'Remissão' do diabetes tipo 2 é uma realidade, dizem em consenso as principais associações de diabetes

Miriam E. Tucker

Notificação

14 de setembro de 2021

"Um novo consenso publicado por quatro grandes associações de diabetes visa padronizar a terminologia, a definição e a avaliação do fenômeno da ‘remissão' do diabetes tipo 2.”

A declaração foi publicada em conjunto pelas entidades American Diabetes Association, Endocrine Society, European Association for the Study of Diabetes e Diabetes UK.

O grupo internacional, composto de 12 membros, propõe o uso do termo "remissão" no lugar de "reversão", "resolução" ou "cura" para descrever o fenômeno da normoglicemia prolongada em pessoas diagnosticadas com diabetes tipo 2 que não fazem uso de hipoglicemiantes.

"A remissão do diabetes pode estar sendo mais frequente devido aos avanços terapêuticos", disse uma das participantes do grupo redator, Dra. Amy Rothberg, médica da University of Michigan, nos Estados Unidos.

O grupo define "remissão" (seja obtida via mudança de estilo de vida, cirurgia bariátrica ou de outras formas) como hemoglobina glicada (HbA1c) < 6,5% pelo menos três meses após a suspensão da terapia hipoglicemiante. O painel também sugere o monitoramento de indivíduos com diabetes em remissão e levanta questões que precisam de mais atenção e estudo.

Mas não são diretrizes, disse o presidente do painel, Dr. Matthew C. Riddle, médico da Oregon Health & Science University, nos EUA. Em vez disso, "o objetivo principal da declaração é fornecer definições, terminologia, pontos de corte e recomendações de tempo para permitir a coleta de dados que eventualmente levará a diretrizes clinicamente úteis", disse ele.

Grande parte da pesquisa epidemiológica é conduzida analisando dados de prontuários médicos, observou ele. "Se os médicos forem mais consistentes na verificação e registro de dados, o banco de dados será melhor."

É necessário orientar em relação à retirada da medicação e conversar com os pacientes

“Os nossos tratamentos estão normalizando cada vez mais a glicemia, e, em muitos casos, mesmo após a suspensão da farmacoterapia. Isso não é uma anomalia ou ficção, é a realidade. Os médicos precisam saber como falar com seus pacientes sobre isso", observou o Dr. Matthew.

Há a necessidade de dados sobre os efeitos da suspensão dos medicamentos quando a normoglicemia é alcançada, disse ele. "É realmente um longo percurso para se ter evidências epidemiológicas e intervencionistas robustas. É disso que precisamos aqui, e essa é a verdadeira expectativa do grupo."

A declaração recomenda o seguinte:

1. O termo "remissão" deve ser usado para descrever uma melhora metabólica sustentada no diabetes tipo 2 para níveis próximos ao normal. O painel concordou que a palavra atinge o melhor equilíbrio, visto que a resistência à insulina e a disfunção das células beta ainda podem estar presentes, apesar da normoglicemia. "O diabetes não tem cura. As alterações subjacentes ainda estão lá. A remissão é definida pela glicose", disse o Dr. Matthew. O grupo também decidiu acabar termos antes adotados pela ADA: remissão "parcial", "completa" e "prolongada", porque são ambíguos e contraproducentes.

2. A remissão deve ser definida em função do retorno da HbA1c para < 6,5%, que é o limite usado para diagnosticar diabetes, espontaneamente ou após uma intervenção, sustentado por pelo menos três meses sem uso de hipoglicemiantes.

3. Quando a HbA1c não for confiável, por exemplo, em caso de doenças com presença de variantes da hemoglobina ou alterações do tempo de vida dos eritrócitos, as alternativas aceitáveis são glicemia em jejum < 126 mg/dL ou HbA1c estimada < 6,5% calculada a partir do monitoramento contínuo da glicose.

4. O teste de HbA1c para documentar a remissão deve ser realizado imediatamente antes da intervenção e não antes de três meses após o início da intervenção e a retirada de qualquer hipoglicemiante.

5. O teste subsequente de HbA1c deve ser feito pelo menos uma vez por ano, junto com o monitoramento de rotina para complicações relacionadas ao diabetes, incluindo triagem de doença retiniana, avaliação da função renal, exame do pé do diabético e avaliação de fatores de risco cardiovascular. “No momento, não há evidências de longo prazo indicando que qualquer uma das avaliações periódicas recomendadas para complicações possa ser descontinuada com segurança”, escreveram os autores.

6. A pesquisa baseada na terminologia e nas definições da presente declaração é necessária para determinar a frequência, a duração e os efeitos nos desfechos clínicos de curto e longo prazo das remissões do diabetes tipo 2 usando as intervenções disponíveis.

O Dr. Matthew disse ao Medscape: “Achamos que a comunidade médica precisava entender em que passo esta questão está atualmente. A viabilidade da remissão é maior do que costumava ser.”

“Veremos mais pacientes com o que agora podemos chamar de remissão, de acordo com uma definição padronizada. No futuro, é provável que haja diretrizes sobre o tipo de paciente e o tipo de estratégia apropriada para alcançar a remissão", disse ele.

A declaração foi publicada on-line simultaneamente em cada um dos respectivos periódicos das associações médicas que assinaram o documento: Diabetes Care, Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, Diabetologia e Diabetic Medicine.

O Dr. Matthew informou que recebeu apoio financeiro para pesquisa por meio de Oregon Health & Science University, Eli Lilly, Novo Nordisk e AstraZeneca e remuneração por consultoria da Adocia, Intercept e Theracos.

Miriam E. Tucker é jornalista freelancer, mora na região de Washington, DC, nos EUA e é colaboradora regular do Medscape. Outros trabalhos seus foram publicados em Washington Post, NPR's Shots e Diabetes Forecast. Acompanhe seu trabalho no Twitter: @MiriamETucker.

Diabetes Care. Publicado on-line em 30 de agosto de 2021.

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