COMENTÁRIO

Um olhar para os traumas repetitivos e o risco de demência

Dra. Carla C. Guariglia

Notificação

16 de setembro de 2021

Colaboração Editorial

Medscape &

Um artigo recém-publicado no periódico JAMA Neurology[1] reacendeu a discussão sobre a ocorrência de traumatismos cranioencefálicos repetitivos no esporte e o risco de demência. O risco de demência associada a repetidas concussões no boxe já foi estabelecido há algum tempo. Boxeadores famosos, como Muhammad Ali, se tornaram, de certa forma, embaixadores da doença. [2]

A demência pugilística, inicialmente denominada punch and drunk syndrome, foi descrita pela primeira vez pelo Dr. Harrison Stanford Martland após observar o quadro em boxeadores norte-americanos. [3] Na demência pugilistíca, os boxeadores desenvolvem um quadro parkinsoniano, com comprometimento cognitivo associado, atribuído aos repetidos traumas na cabeça. [4] Entre os boxeadores, aqueles que exercem a função de sparring durante o treino, têm mais chances de desenvolver a doença do que os nocauteadores. [5] Os boxeadores que conseguem resolver rapidamente a disputa com um nocaute acabam sofrendo menos traumas.

O conceito se expandiu para outros esportes, como o futebol americano a partir de 2005, com a publicação de uma análise anatomopatológica de um famoso jogador de futebol americano que desenvolveu um quadro de alteração comportamental, sem parkinsonismo, mas cuja necrópsia indicou a presença de depósitos anormais de proteína tau hiperfosforilada na profundidade dos sulcos corticais. [6] Essa deposição da proteína tau era idêntica à observada pelo Dr. Martland. Isso gerou um grande rebuliço, [7] e, inicialmente, a National Football League (NFL) dos Estados Unidos tentou esconder a informação, mas, em 2009, a neuropatologista Dra. Ann McKee, depois de avaliar uma série cérebros doados ao banco de cérebros de Boston, reafirmou a presença de proteína tau hiperfosforilada no cérebro dos jogadores de futebol americano. [8]

O entendimento de que as repetidas concussões nestes jogadores eram o motivo da doença causou a “football crisis[7] nos EUA e levantou o questionamento sobre o risco associado a outros esportes, cuja prática pode acarretar concussões ou subconcussões. Neste momento, o futebol (soccer), praticado no Brasil e no resto do mundo, veio à tona. No futebol, os jogadores raramente sofrem concussões, no entanto, subconcussões, ou pequenos traumas, são corriqueiras nos cabeceios de bola. Subconcussões são traumas leves, nos quais não há manifestação clínica, e que acontecem numa frequência diária no treinamento profissional. Imaginemos um treino de cabeceio...

Os autores do artigo publicado no periódico JAMA Neurology[1] avaliaram prontuários de 7.676 jogadores profissionais de futebol (soccer) já aposentados na Irlanda, encontrando uma prevalência de demência de 5% nesta população em comparação com os controles pareados por idade que não praticavam o esporte, dentre os quais, a prevalência de demência foi de 1,6%. Posteriormente, os autores dividiram os jogadores entre goleiros e jogadores de campo e os subdividiram de acordo com a posição em campo.

Entendendo que os goleiros raramente sofrem concussões por cabeceio de bola, enquanto zagueiros, por exemplo, estão muito mais expostos a este tipo de jogada, o estudo conseguiu demonstrar que a posição no jogo, principalmente a dos jogadores de defesa, está relacionada a aumento do risco de demência. [1] Os pesquisadores não fizeram uma análise patológica do cérebro dos jogadores, em vez disso, basearam-se na análise retrospectiva de seus prontuários, mas os resultados não deixam dúvidas de que há mais risco de demência nessa prática esportiva. [1]

A demência causada por múltiplos impactos na cabeça atualmente é denominada de encefalopatia traumática crônica. [8] Quando acomete pessoas mais jovens, manifesta-se com alterações comportamentais, alucinações, delirium e risco de suicídio. Pacientes sexagenários costumam apresentar declínio cognitivo, semelhante à demência na doença de Alzheimer, e outra apresentação possível é a forma motora da doença, na qual há predominância de sintomas de parkinsonismo. [8] Considerando que, tanto os sintomas cognitivos quanto o parkinsonismo são prevalentes na população desta faixa etária, quando suspeitar? O detalhe que nos leva a pensar neste diagnóstico é a exposição; se o paciente foi exposto a qualquer tipo de esporte que envolva concussões repetitivas, é obrigatório lembrar da encefalopatia traumática crônica. O tempo de exposição ao esporte é um fator relevante: quanto maior o tempo de exposição (em anos), maior o risco de desenvolver a doença. [1,9]

Não há tratamento específico para a encefalopatia traumática crônica, mas, além do diagnóstico acertado, a comunidade científica pode ajudar a orientar as políticas públicas de práticas esportivas de menor risco.

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