxina e veliparibe comparada ao paclitaxel isolado foi de 0,63 (P = 0,016). Na análise post hoc, a HR ajustada foi de 0,57 (P = 0,018).

Em um subgrupo de 309 pacientes que apresentaram inicialmente remissão completa da doença confirmada pela histopatologia, a HR de sobrevida livre de progressão da doença comparada aos pacientes sem remissão completa da doença confirmada pela histopatologia foi de 0,26 (P < 0,0001). Entre as pacientes com mutação BRCA hereditária, a HR da sobrevida livre de progressão da doença para as pacientes que tiveram remissão completa da doença confirmada pela histopatologia foi de 0,14 (P > 0,0004), e entre as pacientes com mutação BRCA hereditária e remissão completa da doença confirmada pela histopatologia a HR foi de 0,29 (P > 0,0001).

Entretanto, não houve diferenças significativas na sobrevida global, cuja mediana foi de 4,5 anos após a cirurgia.

Uma análise da frequência da incidência de síndrome mielodisplásica, leucemia mieloide aguda ou outras neoplasias primárias secundárias também não mostrou diferenças significativas entre os grupos, observou a Dra. Sibylle.

Embora tenha havido maiores incidência de neoplasias hematológicas com o acréscimo da carboplatina, com ou sem veliparibe, esses eventos adversos não comprometeram a administração do tratamento nem os benefícios da carboplatina no desfecho primário de remissão completa da doença confirmada pela histopatologia, acrescentou a médica.

O ensaio clínico BrighTNess foi financiado pela AbbVie. A Dra. Sibylle Loibl informou receber subsídios e honorários das empresas AbbVie e outras, inclusive do Medscape. A Dra. Monica Arnedos informou receber honorários, auxílio-viagem e/ou bolsas de pesquisa das empresas AstraZeneca, Novartis, Pfizer e Roche.

ESMO Congress 2021 . Abstract 1190. Apresentado em 17 de setembro de 2021. 

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