Atividade física pode compensar riscos à saúde decorrentes da falta de sono

Batya Swift Yasgur

Notificação

19 de agosto de 2021

A prática de atividades físicas em intensidade igual ou maior à recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) pode compensar importantes riscos à saúde associados à má qualidade do sono, inclusive de morte, sugere uma nova pesquisa.

Pesquisadores analisaram dados de quase 400 mil pessoas de meia-idade e constataram que, em um período de 11 anos, aquelas que, além de dormir mal, praticaram pouca atividade física, apresentaram aumento do risco de morte por todas as causas (57%); morte por doença cardiovascular (67%); morte por qualquer tipo de câncer (45%); e morte por câncer de pulmão (91%), em comparação com quem tinha uma boa qualidade de sono e fazia bastante atividade física.

"Nosso estudo descobriu que a falta de atividade física aumentou o risco de mortalidade prematura relacionada ao sono de má qualidade de maneira sinérgica, e, por outro lado, seguir as recomendações de atividade física compensou a maioria dos riscos associados ao sono de má qualidade", disse ao Medscape o Dr. Emmanuel Stamatakis, Ph.D., professor da University of Sidney, na Austrália.

O estudo foi publicado on-line em 29 de junho no periódico British Journal of Sports Medicine.

Efeitos combinados?

A atividade física e o sono são importantes para a saúde, mas de forma geral, muitos não conseguem obter a quantidade necessária de nenhum dos dois, gerando enorme carga clínica e impacto na qualidade de vida, disse Dr. Emmanuel.

Tanto a atividade física como o sono afetam os desfechos clínicos de forma independente. Também é possível que "influenciem a saúde por mecanismos relacionados"; entretanto, "sabemos muito pouco a respeito sobre o efeito combinado desses dois importantes aspectos do nosso estilo de vida", pontuaram os autores.

Para avaliar possíveis "efeitos combinados", os pesquisadores usaram dados de participantes do UK Biobank, uma coorte prospectiva de mais de 500 mil adultos recrutados entre 2006 e 2010, bem como informações a respeito da mortalidade da população de bancos de dados do Reino Unido.

A prática semanal de atividades físicas dos participantes foi mensurada através do equivalente metabólico da tarefa por minuto (MET-min, do inglês Metabolic Equivalent Task-minute), que é quantidade aproximada de energia gasta por minuto de atividade física praticada, de acordo com Dr. Emmanuel.

A intensidade da atividade física foi categorizada como baixa (0 a < 600 MET-min/semana); média (600 < 1.200 MET-min/semana); ou alta (≥ 1.200 MET-min/semana). Os pesquisadores também criaram a categoria "não moderada a vigorosa" (MVPA, sigla do inglês No Moderate-to-Vigorous Physical Activity).

A OMS recomenda 150 minutos de atividade moderada ou 75 minutos de atividade vigorosa por semana, pontuou o Dr. Emmanuel.

Os pesquisadores criaram um "escore de saúde do sono", baseado em cinco características típicas do sono saudável: cronotipo matutino, duração adequada do sono (7 a 8 horas/noite), ausência de insônia frequente, ausência de roncos, ausência de sonolência diurna frequente.

Os participantes receberam de 1 a 5 pontos, de acordo com a qualidade do sono avaliada pelos parâmetros descritos, sendo:

  • ≥ 4 pontos: boa qualidade do sono

  • 2 ou 3 pontos: qualidade intermediária do sono; e

  • ≤ 1 pontos: má qualidade do sono.

As variáveis incluíram idade, sexo, índice de massa corporal (IMC), status socioeconômico, ingesta de frutas e vegetais, sedentarismo, tabagismo, emprego, consumo de álcool, pontuação de atividade física ou de sono.

Participantes com história de doença cardiovascular ou câncer ao início do estudo foram excluídos. Os pesquisadores também excluíram pacientes que morreram de covid-19.

Os pacientes foram acompanhados por uma média de 11,1 anos – até maio de 2020 ou a morte (por todas as causas, doenças cardiovasculares, doença coronariana, acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico, AVC isquêmico, câncer ou câncer de pulmão).

Efeitos sinérgicos

Dentre os elegíveis para ingressar no estudo (N = 380.055; média de idade (DP), 55,9 (8,1) anos; 45% homens; IMC médio, 26,9 (4,1), a qualidade do sono de 3% foi classificada como ruim, a de 42% como intermediária e a de 56% como boa.

Mais da metade (59%) realizava atividade física de alta intensidade, 16% "não MVFA", 10% de baixa intensidade e 15%, de média.

