Estudo revela uma impressionante redução de 70% dos casos graves e de mortes por malária

Dra. Judy Stone

Notificação

15 de setembro de 2021

Um novo estudo realizado na África revela a impressionante redução de 70% na incidência de casos de malária com a administração associada, em vez de isolada, de dois antimaláricos: uma vacina e um medicamento.

A malária é uma doença endêmica nos trópicos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que em 2019 houve 229 milhões de casos e 409 mil mortes associadas a esta doença parasitária. A maior concentração (94%) se deu na África, e 67% das mortes foram de crianças menores de cinco anos.

Na região do Sahel, uma grande faixa subsaariana que cruza a África, o aumento da transmissão da malária é sazonal. Em alguns países, as crianças fazem profilaxia mensal com sulfadoxina/pirimetamina e amodiaquina durante os quatro meses de maior risco. A quimioprofilaxia sazonal da malária demonstrou reduzir os casos de infecção em até 88% e custa em média 17,65 reais por criança por ano.

Este estudo duplo-cego, randomizado e controlado recrutou bebês (de 5 a 17 meses de vida) em Burquina Fasso e no Mali, onde a quimioprofilaxia sazonal da malária é o esquema terapêutico vigente. Quase seis mil crianças receberam quimioprofilaxia, a vacina antimalárica RTS,S/AS01E ou ambas. O estudo, liderado por pesquisadores da London School of Hygiene and Tropical Medicine (LSHTM), no Reino Unido, foi publicado no periódico New England Journal of Medicine .

Um dos pesquisadores que lideraram o estudo, o médico Dr. Daniel Chandramohan, Ph.D., professor de saúde pública na LSHTM, disse ao Medscape que a administração da quimioprofilaxia sazonal é bastante trabalhosa e que "pensamos que poderíamos substituir estes quatro ciclos de prevenção sazonal por uma vacinação por temporada, como é o caso da vacina contra a gripe (…) e que poderiam haver alguns benefícios adicionais".

Dr. Daniel Chandramohan

Em vez disso, o estudo descobriu que, em comparação com a quimioprofilaxia sazonal isolada, a associação com a vacina reduziu a incidência de casos de infecção em 62%, de malária grave em 70% e de morte pela doença em 73%. “Nem em meus sonhos mais ousados eu teria cogitado que esta seria uma possibilidade”, disse o Dr. Daniel, acrescentando que este foi um improvável “resultado estapafúrdio”, porque os achados são “homogêneos nos dois países”. Além disso, foram homogêneos ao longo dos anos e todos os desfechos da malária (...) vêm revelando invariavelmente o mesmo nível de proteção".

A fim de manter o desenho duplo-cego do estudo, as crianças receberam injeções de vacinas antirrábicas e contra a hepatite A, em vez de placebo. Esses imunizantes foram escolhidos por oferecerem outros benefícios, protegendo as crianças contra estas infecções.

Com tantas crianças acompanhadas durante anos, oferecer o tratamento correto em cada braço do estudo pode ser complicado. Cada criança recebeu um QR code e tirou uma foto de identificação para facilitar a dispensação anual dos medicamentos do estudo.

A médica Dra. Miriam Laufer, professora e diretora associada de pesquisa sobre a malária na University of Maryland, nos Estados Unidos, que não participou do estudo, disse ao Medscape que "este é um resultado espetacular (...) reduzir a doença em 60% a 70% por meio de intervenções que já estão disponíveis".

A vacina RTS,S não é nova; foi criada em 2001 pela GlaxoSmithKline (GSK) com a PATH’s Malaria Vaccine Initiative (MVI), e então fabricada pela GSK. A Bill & Melinda Gates Foundation financiou a produção do imunizante. O Dr. Daniel disse que a GSK transferiu a tecnologia para a Bharat, na Índia, que levará dois a três anos para alavancar a produção. Até lá, há vacinas para cobrir apenas a demanda no Quênia, no Malaui e em Gana, onde estão sendo feitos os estudos piloto.

Dra. Miriam Laufer

A Dra. Miriam enfatizou que “o grupo que recebeu a vacina RTS,S se saiu tão bem quanto o que recebeu a quimioprofilaxia sazonal da malária". A médica pontuou que a administração da quimioprofilaxia sazonal é restrita a determinadas áreas da região sub-Sahel que têm uma temporada de transmissão mais curta. Em outras regiões na África, nas quais o período de transmissão da doença é maior, a quimioprofilaxia sazonal não é tão eficaz. "A vacina RTS,S realmente pode fazer diferença" nesses locais, acrescentou.

Indagada se a vacina RTS,S poderia substituir a quimioprofilaxia sazonal da malária para reduzir a probabilidade de resistência, a Dra. Miriam disse que, "administrar a vacina RTS,S é tão bom quanto usar os mesmos antimaláricos nas temporadas de malária. E isso importa por dois motivos. O primeiro é que a vantagem da vacina é não estarmos fazendo pressão seletiva com medicamentos que possibilitariam o surgimento e a propagação da resistência farmacológica. Então, talvez a eficácia da vacina seja mais duradoura do que a dos medicamentos. Não sabemos".

Teorizando sobre os resultados surpreendentemente bons do ensaio, a Dra. Miriam explicou: "Sabemos que a RTS,S diminui o número de parasitas que chegam até o sangue quando a criança é picada por um mosquito infectado. Quando medicamentos como a sulfadoxina/pirimetamina e a amodiaquina, que têm uma eficácia moderada, precisam eliminar uma pequena quantidade de parasitas, eles podem funcionar melhor. Talvez isso explique por que a associação da RTS,S com a quimioprofilaxia sazonal da malária gerou um desfecho tão positivo".

A Dra. Miriam reiterou as palavras do Dr. Daniel ao dizer que "os resultados foram muito mais contundentes do que qualquer um poderia prever – certamente mais do que eu previ". Os dois médicos acreditam que a associação terapêutica será plenamente aprovada pela OMS ainda este ano.

O Dr. Daniel e a Dra. Miriam informaram não ter conflitos de interesses relevantes ao tema.

New Engl J Med. Publicado on-line em 25 de agosto de 2021. Íntegra do artigo

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