Doença cardiovascular, um desafio contínuo no diabetes tipo 1

Miriam E. Tucker

Notificação

8 de setembro de 2021

Apesar da significativa redução no risco de doença cardiovascular entre pessoas com diabetes tipo 1 com o passar do tempo, este risco permanece maior do que para a população em geral, mostram novos dados da Finlândia.

Os achados do estudo com quase 12.000 finlandeses diagnosticados com diabetes tipo 1 na infância (a partir de 1965) foram publicados no periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology pela Dra. Valma Harjutsalo, Ph.D., da University of Helsinki, na Finlândia, e seus colaboradores.

Os dados mostram "uma considerável redução na morbidade e mortalidade por doença cardiovascular no diabetes tipo 1 de início na infância nas últimas cinco décadas na Finlândia. No entanto, a morbidade por doença cardiovascular ainda é várias vezes maior em pacientes com diabetes tipo 1 do que na população geral", escreveram a Dra. Valma e seus colegas.

Curiosamente, os dados mostram que a redução na incidência de doença cardiovascular entre pessoas com diabetes tipo 1 nas últimas décadas foi mais acentuada do que na população em geral, embora ainda permaneça várias vezes maior.

Os achados também indicam uma grande lacuna no conhecimento, apesar de doença cardiovascular ser a principal causa de morte prematura no diabetes tipo 1, especialmente em caso de nefropatia diabética.

"Nossos resultados destacam a necessidade de estudos sobre a história natural da aterosclerose em crianças e adultos jovens a partir do diagnóstico de diabetes, bem como mais pesquisas sobre a prevenção precoce eficaz de doença cardiovascular", escreveram os autores.

De modo geral, os achados se alinham aos publicados em 2018 a partir de um registro sueco, mostrando que, com o passar do tempo, há um declínio na prevalência de doença cardiovascular mais acentuado entre pessoas com diabetes tipo 1 do que na população em geral. No entanto, esses dados foram limitados a 1998/2014 e não contabilizam o ano de diagnóstico de diabetes, apontaram Dra. Valma e colaboradores.

A lacuna permanece, ainda há muito trabalho a ser feito

Em um editorial acompanha o estudo, Trevor J. Orchard, da University of Pittsburgh, nos Estados Unidos, disse que os resultados "sugerem um preenchimento parcial da lacuna sobre o risco de doença cardiovascular entre pessoas com e sem diabetes tipo 1", no entanto, "a lacuna permanece significativa e ainda há muito trabalho a ser feito".

"Mais pesquisas sobre o diabetes tipo 1 são necessárias, particularmente no que diz respeito à avaliação da pressão sanguínea vigorosa e ao controle de lipídios (incluindo avaliação de preditores de lipídios recentemente reconhecidos, como função de lipoproteína de alta densidade), intervenções baseadas na resistência à insulina e novos medicamentos como inibidores do cotransportador 2 de sódio-glicose (SGLT2, sigla do inglês Sodium-Glucose Cotransporter-2)", escreveu Trevor.

"As estratégias de prevenção de doenças cardiovasculares em pessoas com diabetes tipo 1 não deveriam mais ser inferidas a partir da população com diabetes tipo 2, que é muito diferente, ou – pior ainda – deixadas sem especificação por conta da falta de evidências no diabetes tipo 1."

Declínio contínuo no risco de doença cardiovascular ao longo do tempo

A população do estudo foi composta de 11.766 indivíduos inscritos no banco de dados finlandês Terveyden ja hyvinvoinnin laitos (THL), diagnosticados com diabetes tipo 1 antes dos 15 anos de idade (entre 1965 e 1999). Os participantes foram acompanhados por doenças cardiovasculares até o final de 2016 e para mortalidade até 2017.

Em uma mediana de acompanhamento de 29,6 anos, 1.761 participantes (15%) tiveram um primeiro evento de doença cardiovascular.

De um total cumulativo de 2.686 eventos, 32% (864) foram quadros de doença coronariana, com 663 casos de infarto agudo do miocárdio (IAM) e 497 de acidente vascular cerebral (AVC); outros 32% (854) foram quadros de doença arterial periférica, com 498 amputações de membros inferiores; e 15,5% (497) foram insuficiência cardíaca.

De 2.686 pacientes com nefropatia diabética, 40% tiveram eventos cardiovasculares. Dois terços (63,9%) dos participantes com doença cardiovascular tiveram apenas um tipo de evento, mas 22,6% tiveram dois tipos de evento e 11,1% tiveram três tipos.

Ao longo dos 50 anos, a incidência cumulativa de qualquer doença cardiovascular foi de 45,8% nos pacientes diagnosticados de 1965 a 1969. A incidência foi significativamente maior entre homens do que mulheres (47,6% versus 43,8%; razão de risco ou hazard ratio, HR, de 1,23; P < 0,0001).

Após o ajuste para sexo e idade ao diagnóstico de diabetes, o risco de doença cardiovascular diminuiu 3,8% durante o período do estudo (P < 0,0001).

No entanto, os autores observaram: "É preocupante que a diminuição da morbidade por doença cardiovascular nas coortes de 1990 a 1994 e 1995 a 1999 tenha sido apenas modesta em comparação com a na coorte de 1980 a 1984."

A taxa de mortalidade por doença cardiovascular diminuiu constantemente por ano de diagnóstico.

Declínio de doença CV mais rápido do que a população em geral – mas taxa ainda é mais alta

Os dados sobre a população em geral vieram do registro de doenças cardiovasculares do THL, na Finlândia.

O excesso de risco de doença coronariana e AVC em comparação com a população em geral foram estimados a partir de taxas de incidência padronizadas para 1991 a 2014.

Houve uma diminuição na incidência padrão de doença coronariana e AVC em todos os grupos etários de 10 anos abaixo de 65 anos, exceto para AVC na faixa etária mais alta.

No entanto, a taxa de incidência padrão foi de 8,9 para doença coronariana e 2,9 para AVC naqueles com diagnóstico de diabetes tipo 1 na década de 90.

A Dra. Valma informou não ter conflitos de interesse. A declaração de conflitos de interesses dos outros autores do estudo constam no artigo. O Dr. Trevor informou receber honorários de revisão de fundos da Novo Nordisk.

Lancet Diabetes Endocrinol. 2021;9:575-85, 548-9. ArtigoEditorial

Miriam E. Tucker é jornalista freelancer, mora na região de Washington, DC, nos EUA e é colaboradora regular do Medscape. Outros trabalhos seus foram publicados em Washington Post, NPR's Shots e Diabetes Forecast. Acompanhe seu trabalho no Twitter: @MiriamETucker.

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