"Pacientes mais jovens, mais magros, mulheres, com menos privação socioeconômica, que comiam mais vegetais e frutas, que passavam menos tempo sentados, sem história de doença psiquiátrica, que nunca fumaram, cujo trabalho não era em esquema de turnos, que bebiam menos álcool e praticavam mais atividades físicas, tenderam a obter mais pontos na escala de qualidade de sono."

Após ajuste para fatores de confusão e intensidade da atividade física, uma qualidade do sono ruim ou intermediária foi associada a risco mais elevado de morte, em comparação com uma boa qualidade do sono.

Morte Sono de má qualidade
HR* (IC de 95%)**
Sono de qualidade intermediária
HR (IC de 95%)
por todas as causas 1,23 (de 1,13 a 1,34) 1,05 (1,02 a 1,09)
por doença cardiovascular 1,39 (de 1,19 a 1,62) 1,09 (1,03 a 1,17)
* razão de risco (HR, do inglês hazard ratio)
** intervalo de confiança (IC) de 95%

O sono de má qualidade foi associado a AVC isquêmico (HR de 1,94; IC 95% de 1,29 a 2,94) e o sono de qualidade intermediária foi associado a doença coronariana (HR de 1,16; IC 95% de 1,06 a 1,27).

Após o ajuste para

maior risco de todas as outras doenças avaliadas, exceto AVC hemorrágico. fatores de confusão, os participantes que praticavam atividade mais leve tinham maior risco de morte por todas as causas, em comparação com os que praticavam atividade física mais intensa.

Atividade física de média intensidade Atividade física de baixa intensidade não MVPA
1,05 (de 1,01 a 1,10) 1,08 (de 1,02 a 1,14) 1,25 (de 1,20 a 1,31)

Os participantes no grupo não MVPA também apresentaram

Doença cardiovascular total

1,31 (de 1,21 a 1,42)

Câncer total

1,16 (de 1,10 a 1,23)

Doença coronariana

1,35 (de 1,21 a 1,52)

AVC isquêmico

1,38 (de 1,07 a 1,77)

Câncer de pulmão

1,35 (de 1,19 a 1,53)

Os participantes com qualidade do sono ruim e que, além disso, praticaram atividade física em baixa intensidade tiveram o maior risco de eventos adversos (exceto de AVC hemorrágico) em comparação com os que praticaram atividade física de alta intensidade e tinham uma boa qualidade de sono.

Atividade física de média intensidade Atividade física de baixa intensidade não MVFA
1,05 (de 1,01 a 1,10) 1,08 (de 1,02 a 1,14) 1,25 (de 1,20 a 1,31)

"As associações de sono de má qualidade com risco de mortalidade por todas as causas e por causas específicas são exacerbadas pela pouca atividade física, sugerindo possivelmente efeitos sinérgicos", os autores escreveram.

"Por 'efeitos sinérgicos', queremos dizer que a inatividade física ampliou os riscos para a saúde de um sono insatisfatório de uma forma que o risco combinado de mortalidade por inatividade física e sono insatisfatório foi maior do que a soma dos riscos independentes do sono ou da atividade física, isoladamente", explicou Dr. Emmanuel.

"Vencer ou vencer"

Comentando para o Medscape, Dr. Nitun Verma, médico e porta-voz da American Academy of Sleep Medicine, disse que, apesar de o estudo avaliar associações e não causalidade, ele "contribui para a pesquisa que relaciona a qualidade do sono e a prática de atividade física com a melhora da saúde".

Dr. Nitun, que é especializado em sono e não participou do estudo em pauta, afirmou que "reitera a importância de os médicos considerarem tanto a qualidade do sono como a atividade física de todos os pacientes na atenção primária".

Dr. Emmanuel concorda.

"Ao adicionar uma prescrição de atividade física a um plano de tratamento de distúrbios do sono, os médicos irão ajudar muitos pacientes a aproveitar os diversos benefícios diretos de um estilo de vida ativo, melhorar seu padrão de sono e, como mostra nosso novo estudo, até mesmo reduzir alguns dos riscos de saúde causados por sono de má qualidade. Investir na atividade física é vencer ou vencer tanto para médicos quanto para os pacientes" ele disse.

O trabalho de Dr. Emmanuel foi financiado pela National Health and Medical Research Council. Os coautores do estudo e o Dr. Nitu Verma informaram não ter conflitos de interesses.

Br J Sports Med Publicado on-line em 29 de junho de 2021.

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