Estudo relaciona experiências difíceis durante a infância a comprometimento da função executiva

Heidi Splete

Notificação

11 de agosto de 2021

Uma revisão sistemática com metanálise de 91 estudos indica que a exposição a privações na infância está significativamente associada ao comprometimento da função executiva.

Pesquisas anteriores mostraram conexões entre exposição a adversidades durante a infância e alterações no desenvolvimento psicológico, cognitivo e neurobiológico, incluindo aumento do risco de ansiedade, depressão , transtorno de déficit de atenção e/ou hiperatividade (TDAH), transtornos comportamentais , suicídio e transtorno por uso de substâncias. No entanto, há poucas pesquisas focadas nas associações entre os diferentes tipos de adversidades e os processos específicos, escreveram Dylan Johnson, da University of Toronto, e colaboradores.

"Nós abordamos essa lacuna na literatura de frente, examinando a associação entre os tipos de adversidades enfrentadas na infância e a função executiva de crianças e jovens", disseram os autores.

No estudo publicado no periódico JAMA Pediatrics, os pesquisadores identificaram 91 artigos: 82 coortes únicas e 31.188 indivíduos entre 1 e 18 anos de idade.

Os artigos, selecionados a partir dos bancos de dados Embase, ERIC, MEDLINE e PsycInfo, haviam sido publicados até 31 de dezembro de 2020. O desfecho primário foi a avaliação de três domínios da função executiva: adaptação cognitiva, controle inibitório e memória de trabalho. A fim de corrigir para pequenos tamanhos de amostra de alguns estudos, os pesquisadores padronizaram suas medidas de associação em tamanhos de efeito g de Hedges.

No geral, as estimativas agrupadas da associação entre qualquer situação adversa vivida na infância e os três domínios da função executiva, mostraram uma heterogeneidade significativa: efeitos g de Hedges de -0,49 para adaptação cognitiva, -0,39 para controle inibitório e -0,47 para memória de trabalho.

Os pesquisadores também examinaram um subgrupo de pacientes expostos a situações de ameaça versus privação na infância, que incluiu 56 dos 91 artigos originais. Nesta análise, um desempenho significativamente inferior do controle inibitório foi mais associado a privação do que a ameaça (g de Hedges -0,43 versus -0,27). Da mesma forma, os pesquisadores observaram que um desempenho significativamente inferior da memória de trabalho foi mais associado a privação do que a ameaça (g de Hedges -0,54 versus -0,28). Tanto o controle inibitório como a memória de trabalho não tiveram a associação com as adversidades moderada por idade ou sexo dos participantes, desenho do estudo, qualidade dos desfechos ou da seleção de pacientes.

Não se observou diferença significativa no efeito da exposição a ameaça em relação a privação na associação com adaptação cognitiva. A razão para esta discrepância permanece incerta, disseram os pesquisadores. "Algumas evidências sugerem que indivíduos que crescem em ambientes instáveis podem ter menos controle inibitório e mais adaptação cognitiva", observaram.

No entanto, os resultados globais sugerem que a exposição a privação pode estar associada a alterações de desenvolvimento neurológico que dão suporte ao desenvolvimento da função executiva, disseram eles.

Os resultados do estudo foram limitados por vários fatores, incluindo a importante heterogeneidade das estimativas agrupadas e a necessidade de considerar a variação na concepção do estudo, observaram os pesquisadores. Além disso, o desenho transversal de muitos estudos impediu conclusões sobre a causalidade entre adversidades enfrentadas na infância e comprometimento da função executiva, explicaram eles.

"As próximas pesquisas devem explorar as diferenças entre ameaça e privação quando medidas importantes da função executiva emocional são usadas", enfatizaram os pesquisadores. "A exposição à ameaça muitas vezes é associada a alterações no processamento emocional, e diferentes achados podem ser observados ao pesquisar a função executiva emocional", concluíram.

