Escalas de depressão podem não diagnosticar idosos com intenção suicida

Batya Swift Yasgur

Notificação

8 de setembro de 2021

Idosos podem ter um alto grau de intenção suicida e ainda assim registrar baixas pontuações nas escalas que avaliam a presença de sintomas psiquiátricos, como depressão, sugere uma nova pesquisa.

Em um estudo de coorte transversal com mais de 800 adultos que deram entrada em serviços de emergência psiquiátrica na Suécia com quadro de automutilação, os participantes com 65 anos ou mais obtiveram pontuações mais altas em escalas de avaliação da intenção suicida do que os de meia-idade ou adultos jovens.

No entanto, apenas a metade dos idosos cumpriram os critérios diagnósticos de depressão maior, que foram atendidos por três quartos tanto do grupo com pacientes de meia-idade como do grupo com adultos jovens.

"Idosos suicidas apresentam um quadro clínico um pouco diferente do das pessoas adultos jovens, com níveis relativamente baixos de psicopatologia, mas alta intenção de suicídio", disse ao Medscape o primeiro autor do estudo, Dr. Stefan Wiktorsson, Ph.D., Göteborgs universitet, na Suécia.

"É, portanto, importante que os médicos avaliem cuidadosamente o pensamento suicida nessa faixa etária. As questões de segurança e a necessidade de tratamento podem ser subestimadas", disse ele.

Os achados foram publicados on-line em 09 de agosto no periódico American Journal of Geriatric Psychiatry.

Faltam pesquisas por faixa etária

"Embora existam grandes diferenças de idade na prevalência do comportamento suicida, faltam pesquisas que comparem a sintomatologia e os diagnósticos em diferentes grupos etários", disse o Dr. Stefan.

Dr. Stefan e seus colegas "queriam comparar a psicopatologia em adultos jovens, de meia-idade e idosos, a fim de aumentar o conhecimento sobre as potenciais diferenças na sintomatologia relacionada ao comportamento suicida ao longo da vida".

Os pesquisadores recrutaram pacientes a partir de 18 anos de idade que procuraram ou foram encaminhados para serviços psiquiátricos de emergência por automutilação em três hospitais psiquiátricos na Suécia entre abril de 2012 e março de 2016.

Entre todos os pacientes, 821 se enquadraram nos critérios de inclusão e concordaram em participar do estudo. Os pesquisadores excluíram aqueles cujas lesões não tinham intenção suicida, conforme sugerido na Columbia Suicide Severity Rating Scale (C-SSRS). Os 683 participantes restantes, que haviam tentado suicídio, foram incluídos na análise.

Os participantes foram então separados em três grupos:

  • Idoso (N = 96; de 65 a 97 anos de idade; média de idade de 77,2 anos; 57% mulheres)

  • Meia-idade (N = 164; de 45 a 64 anos de idade; média de idade de 53,4 anos; 57% mulheres)

  • Adulto jovem (N = 423; de 18 a 44 anos de idade; média de idade de 28,3 anos; 64% mulheres)

A equipe da psiquiatria entrevistou os participantes até sete dias após o episódio índice, obtendo dados sociodemográficos, informações sobre saúde e contato com profissionais de saúde. A C-SSRS foi utilizada para identificar as características das tentativas de suicídio e a Suicide Assessment Scale (SIS) para avaliar as circunstâncias da tentativa de suicídio (p. ex., a preparação ativa).

Os pesquisadores também utilizaram a Mini International Neuropsychiatric Interview (MINI), a Suicide Assessment Scale (SUAS) e a Karolinska Affective and Borderline Symptoms Scale.

Maior incapacidade e dor

No total, 75% dos idosos moravam sozinhos, assim como 88% do grupo de meia-idade e 48% do grupo de adultos jovens. Mais participantes idosos tinham doença/deficiência física grave e dor crônica intensa do que os adultos jovens (todas as comparações P < 0,001).

Doença/deficiência física

  • Idosos: 65%

  • Meia-idade: 40%

  • Adultos jovens: 22%

Dor crônica

  • Idosos: 38%

  • Meia-idade: 31%

  • Adultos jovens: 17%

Os idosos tiveram menos contato com os serviços psiquiátricos, mas tiveram mais contato do que as outras faixas etárias com atendimento psiquiátrico primário. Em relação à prescrição de antidepressivos no momento da tentativa de suicídio, os idosos receberam menos do que os grupos de meia-idade e de adultos jovens (50% versus 73% e 66%).

Um pouco menos da metade dos idosos (44%) tinha história de tentativa de suicídio – uma proporção consideravelmente menor do que nos grupos de meia-idade e adultos jovens (63% e 75%). Poucos idosos tinham história de automutilação sem intenção suicida (6%, versus 23% e 63%).

