Terapia digital está cada vez mais próxima da prática clínica

Dra. Leah Croll

Notificação

23 de agosto de 2021

Nos últimos anos, vem surgindo uma nova modalidade de intervenção clínica: a terapia digital. Na esteira de resultados promissores em uma série de doenças, uma aprovação de alto nível pela Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos e vários ensaios clínicos em andamento, neurologistas (e outros médicos) em breve poderão prescrever videogames junto com terapias convencionais para tratar várias patologias.

"Terapêutica digital se refere a uma intervenção baseada em software. Não é apenas informação ou monitoramento digitais, é uma opção de tratamento alternativo baseada em software", disse o Dr. John Krakauer, médico e professor de neurologia, neurociência e medicina física e reabilitação na Johns Hopkins University School of Medicine, nos EUA.

O Dr. John explicou que o sistema nervoso é especialmente responsivo às terapias "gamificadas", por conta da sua excepcional capacidade de aprender. "É um sistema cuja plasticidade depende da experiência. É realmente desejável ter uma intervenção comportamental de alta intensidade e em alta dosagem para tentar reconectar e treinar o sistema nervoso".

"Em outras palavras, a terapêutica digital complementa o que acontece nas sessões de fisioterapia e terapia ocupacional com intervenções comportamentais respaldadas pela ciência e baseadas em tecnologia e softwares", disse ele.

Golfinhos digitais que tratam o AVC

O Dr. John, que também é o principal consultor científico da empresa MindMaze , estuda terapias digitais imersivas para aprimorar a neurorreabilitação após um acidente vascular cerebral (AVC). Ele trabalha no MindPod Dolphin, um jogo de realidade virtual que treina o controle motor das extremidades superiores fazendo com que o paciente simule um nado no oceano como um golfinho.

"O movimento é rastreado, existem algoritmos de inteligência artificial controlando a dificuldade, e todo o propósito é levar o sistema nervoso para um passeio, fora do contexto das atividades da vida cotidiana. Os pacientes estão tão envolvidos e imersos que nem mesmo percebem que estão fazendo movimentos de alta qualidade, alta intensidade e alta dose com os braços".

Em um estudo piloto chamado SMARTS2 , o grupo descobriu que o MindPod Dolphin era cerca de duas vezes mais eficaz do que a reabilitação habitual para a recuperação motora do membro superior em pacientes que tiveram um AVC. Um estudo maior está em andamento na Nova Zelândia.

Outro estudo preliminar descobriu que o MindPod Dolphin teve efeitos positivos na saúde física e cognitiva de idosos em uma instituição de longa permanência. Agora, o MindPod Dolphin está sendo estudado em todo o mundo em pacientes com esclerose múltipla , doença de Parkinson , concussão e traumatismo cranioencefálico (TCE). Há até mesmo um estudo financiado pelo Departamento de Defesa do EUA em andamento para veteranos com TCE .

Alcançando os jovens por meio dos jogos virtuais

A Dra. Isabela Granic, Ph.D., diretora do Games for Emotional and Mental Health Lab, professora e presidente do Departamento de Psicopatologia do Desenvolvimento do Instituto de Ciência Comportamental da Radboud Universiteit, na Holanda, estuda terapia gamificada para depressão e ansiedade.

"Usamos técnicas baseadas em evidências no mundo clínico da saúde mental ou na pesquisa de desenvolvimento, como terapia cognitivo-comportamental (TCC) ou terapia de exposição e, em seguida, as incorporamos aos jogos, usando um mecanismo diferente para entregar algo que sabemos que funciona", disse ela ao Medscape em 2020 .

Os dados para um jogo desenvolvido por ela, chamado MindLight, são promissores até agora. "Temos ensaios clínicos randomizados que mostram que podemos reduzir a ansiedade dos jovens pela metade depois de terem apenas cinco sessões de uma hora por semana. Mostramos que podemos obter os mesmos benefícios da TCC para esses jovens, o que é incrível." O MindLight também se mostrou eficaz no tratamento da ansiedade em crianças com autismo .

O primeiro videogame terapêutico

No verão de 2020, o EndeavorRx, fabricado pela Akili Interactive, tornou-se o primeiro videogame com prescrição a ser aprovado pela FDA. O jogo, que visa melhorar a atenção, está atualmente autorizado para crianças de 8 a 12 anos com transtorno de déficit de atenção/hiperatividade.

Os jogadores completam as "missões" conduzindo uma aeronave através de percursos de obstáculos complexos e coletando alvos. A prescrição direciona a criança a completar cinco missões por dia, durante cinco dias por semana. É recomendado que os pacientes usem o EndeavorRx por pelo menos quatro semanas. Os pesquisadores têm esperança de que, no futuro, o jogo também se mostre eficaz para outros distúrbios cognitivos, incluindo demência e declínio cognitivo leve .

Agora, o EndeavorRx está até sendo estudado por sua eficácia no combate à névoa mental na covid-19 prolongada. Uma equipe de pesquisadores liderada pela Dra. Faith Gunning, psicóloga e vice-presidente de pesquisa do Departamento de Psiquiatria da Weill Cornell Medicine, nos EUA, está realizando um estudo com o EndeavorRx para disfunção cognitiva pós-covid .

"Este jogo terapêutico faz uma estimulação repetida dos processos cognitivos e redes que suportam multitarefa e atenção. E, ao fazer isso, minha hipótese é que haverá uma restauração da função dessa rede de controle cognitivo", explicou a Dra. Faith. As intervenções gamificadas, ela acrescentou, são mais divertidas e envolventes para os pacientes, em comparação com as terapias mais convencionais.

O ensaio totalmente remoto irá randomizar aproximadamente 100 participantes para intervenção cognitiva digital e grupos de controle. Durante seis semanas, o grupo da intervenção será solicitado a jogar EndeavorRx pelo menos cinco dias por semana, por cerca de 25 minutos por dia. Avaliações cognitivas pré e pós-intervenção serão comparadas entre os grupos.

"No que diz respeito às intervenções digitais para saúde mental e distúrbios cognitivos, a pandemia realmente acelerou o trabalho. Isso significa que, no futuro, mais pessoas podem realmente acessar o que estamos fazendo em nossos laboratórios e pesquisas clínicas", disse a Dra. Faith. "Espero que isso leve a abordagens mais escalonáveis que tenham um alcance mais amplo na comunidade".

O Dr. John prevê um futuro no qual neurologistas prescrevem medicamentos, dispositivos e "intervenções digitais imersivas que aumentam a plasticidade".

Tomara que a sinergia desses tratamentos seja uma virada de jogo para os pacientes.

A Dra. Leah Croll é fellow do departamento de neurologia na New York University Langone Health na cidade de Nova York e não informou conflitos de interesse.

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