Pacientes com doença inflamatória intestinal apresentam novos sintomas gastrointestinais quando infectados por SARS-CoV-2

Heidi Splete

Notificação

17 de setembro de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso  Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2 .

A probabilidade de morte por covid-19 não foi maior entre pacientes com doença inflamatória intestinal (DII) que evoluíram com novos sintomas gastrointestinais após serem infectados pelo SARS-CoV-2, de acordo com dados de um registro internacional com quase 3.000 adultos.

Dr. Ryan C. Ungaro

Embora as pessoas com covid-19 possam apresentar sintomas gastrointestinais, há poucos dados sobre a associação entre esses sintomas e a covid-19 em pacientes com doença inflamatória intestinal, assim como sobre a associação dos sintomas gastrointestinais e os desfechos da covid-19 nesta população, segundo o Dr. Ryan C. Ungaro, médico da Icahn School of Medicine no Mount Sinai, nos Estados Unidos, e seus colaboradores.

Em um estudo publicado no periódico Inflammatory Bowel Diseases , os pesquisadores identificaram 2.917 adultos com doença inflamatória intestinal que tiveram covid-19, a partir do banco de dados Surveillance Epidemiology of Coronavirus Under Research Exclusion in Inflammatory Bowel Disease (SECURE-IBD), um registro global criado para entender os desfechos da covid-19 em pacientes com doença inflamatória intestinal.

Os pesquisadores registraram todos os novos sintomas gastrointestinais apresentados pelos pacientes durante a covid-19. No total, 764 (26,2%) apresentaram novos sintomas gastrointestinais e 2.153 não. O sintoma mais comum foi diarreia, referido por 80% dos pacientes, seguido de dor abdominal em 34%. Náuseas e vômitos foram relatados por, respectivamente, 24% e 12% dos pacientes.

A média de idade dos pacientes foi de 43 anos para aqueles com novos sintomas gastrointestinais e 40 para aqueles sem novos sintomas gastrointestinais; quase metade era de mulheres e aproximadamente três quartos era de pessoas brancas. No total, 50% dos pacientes com novos sintomas gastrointestinais estavam em remissão, assim como 58,4% dos pacientes sem sintomas.

A probabilidade de os pacientes com doença inflamatória intestinal que apresentaram novos sintomas gastrointestinais serem mulheres, asiáticos, idosos ou terem pelo menos uma comorbidade, foi significativamente maior.

Os pesquisadores não encontraram diferença em relação aos novos sintomas gastrointestinais em pacientes com doença de Crohn e colite ulcerativa. “Os pacientes que tomavam qualquer medicamento, mas em particular algum antagonista de fator de necrose tumoral em monoterapia, tiveram menos probabilidade de referir novos sintomas gastrointestinais”, escreveram os autores.

Apesar de, nas análises bivariadas, os pacientes com doença inflamatória intestinal que apresentaram novos sintomas gastrointestinais terem tido uma probabilidade de hospitalização por covid-19 significativamente maior do que aqueles sem novos sintomas gastrointestinais (31,4% versus 19,2%; P < 0,001), esses pacientes não foram mais propensos a precisar de ventilação mecânica ou terapia intensiva (5,8% versus 4,6%; P < 0,18). Na análise multivariada, os pacientes no grupo novos sintomas gastrointestinais não apresentaram maior risco de morte por covid-19 do que aqueles sem novos sintomas gastrointestinais (razão de chances ou odds ratio, OR, ajustada, de 0,72; intervalo de confiança, IC, de 95% de 0,38 a 1,36).

Os novos sintomas gastrointestinais mais comuns em pacientes com doença inflamatória intestinal com covid-19 provavelmente não são causados pela atividade da doença subjacente, em vista da quantidade de pacientes em remissão que refere novos sintomas gastrointestinais, escreveram os pesquisadores.

Os resultados do estudo foram limitados por vários fatores, incluindo o desenho retrospectivo, potencial viés de relato e confiança na avaliação global do médico para a análise da doença, observaram os pesquisadores. No entanto, os resultados foram reforçados pelo grande tamanho da amostra, pela capacidade de avaliar os sintomas gastrointestinais antes e depois da covid-19 e pela avaliação dos sintomas gastrointestinais e dos resultados da covid-19.

