CoronaVac: estudo aponta queda da proteção vacinal na faixa etária acima de 80 anos

Mônica Tarantino

Notificação

26 de agosto de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2 .

A efetividade da vacina CoronaVac foi avaliada por pesquisadores de diversas instituições brasileiras e estrangeiras para conhecer as taxas de proteção oferecidas no mundo real à população acima de 70 anos. A conclusão foi que a vacina desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac e testada pelo Instituto Butantan, em São Paulo, apresenta um declínio significativo contra a covid-19 sintomática com o aumento da idade, notadamente para idosos acima dos 80 anos, como atestou um robusto estudo observacional publicado recentemente pelo periódico British Medical Journal (BMJ). 

De modo geral, os pesquisadores constataram que um regime de duas doses de CoronaVac foi associado a 47% de proteção contra a covid-19 sintomática, 56% contra internações hospitalares e 61% contra mortes entre adultos com idade ≥70 anos no contexto de transmissão generalizada da variante Gama (antiga P1).

Os dados se referem a períodos de 14 dias ou mais após a segunda dose. A partir dos 80 anos, a proteção contra óbitos causados por covid-19 ficou em torno de 44%. Inversamente, o percentual aumenta à medida que a idade diminui: 78% de proteção contra a chance de morrer de covid-19 para idosos com idades entre 75 e 79 anos e 83,9% para aqueles entre 70 e 74 anos.

A proteção contra as hospitalizações seguiu o mesmo caminho. Ficou em 38,9% para os maiores de 80 anos, 66,6% na faixa de 79 a 75 anos, e chegou a 77,6% entre os com 70 e 74 anos.

"Juntos, esses achados sugerem que vacinas específicas ou esquemas de reforço podem ser necessários para vacinar efetivamente a população muito idosa (≥80 anos) contra covid-19", escreveram os autores.  

Para chegar a essas conclusões, o estudo Effectiveness of the CoronaVac vaccine in older adults during a gamma variant associated epidemic of covid-19 in Brazil: test negative case-control study analisou dados de 43.774 indivíduos com idade acima de 70 anos que fizeram o teste RT-PCR entre 17 de janeiro de 2021 e 29 de abril de 2021. As informações foram obtidas de bancos de dados públicos oficiais, como e-SUS, SIVEP-Gripe e Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo (resultados de exames laboratoriais e registro de vacinação). No período, a variante que prevalecia amplamente era a Gama.

Os autores acompanharam a evolução de casos sintomáticos e com resultado positivo do teste RT-PCR de amostra respiratória coletada no prazo de 10 dias após o início de sintomas. Esses casos foram comparados com outros da mesma população selecionada para o estudo que tiveram resultado negativo.

Em entrevista ao Medscape, um dos autores do estudo, o Dr. Julio Croda, infectologista e pesquisador da Fiocruz, destacou que o estudo trouxe dados inéditos sobre a efetividade da CoronaVac em idosos, segmento que não havia sido avaliado nos ensaios clínicos da vacina, por exemplo, e precisa ser mais estudado. Ele lembra ainda que o fenômeno da imunossenescência ocorre com todas as vacinas.

"Nesta pesquisa, estamos descrevendo isso bem especificamente para a CoronaVac no contexto da variante Gama", disse o especialista, destacando a relevância dos achados sobre a queda da proteção na população acima de 80 anos para o momento atual da pandemia no Brasil.

"Estamos vendo o aumento de internações e mortes principalmente na faixa etária acima de 80 com a chegada da variante Delta no Rio de Janeiro. Não há razão para achar que isso não se repetirá em outros estados. O Brasil está revertendo o padrão visto em junho, no qual 27% das hospitalizações eram de idosos. Agora, os idosos já representam 47%, e estão vacinados. Por isso, é muito importante dar a dose de reforço ao grupo das pessoas com 80 ou mais o quanto antes", afirmou o médico, um dos defensores da dose complementar de uma vacina anticovídica para toda a população acima de 60 anos.

Os dados agora publicados pelo BMJ foram anteriormente disponibilizados em pre print na plataforma medRxiv. Além de poucas alterações após a revisão por pares e sugestões dos editores, a publicação atual veio acompanhada de um editorial que destaca a importância de estudos de efetividade sobre o desempenho das vacinas.

