Incidência de demência em idosos no Brasil é maior do que em países ricos

Roxana Tabakman

Notificação

2 de setembro de 2021

Uma nova pesquisa epidemiológica mostrou que a incidência de demência em idosos no Brasil, especialmente aqueles com menos de 65 anos, é maior do que em países desenvolvidos, mas equivalente a outros países em desenvolvimento. [1]

O estudo epidemiológico transversal analisou 20% da população com mais de 60 anos, moradora de áreas urbanas e rurais no município de Tremembé, em São Paulo. A taxa de incidência de demência foi de 26,1 por 1.000 pessoa-anos (intervalo de confiança, IC, de 95%, de 18,7 a 36; 6/1.000 pessoa-anos). O risco aumentou exponencialmente com a idade, sendo de 8,3/1.000 pessoa-anos para os participantes de 60 a 64 anos e atingindo 110,2/1.000 pessoa-anos a partir dos 80 anos. Nos países desenvolvidos, os valores para o grupo de 60 a 64 anos é de 3,4/1.000 pessoa-anos e alcança 99,4/1.000 pessoa-anos só para indivíduos maiores de 95 anos. [2]

"Temos poucos estudos epidemiológicos, mas há muitos anos a Organização Mundial de Saúde (OMS) já evidencia que a maior prevalência de demência está na América Latina", disse ao Medscape a primeira autora do artigo, Dra. Karolina César-Freitas, neurologista do grupo de Neurologia Cognitiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

"A maior parte dos estudos de base populacional é formada por estudos de prevalência. Eles tiram uma fotografia da frequência de demência de uma determinada população em um dado momento. Este estudo demostra que não apenas a prevalência, mas a incidência é elevada", avaliou em entrevista ao Medscape, o Dr. Paulo Caramelli, neurologista e professor de Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que não participou da pesquisa.

"A pesquisa é de muita qualidade científica e utiliza os instrumentos e critérios diagnósticos adequados. Não à toa foi publicada na revista de maior impacto na área", concluiu.

Os altos valores observados na pesquisa brasileira estão, porém, dentro do esperado para a América Latina. Um dos maiores estudos de incidência de demência em países em desenvolvimento, o Grupo de Pesquisa de Demência 10/66, descreve uma incidência de demência entre 18,2 e 30,4 por 1.000 pessoa-anos entre participantes a partir dos 65 anos. Após ajustes metodológicos considerando aqueles que morreram de forma precoce, as taxas de incidência de demência cada 1.000 pessoa-anos foram similares em Cuba (23,3), na República Dominicana (26,8), no Peru (19,4), na Venezuela (29,2) e no México (31,37). [3] Outro grande estudo de coorte nacional do México descreve uma incidência de 27,3 por 1.000 pessoa-anos, que aumenta de 13,7 a 111,6/1.000 pessoa-anos quando o grupo avaliado passa de 60 a 69 anos a 80 anos ou mais. [4]

Baixa escolaridade e outros fatores de risco

O maior risco de demência foi encontrado entre indivíduos com comprometimento cognitivo sem demência na linha de base.

Os anos de escolaridade oferecem uma reserva cognitiva maior às pessoas, e os indivíduos com maior escolaridade tendem a desenvolver demência mais tarde. No estudo de Tremembé, as taxas de incidência foram maiores em participantes com escolaridade mais baixa. Se entre os que tinham mais de oito anos de educação formal a taxa era de 10,5 por 1.000 pessoa-anos, aumentava para 59,2/1.000 pessoa-anos entre os participantes analfabetos.

Segundo os autores, isso pode explicar parcialmente a maior carga de demência em países de renda média e baixa. Os outros estudos latino-americanos cobriram áreas rurais e tiveram amostras com alta taxa de analfabetismo.

A segunda causa provável é o pior controle de risco cardiovascular. "Fatores de risco associados à demência são: hipertensão arterial e diabetes descompensados, baixa acuidade visual, traumas durante adulto jovem, tabagismo e sedentarismo. O isolamento social também é um fator de risco, que essa pandemia acabou acentuando muito", referiu a Dra. Karolina.

"Se pudermos controlar um pouco os fatores de risco, retardando o desenvolvimento de demência, sairemos ganhando."

