SIM-P na covid-19 e prematuridade: resumos do mês em pediatria

Dr. Fernando Lyra

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30 de agosto de 2021

Neste artigo

Dr. Fernando Lyra

Nesta seção o Dr. Fernando Lyra comenta estudos divulgados recentemente em publicações de impacto na área da pediatria. Membro do Departamento Científico de Cuidados Domiciliares da Sociedade de Pediatria de São Paulo, o Dr. Fernando também é especialista em administração em saúde (AMB e Sociedade Médica Brasileira de Administração em Saúde).

1. SIM-P: uma análise epidemiológica brasileira 

Os autores realizaram estudos com dados provenientes das Secretarias de Saúde dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal, contemplando o período entre o primeiro caso confirmado de síndrome inflamatória multissistêmica (SIM-P) temporalmente associada à covid-19 em cada estado até junho de 2021. O objetivo foi analisar a situação epidemiológica da SIM-P e fomentar novos estudos científicos que avaliem o total de casos e óbitos pela doença, bem como a distribuição entre estados, sexos e faixas etárias.

Os autores encontraram 1.010 diagnósticos de SIM-P, com uma taxa de letalidade de 6,4% (65 óbitos); 55,4% dos casos foram descritos no sexo masculino, mas 76% dos óbitos foram no sexo feminino.

Os dados por faixa etária foram:

  • 0 a 4 anos: 459 casos e 37 óbitos (8,06%)

  • 5 a 9 anos: 331 casos e 11 óbitos (3,32%)

  • 10 a 14 anos: 194 casos e 9 óbitos (4,6%)

  • 15 a 19 anos: 26 casos e 8 óbitos (30,8%)

Os autores apresentam a distribuição de casos e óbitos por estado, com as faixas etárias e o sexo dos pacientes acometidos pela doença.

Comentário:

Os critérios diagnósticos para SIM-P associada à covid-19 definidos pelos Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos incluem: pacientes com menos de 21 anos de idade apresentando febre, evidência laboratorial de inflamação, doença grave acometendo pelo menos dois sistemas de órgãos, necessidade de internação hospitalar e ausência de diagnóstico alternativo plausível. O paciente deve ter resultado positivo para infecção pelo SARS-CoV-2 em teste por reação em cadeia da polimerase (PCR, sigla do inglês Polymerase Chain Reaction) e/ou antígeno ou contato próximo com pessoa que tenha recebido diagnóstico confirmado de covid-19 nas últimas quatro semanas.

A SIM-P ocorre, em média, após 14 dias após a infecção aguda pelo SARS-CoV-2, e pode manifestar-se com sintomatologia semelhante à doença de Kawasaki (DK), da qual deve ser diferenciada, assim como do choque tóxico. Os sintomas são: febre, cefaleia, hiperemia conjuntival, exantema, edema de extremidades, mucosite.

Além de predominar em crianças com idade mais avançada do que as acometidas pela doença de Kawasaki, que predomina em menores de cinco anos de idade, a SIM-P apresenta alterações pouco comuns na doença de Kawasaki, por exemplo, manifestação gastrointestinal exuberante (dor abdominal intensa, diarreia e vômitos), miocardite, insuficiência cardíaca e choque. Os sintomas respiratórios são predominantemente consequentes ao acometimento cardíaco.

A SIM-P cursa com exagerada resposta inflamatória, e a maior parte dos casos ocorre em crianças e adolescentes que tiveram covid-19 na sua forma assintomática ou leve.

O diagnóstico deve ser considerado diante de quadro de febre ≥ 38 ºC persistente por três dias ou mais e pelo menos um dos seguintes achados:

  • sintomas do trato gastrointestinal

  • sintomas neurológicos

  • conjuntivite

  • rash difuso

  • alteração de mucosa oral

  • alteração de extremidades

  • linfadenopatia cervical

Além dos sinais e sintomas acima, deve-se monitorar a ocorrência de choque, hipotensão, disfunção cardíaca, perfusão lenta, alteração do nível de consciência, dispneia, aumento da frequência respiratória, estertores, ritmo de galope e arritmia.

Exames subsidiários ajudam a descartar outros diagnósticos: hemograma, reação em cadeia da polimerase (PCR, sigla do inglês Polymerase Chain Reaction), VHS, urina 1, enzimas hepáticas, albumina, ferritina, D-dímero, fibrinogênio, fator reumatoide, anticorpos antinucleares, entre outros. É frequente a caracterização de processo inflamatório (PCR e ferritina elevadas) e trombótico (D-dímero e fibrinogênio elevados). Encontra-se elevação de PCR e ferritina em até 90% dos casos de SIM-P.

Confirmado o diagnóstico de SIM-P, deve-se realizar precocemente ecocardiograma com avaliação da fração de ejeção e pesquisa de lesões coronarianas, entre outros exames complementares. As crianças devem ser avaliadas em serviços capacitados para atendimento de doenças infecciosas e inflamatórias que garantam o tratamento imediato de complicações. Discute-se a utilização de enoxaparina e corticoide em casos leves a moderados, e é consenso o uso de gamaglobulina endovenosa moderados ou graves, sendo frequente a associação de corticoide em casos graves. Medidas de anticoagulação e antiplaquetárias podem ser indicadas. Recentemente, tem-se considerado o uso de anacinra em casos específicos e refratários, no entanto, esta conduta ainda necessita de estudos adicionais de segurança e eficácia.

O prognóstico é bom, com sobrevida variável e predominantemente maior que 95%, sendo fundamental o acompanhamento multidisciplinar pós-alta.

Com o retorno às aulas presenciais, o número crescente de casos de covid-19 entre crianças e a presença de novas cepas, em especial da variante Delta, trabalhos e estudos sobre a SIM-P, como o apresentado, revestem-se de ainda maior importância. Recomendado a leitura do artigo na íntegra.

Referência: Brandão M, Rodrigues F, Gomes L et al. Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P): Uma análise epidemiológica brasileira. Research, Society and Development. 2021;10(9): e44710918154. doi:10.33448/rsd-v10i9.18154

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