Intitulado Real world effectiveness of covid-19 vaccines, o editorial destaca que estudos de vacinas pós-introdução fornecem aos profissionais e formuladores de políticas de saúde o tipo de evidência que os ensaios clínicos não oferecem ao abordar a eficácia dos imunizantes no mundo real contra vários resultados clínicos. No mesmo editorial, os autores comentam mais um estudo publicado na mesma edição do periódico, que avaliou duas vacinas de mRNA em adultos no Canadá.

De acordo com os editorialistas convidados Dr. Daniel Hungerford, PhD., bolsista de pós-doutorado do National Institute for Health Research (NIHR), no Reino Unido, e Dr. Nigel A. Cunliffe, PhD., professor de microbiologia médica na University of Liverpool, "a necessidade de avaliar diferentes vacinas covid-19 contra múltiplos desfechos e variantes em uma gama de subgrupos significa que os estudos de eficácia serão um elemento básico da saúde pública e da carga de trabalho acadêmica em um futuro previsível."

O editorial destaca ainda que esses estudos podem ser tão bons quanto os dados disponíveis, e que medidas para capturar dados de alta qualidade devem ser priorizadas, especialmente em países de baixa e média renda, onde a carga de doenças é alta e os sistemas de coleta de dados de rotina podem não ser tão eficientes.

"Precisamos valorizar os estudos de efetividade, porque não vamos ter ensaios clínicos suficientes para avaliar tantas mudanças que irão ocorrer no futuro", afirma o Dr. Julio.

Mais estudos recentes reforçam a necessidade da terceira dose de uma vacina anticovídica. Segundo o pesquisador, um trabalho publicado pelo periódico The Lancet Microbiome, feito por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e outro estudo chinês ainda em pre print, feito com idosos, mostram que depois de seis meses não há mais anticorpos neutralizantes.

"Então, a associação da baixa efetividade com perda de efetividade para doença sintomática faz com que esses dados sejam relevantes do ponto de vista da decisão em relação a uma dose de reforço", concluiu o Dr. Julio.

Governo autoriza terceira dose

Na quarta-feira (25), o ministro da Saúde Marcelo Queiroga anunciou a aplicação da dose de reforço para idosos com mais de 70 anos e pessoas imunossuprimidas a partir de 15 de setembro. Segundo o ministro, a partir desta data serão enviadas aos Estados as doses de reforço para os imunossuprimidos que tenham tomado a segunda dose há pelo menos 28 dias e de idosos com mais de 70 anos que tenham tomado a segunda há pelo menos seis meses. A pasta informou que a imunização deverá ser feita, preferencialmente, com uma dose do imunizante de Pfizer/BioNTech, ou de maneira alternativa, com as vacinas de Janssen/Johnson&Johnson ou Oxford/AstraZeneca.

O Ministério também decidiu reduzir o intervalo entre as doses da Pfizer e da AstraZeneca, que passará de 12 para 8 semanas a partir de setembro. A decisão federal foi tomada sob pressão de especialistas e gestores. O Rio de Janeiro já havia decidido iniciar a dose de reforço em 1º de setembro, assim como o Mato Grosso, que já anunciara a decisão, e outros estados, como Espírito Santo e Santa Catarina, que estavam definindo regras para administrar a terceira dose. Algumas horas depois do anúncio federal, o governador de São Paulo, João Doria, anunciou que o estado fará a aplicação da terceira dose em pessoas acima de 60 anos a partir de 6 de setembro.

Vários ensaios clínicos para avaliar o impacto da terceira dose estão em andamento no país. Há estudos com os imunizantes da Pfizer, da AstraZeneca (sendo que parte do estudo será feito com a nova versão, que protege contra a variante Beta), e com a CoronaVac. No ensaio clínico com esta última, a população do estudo será dividida em quatro grupos que receberão vacinas diferentes: Pfizer, AstraZeneca, Janssen e CoronaVac. Os primeiros resultados estão previstos para outubro. 

Até a terça-feira (24), cerca de 26,83% da população do país foram completamente vacinados com dose única ou duas doses e 59,19% tomaram a primeira dose de alguma vacina anticovídica. Levantamento do Ministério da Saúde divulgado em 20 de agosto aponta que mais de 8,5 milhões de pessoas não voltaram aos postos de vacinação na data correta para tomar a segunda dose.

A maioria dos países já optou por administrar uma dose de reforço, apesar dos apelos da Organização Mundial de Saúde (OMS) por mais equidade na vacinação global. O diretor da OMS, Dr. Tedros Adhanom, PhD., tem instado as nações mais ricas a doarem vacinas aos mais pobres, e alertado que a pandemia não terminará se não for controlada em todos os países.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....