Os estudos campeões do ESC 2021

Dr. Bruno Valdigem

Notificação

31 de agosto de 2021

Neste artigo

Dr. Bruno Valdigem

No rastro dos Jogos Olímpicos, encerrados no início de agosto, e dos Paraolímpicos, que seguem até o dia 5 de setembro, decidi eleger os três primeiros colocados no pódio virtual do congresso de 2021 da European Society of Cardiology (ESC) em cinco categorias. Lembrando que todos os estudos e diretrizes apresentados são, de diversas formas, campeões. Apenas pelo fato de estarem no congresso e pelo esforço na produção de pesquisa de qualidade.

1. Insuficiência cardíaca

EMPEROR-Preserved

Após a empolgação inicial com dapaglifozina e empaglifozina em pacientes com fração de ejeção reduzida, e dapaglifozina em pacientes com fração de ejeção preservada, surge o Empagliflozin in Heart Failure with a Preserved Ejection Fraction (EMPEROR-Preserved).

Seis mil pacientes com fração de ejeção acima de 40% com idade media de 72 anos, 45% mulheres, metade diabéticos, foram randomizados para usar empaglifozina 10 mg ao dia ou placebo. Ao final de três anos houve redução de 21% em risco de morte ou hospitalização por insuficiência cardíaca no grupo da empaglifozina (P = 0,0003). Também houve redução do risco combinado em 27% para primeira internação e internações recorrentes por insuficiência cardíaca (P = 0,0009), bem como redução da taxa de declínio da função renal (P < 0,0001).

 

Diretriz 2021 para o diagnóstico e tratamento de insuficiência cardíaca aguda e crônica

No mundo cerca de 2% dos adultos sofrem com insuficiência cardíaca. As novas diretrizes focam na incorporação de canaglifozina, dapaglifozina, sotaglifozina e empaglifozina no tratamento de pacientes com insuficiencia cardíaca e fração de ejeção reduzida. A associação sacubitril/valsartana já tinha conquistado seu espaço em edições prévias. Uma recomendação que deve ser lembrada é a de reabilitação e atividade física. Mesmo que os benefícios em aumento de sobrevida sejam polêmicos, a melhora de qualidade de vida e redução de morbidade é evidente.

A indicação de cardiodesfibriladores implantáveis em cardiopatia não isquêmica cai de indicação classe I para IIa, uma tímida caminhada com o aprendizado adquirido após o estudo DANISH, que lentamente vai se incorporando às diretrizes. Ressincronização com BRE e duração entre 130ms e 150ms também faz o mesmo caminho (I para IIa). Por outro lado, em pacientes que já tinham marca-passo e pioram de função há um maior estímulo para upgrade para ressincronização.

O controle de frequência na FA (preferência com betabloqueadores) perde evidência de I para IIa (talvez pela maior evidência de benefício em ablação de FA e ablação do nó com ressincronização). DOACs devem ser preferidos em relação a antagonistas de vitamina K, exceto em portadores de próteses mecânicas ou estenose mitral de moderada a grave.

 

SMART-MI

Um total de 400 pacientes pós-IAM com fração de ejeção entre 35% e 50% foram randomizados entre tratamento usual e implante de monitor de eventos (implantable loop recorders ou ILR). O monitor de eventos implantável foi incorporado no rol de procedimentos da ANS para detecção de síncope faz poucos anos e teve sua indicação ampliada em 2021 para pesquisa de FA em portadores de AVC criptogênico. É uma ‘pastilha’ colocada no subcutâneo do paciente, geralmente no tórax anterior, para fazer o registro eletrocardiográfico de forma contínua. A população já havia sido pré-selecionada pelo uso de monitorização eletrocardiográfica e de variabilidade de frequência cardíaca por 20 minutos em busca dos mais eletricamente instáveis (selecionando 400 entre 1300 pacientes).

Ao longo de três anos o grupo que usou monitor de eventos teve 6,3 vezes mais arritmias detectadas que no grupo controle. A detecção de qualquer evento (FA, TV) foi preditor de MACCE ao final de três anos (valor preditivo positivo de 61%). Por outro lado, como a monitorização intensiva aumentou a sensibilidade a estes eventos elétricos subclínicos, a sensibilidade para predição de eventos cardiovasculares maiores foi maior no grupo que usou monitoramento por ILR (60%) em comparação com tratamento usual (20%). Isso pode criar uma nova forma de acompanhar pacientes de mais alto risco em um período vulnerável, e abre margem para novos estudos que digam qual a melhor forma de intervir.

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