Estratégias de reabilitação após acidente vascular cerebral

15 de setembro de 2021

Quando se fala em terapias para melhorar resultados pós-acidente vascular cerebral (AVC), o foco é a recuperação. Em uma sessão do XXIX Congresso Brasileiro de Neurologia (NEURO 2021), realizado on-line no início de setembro, o Dr. Steven Cramer, médico e professor de neurologia na David Geffen School of Medicine da University of California, Los Angeles (UCLA) e diretor médico de pesquisa no California Rehabilitation Institute, nos Estados Unidos, mostrou-se otimista em relação aos estudos feitos com células-tronco para melhorar a resposta de pacientes com história de AVC. O médico também apresentou outras terapias e pesquisas sobre o que existe de mais avançado neste campo. [1]

“Há uma grande quantidade de eventos biológicos depois do AVC. A maioria dos pacientes tem déficits motores, e, embora muitos melhorem com o tempo (principalmente no primeiro mês), essa melhora é insuficiente para a maioria das pessoas, que ficam com deficiências motoras significativas e sofrem consequências funcionais”, disse o Dr. Steven, compartilhando que atualmente existem desde terapias de movimento induzido por restrição, já em uso, até anticorpos monoclonais e interfaces entre o cérebro e o computador (ICC), em estudo inicial. Ele citou exemplos de métodos de estimulação intracraniana por corrente contínua ou alternada e de estimulação do nervo vago. [2]

O Dr. Steven disse que as terapias de recuperação buscam regenerar o cérebro e os circuitos e, portanto, são um processo mais difícil e distinto das intervenções terapêuticas imediatas, que visam dissolver os coágulos e desobstruir as artérias, reestabelecendo o fluxo sanguíneo natural. Enquanto as intervenções terapêuticas imediatas têm de ser feitas nas primeiras horas, a recuperação pode se estender por dias, semanas e até meses.

Entre as opções enumeradas pelo especialista, estão os medicamentos para melhorar a plasticidade e ganhos comportamentais. “Muitos imitam sistemas clássicos de neurotransmissores. Talvez os mais estudados nos últimos anos tenham sido os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS)”, informou. No entanto, alguns estudos recentemente desafiaram a eficácia dos ISRS, disse o médico. Um deles foi o estudo FOCUS, [3] publicado em 2019, avaliando 3.127 pacientes com história de AVC que receberam seis meses de fluoxetina ou placebo. De acordo com os resultados, o uso medicamento não teve efeito, mas houve uma redução na depressão, o que foi considerado um ponto positivo pelo Dr. Steven, que destacou: “estudos nos dizem que os médicos não são bons em diagnosticar a depressão pós-AVC e, quando o fazem, não tratam direito”.

Uma das críticas do Dr. Steven ao FOCUS foi o fato de o estudo não ter incluído um grupo só com déficits motores – havia outros tipos de déficits, além de casos de AVC leves e graves. “É importante observar as diferenças entre os pacientes em termos de fisiopatologia, consequências e causas da doença”, afirmou. Outro problema apontado pelo médico foi em relação à intervenção escolhida, que não foi associada a um treinamento comportamental.

O Dr. Steven tem realizado pesquisas com células-tronco. [4] Em 2019, participou de um estudo no qual seis pacientes com comprometimento importante após um AVC receberam células mesenquimais do estroma em dose única por via intravenosa de três a quatro anos após o evento.

“A pontuação na escala de AVC do National Institutes of Health Stroke Scale (NIHSS) deveria ser maior que seis”, informou o médico. Os pacientes foram acompanhados por 12 meses e, neste período, apresentaram uma melhora da função medida pelos índices Barthel, NIHSS, Mini Exame do Estado Mental (MEEM) e escala de depressão.

“Não foi um estudo controlado e provavelmente há um efeito placebo, porém, se você olha o Barthel, o número de pessoas com o índice de 95 a 100 aumentou 35% nesse período”, disse o Dr. Steven.

Já no estudo MASTERS, [5] foi usada uma célula progenitora adulta pluripotente, maior que as células-tronco mesenquimais. Foram administradas 1,2 bilhão de células. Os pesquisadores constataram que o procedimento é seguro quando administrado até dois dias após o AVC. Eles não identificaram eficácia significativa no desfecho primário após 90 dias, mas houve resultados em um ano.

As terapias baseadas em atividades, [6] nas quais o paciente faz movimentos repetitivos dos membros superiores, testes repetitivos de linguagem, entre outros exercícios para induzir a plasticidade cerebral, são duplamente importantes, salientou o Dr. Steven: por si só trazem melhoras e também podem ser complementares a outras terapias restauradoras. O médico acrescentou ainda a reabilitação remota, feita em casa, que comprovadamente também traz bons resultados. [7]

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