É preciso expandir territorialmente a pesquisa

O estudo de campo foi realizado pela Dra. Karolina e nove estudantes de medicina da Universidade de Taubaté, na qual a Dra. Karolina leciona. A equipe realizou a avaliação cognitiva dos participantes em uma única visita domiciliar. As ferramentas diagnósticas foram estabelecidas em reuniões de consenso de um grupo de neurologistas especializados em neurologia cognitiva e comportamental. Segundo os autores, as ferramentas estavam adaptadas à população, permitindo maior sensibilidade para identificar demência leve.

Um ano após o início do Estudo Epidemiológico de Tremembé (TES), os participantes sem demência foram contatados por telefone para uma avaliação de acompanhamento. Tremembé foi escolhida por proximidade com a universidade, número de idosos, tamanho reduzido da cidade (mas com presença de todos os setores socioeconômicos), e também porque, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as pessoas mudavam pouco de domicílio o que facilitaria o acompanhamento.

O estudo de Tremembé tem algumas limitações, reconhecidas pelos autores e derivadas da ausência de biomarcadores e estudos de neuroimagem da amostra analisada, do número reduzido de participantes em algumas faixas etárias e da perda de participantes ao longo do tempo. Mas, na conversa com o Medscape, a limitação destacada pela autora foi o fato de ter sido realizado no estado com maior desenvolvimento econômico do Brasil. "Gostaríamos de replicar alguns desses estudos em outras regiões. Não há dados no Nordeste, Centro-Oeste ou Norte do país. É preciso expandir territorialmente."

"Estudos de incidência são muito pouco frequentes", disse ao Medscape o Dr. Paulo, que participou do último estudo de incidência de demência no Brasil, realizado há 20 anos na cidade de Catanduva, também no interior de São Paulo. [5] Também houve outro estudo de incidência, em Porto Alegre, mas foi específico para doença de Alzheimer. [6]

Os dados são necessários. Estima-se que o número de pessoas acometidas por demência dobre a cada 20 anos. Na América Latina, espera-se que a carga crescente de demência seja ainda mais significativa, devido ao crescimento da população idosa.

Não é um problema exclusivo de especialistas

A Dra. Karolina considera os estudos epidemiológicos importantes não apenas para o conhecimento dos distúrbios cognitivos, mas também para educar os profissionais de saúde a ficarem atentos a esse problema e apoiarem a implementação de medidas preventivas.

"Quanto mais precoce o diagnóstico e a identificação dos fatores de risco e fatores preventivos, melhor."

A prática de leve a moderada de atividades físicas, por exemplo, reduz significativamente o risco de demência associado ao avanço da idade. "De forma geral, não foram estabelecidas medidas preventivas de saúde pública", destacou a Dra. Karolina. "Muitas vezes as pessoas vão no médico tardiamente, com sintomas há dois ou três anos. Hipertensão e diabetes precisam ser bem controlados ao longo da vida adulta para retardar ao máximo os quadros demenciais na fase idosa."

A neurologista pede que os médicos valorizem as queixas cognitivas de seus pacientes. "De forma geral, é pré-estabelecido que problemas de memória são comuns, são próprios da idade, mas podem indicar o início de uma doença neurodegenerativa." Os especialistas alertaram que uma grande parcela de pessoas com demência identificadas nos estudos epidemiológicos não havia sido diagnosticada antes; ou seja, as pessoas com demência vão às consultas médicas, mas não são identificadas.

O comprometimento cognitivo na demência não é um problema exclusivo de médicos especialistas, como neurologistas ou geriatras, mas interessa ao clínico geral, ao cardiologista, e ao ginecologista, entre outros.

"Todos os profissionais precisam conhecer a dimensão do problema, aprender a atentar aos sintomas e, especialmente nos pacientes a partir dos 60 anos, gastar um tempo da consulta para fazer um rastreio cognitivo, incorporar à anamnese pelo menos algumas poucas perguntas sobre alterações de memória, além de confirmar com o familiar e, eventualmente, aplicar alguns testes", defendeu o Dr. Paulo.

A Dra. Karolina César-Freitas e o Dr. Paulo Caramelli informaram não ter conflitos de interesses.

Roxana Tabakman é bióloga, jornalista freelancer e escritora residente em São Paulo, Brasil. Autora dos livros A saúde na Mídia, Medicina para Jornalistas, Jornalismo para médicos (em português) e Biovigilados (em espanhol). Acompanhe o trabalho dela no Twitter: @roxanatabakman.

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