“Em suma, novos sintomas gastrointestinais são comuns em pacientes com doença inflamatória intestinal e covid-19, e não estão associados a aumento do risco de morte por covid-19”, concluíram os pesquisadores. "Nossos achados sugerem que o aumento de sintomas gastrointestinais em pacientes com doença inflamatória intestinal deve levantar a suspeita de covid-19."

Dados para orientar os cuidados clínicos

"Existem várias causas possíveis para os sintomas gastrointestinais comuns, como diarreia e dor abdominal, entre pacientes com doença inflamatória intestinal", disse a Dra. Shirley Cohen-Mekelburg, médica da University of Michigan, nos EUA, em uma entrevista. "Podem ser a apresentação inicial de uma exacerbação da doença inflamatória intestinal; uma causa não inflamatória, como síndrome do intestino irritável, crescimento excessivo de bactérias no intestino delgado; ou uma infecção por Clostridioides difficile ou SARS-CoV-2. Cada diagnóstico exige um tratamento diferente. Uma exacerbação da doença inflamatória intestinal pode exigir o aumento de imunossupressores, como biológicos ou corticosteroides, que podem ser deletérios em caso de uma infecção não tratada; portanto, qualquer orientação que aumente a conscientização dos profissionais de saúde sobre as possíveis causas de sintomas gastrointestinais semelhantes é importante no atendimento aos pacientes com doença inflamatória intestinal. Isso é especialmente verdade no contexto de uma entidade mais recente, como a covid-19, com a qual estamos menos familiarizados."

A Dra. Shirley explicou que a ausência de associação entre os sintomas gastrointestinais e a morte na doença inflamatória intestinal é tranquilizadora. “É interessante notar que os sintomas gastrointestinais, e particularmente a nova diarreia, foram muito comuns entre os pacientes com doença inflamatória intestinal e covid-19”, acrescentou.

“Todo estudo tem suas limitações, que precisam ser consideradas na interpretação dos resultados”, observou a Dra. Shirley. "O SECURE-IBD forneceu uma ampla visão sobre as infecções por covid-19 entre os pacientes com doença inflamatória intestinal. No entanto, o registro depende das pessoas que notificam os casos, portanto, há o potencial de subnotificação, particularmente em casos menos sintomáticos ou subclínicos."

"Os profissionais de saúde que atendem pacientes com doença inflamatória intestinal devem ter um alto nível de suspeita de infecção por SARS-CoV-2 quando esses pacientes apresentarem sintomas gastrointestinais", disse a Dra. Shirley. "Os dados do estudo em tela podem nos ajudar a considerar um exame padrão para descartar a covid-19 como diagnóstico alternativo antes de tratar pacientes com doença inflamatória intestinal que apresentam novos sintomas gastrointestinais para uma exacerbação da doença. É como o que fazemos atualmente para C. difficile e outras infecções entéricas antes de tratar as exacerbações de IBD.

"Esta abordagem – considerar a possibilidade de covid-19 no contexto de novos sintomas gastrointestinais – é consistente com as diretrizes e melhores práticas publicadas pela American Gastroenterological Association (AGA)", disse o Dr. David Leiman, médico da Duke University, nos EUA, e presidente do Comitê de Qualidade da AGA. “Os médicos também devem estar cientes da possibilidade de variação na implementação desta abordagem, com alguns pacientes potencialmente em risco devido a exames díspares”. Conforme descrito pelo Comitê de Qualidade da AGA, acompanhar a adesão a esta abordagem clínica por meio da melhoria contínua da qualidade pode limitar o desenvolvimento de tais lacunas no atendimento.

O estudo foi parcialmente financiado pelo Helmsley Charitable Trust, com contribuição adicional da Pfizer, Takeda, Janssen, AbbVie, Lilly, Genentech, Boehringer Ingelheim, Bristol-Myers Squibb, Celtrion e Arenapharm. O autor principal, Dr. Ryan, informou que presta consultoria para AbbVie, Bristol-Myers Squibb, Janssen, Eli Lilly, Pfizer e Takeda, e recebe apoio para pesquisa da AbbVie, Boehringer Ingelheim e Pfizer. Outros coautores informaram relações semelhantes com outras empresas farmacêuticas. A Dra. Shirley e o Dr. David informaram não ter conflitos de interesses.

Este conteúdo foi originalmente publicado em GI & Hepatology News – jornal oficial da AGA.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....