Três quartos dos idosos usaram envenenamento como único método de tentativa de suicídio no episódio índice, em comparação com 67% e 59% dos grupos de meia-idade e adultos jovens, respectivamente.

Vale ressaltar que apenas metade dos idosos (52%) preencheram os critérios diagnósticos de depressão maior da MINI, em comparação com três quartos dos participantes nos grupos de meia-idade e adultos jovens (73% e 76%). Poucos membros do grupo de idosos preencheram os critérios diagnósticos de outras doenças psiquiátricas.

Transtorno psiquiátrico Distribuição por grupo

Transtorno de ansiedade generalizada

  • Idosos: 10%

  • Meia-idade: 23%

  • Adultos jovens: 24%

Transtorno de estresse pós-traumático

  • Idosos: 5%

  • Meia-idade: 17%

  • Adultos jovens: 22%

Transtorno por uso de álcool

  • Idosos: 11%

  • Meia-idade: 36%

  • Adultos jovens: 35%

Transtorno por uso de substâncias

  • Idosos: 1%

  • Meia-idade: 3%

  • Adultos jovens: 24%

Avaliação nebulosa

A média de pontos obtidos na SUAS foi "consideravelmente menor" no grupo de idosos do que nos outros grupos. Este também foi o caso nas subescalas da SUAS para afeto, estados corporais, controle, enfrentamento e reatividade emocional.

É importante ressaltar, que, no total, os idosos pontuaram mais alto do que os adultos jovens na SIS e na subescala subjetiva, indicando um nível mais alto de intenção suicida.

A média de pontos obtidos na SIS foi de 17,8 no grupo de idosos, 17,4 no grupo de meia-idade e 15,9 no grupo de adultos jovens. A pontuação subjetiva de intenção de suicídio na SIS foi de 10,9 versus 10,6 e 9,4, respectivamente.

"Embora a intenção suicida subjetiva tenha sido maior do que no grupo de jovens, os idosos tiveram menos probabilidade de cumprir os critérios diagnósticos de depressão maior e vários outros transtornos mentais”, escreveram os pesquisadores. Além disso, foram observadas pontuações mais baixas em todas as escalas de classificação de sintomas na população idosa.

“Baixos níveis de psicopatologia podem obscurecer a avaliação médica sobre a gravidade da tentativa de suicídio em pacientes idosos”, acrescentaram.

"Geração silenciosa"

Comentando os achados para o Medscape, o Dr. Marnin Heisel, Ph.D., professor associado, Departamentos de Psiquiatria e de Epidemiologia e Bioestatística, Schulich School of Medicine and Dentistry, University of Western Ontario, no Canadá, disse que, algo importante para se levar do estudo é que, se os profissionais de saúde procurarem apenas por depressão ou considerarem apenas o risco de suicídio em indivíduos que apresentam depressão, "eles podem subdiagnosticar idosos que estão pensando em suicídio ou tendo um comportamento suicida".

O Dr. Marnin, que participou do estudo, observou que os idosos são eventualmente chamados de "geração silenciosa", porque muitas vezes tendem a minimizar ou subnotificar os sintomas depressivos, em parte por terem sido socializados para "manter as coisas para si e não exibir suas emoções".

Ele recomendou que, ao avaliar idosos potencialmente suicidas, os médicos selecionem ferramentas elaboradas especificamente para essa faixa etária, particularmente a Geriatric Suicide Ideation Scale e a Geriatric Depression Scale. O Dr. Marnin também recomendou a Center for Epidemiological Studies Depression Scale–Revised Version.

"Para além de uma escala específica, a questão é entrar no atendimento com um horizonte muito mais expandido, entender quem é o paciente, de onde ele vem, suas atitudes, experiências de vida e o que está rolando sob o ponto de vista dele, o motivo para ele ter buscado atendimento e as suas dificuldades", disse ele.

"O que estamos vendo com este estudo é que as ferramentas clínicas padronizadas não identificam necessariamente algumas dessas questões mais ricas, que podem contribuir para a dor emocional, então, às vezes, a melhor maneira de fazer isso é uma entrevista clínica mais ampla com uma perspectiva humana", concluiu o Dr. Marnin.

O estudo foi financiado por Swedish Research Council, Swedish Research Council for Health, Working Life and Welfare e governo Sueco, Stockholm County Council e Västerbotten County Council. Os pesquisadores e o Dr. Marnin informaram não ter conflitos de interesses.

Am J Geriatr Psychiatry. Publicado on-line em 09 de agosto de 2021. Texto completo

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