São necessárias estratégias de prevenção e intervenção

"Apesar de diversos estudos terem examinado as associações entre adversidades enfrentadas na infância e função executiva, as associações entre ameaça e privação específicas nos domínios função executiva (p. ex., adaptação cognitiva, controle inibitório e memória de trabalho) não têm sido exploradas de forma abrangente", escreveram as Dras. Beth S. Slomine e Nikeea Copeland-Linder, ambas Ph.D. do Kennedy Krieger Institute, Johns Hopkins University School, nos EUA, no editorial que acompanha o estudo .

O estudo é "essencial e oportuno", devido ao impacto da pandemia de covid-19 na exposição das crianças a privação, disseram os autores. "Muitas crianças vivenciaram a morte de familiares ou amigos, insegurança alimentar e habitacional devido à recessão econômica, fechamento de escolas, perda de serviços de apoio essenciais e isolamento por conta das medidas de distanciamento social", e esses efeitos são ainda maiores para as crianças que já vivem em situação de pobreza e para pessoas com transtornos de desenvolvimento, eles observaram.

São necessários mais recursos para desenvolver e implementar políticas de prevenção a adversidades, bem como planos de intervenção precoce, disseram os editorialistas.

"Os programas de intervenção precoce têm um grande potencial para reduzir o risco de adversidades enfrentadas na infância e promover o desenvolvimento da função executiva", escreveram. "Esses programas, como o apoio à família e os serviços pré-escolares, são soluções viáveis para as crianças e suas famílias", acrescentaram. Embora a pandemia tenha impedido o uso de muitos serviços de apoio para crianças em situação de risco, a adoção da tecnologia da telemedicina significa que "agora é mais viável que especialistas de reabilitação cognitiva implementem essa tecnologia para treinar pais e funcionários de escolas sobre como ajudar com a realização de intervenções em contextos do mundo real e como promover a função executiva na vida diária", destacaram.

Em geral, os resultados do estudo destacam a urgência de identificar exposição a adversidades na infância e de implementar estratégias para reduzir e prevenir essas situações, além de fornecer uma intervenção precoce para mitigar o impacto das adversidades sobre a função executiva nas crianças, enfatizaram as editorialistas.

Os dados esclarecem, mas ainda há barreiras

"Neste momento, existem dados que demonstram o impacto significativo das experiências adversas da infância nos desfechos de saúde – desde o comprometimento da saúde mental até o aumento do risco de câncer e diabetes", disse a Dra. Kelly A. Curran, médica do University of Oklahoma Health Sciences Center, nos EUA, em uma entrevista.

"Ao raciocinar sobre desfechos de saúde, os médicos – e me incluo nesse grupo – tendem a juntar todas essas experiências", disse a Dra. Kelly. "No entanto, há dados em evolução de que os desfechos neurocognitivos podem diferir de acordo com o tipo de adversidade vivenciada na infância. Esta metanálise examina o risco de diferentes impactos neurocognitivos de adversidades do tipo ameaça versus privação, o que é importante para pediatras, porque nos ajuda a compreender melhor os riscos que nossos pacientes podem apresentar", explicou ela.

"Os resultados desta metanálise foram especialmente intrigantes, porque eu não tinha considerado o impacto que os diferentes tipos de adversidade teriam no desenvolvimento neurocognitivo", destacou a Dra. Kelly. "Este estudo me fez pensar sobre essas experiências de forma diferente, e ao refletir sobre os pacientes que cuidei ao longo dos anos, consigo ver a diferença em seus desfechos", disse ela.

Ainda há muitas barreiras para abordar os efeitos da privação no início da vida sobre a função executiva, explicou a Dra. Kelly.

"Em primeiro lugar, há barreiras em relação à identificação dessas crianças e adolescentes, que podem não ter contato regular com o sistema de saúde. Além disso, é importante fornecer recursos para os pais e cuidadores – isso inclui a criação de uma rede de suporte robusta e o investimento em educação sobre o impacto dessas experiências", observou. "Também existem barreiras para identificar e conectar-se com os recursos que irão ajudar as crianças em risco de piores desfechos de desenvolvimento neurológico", acrescentou.

"Agora que sabemos que as crianças que vivenciam situações de privação no início da vida têm mais risco de piores desfechos no desenvolvimento neurológico. Será importante entender quais intervenções podem ajudar a melhorar esses desfechos", disse a Dra. Kelly.

O estudo foi financiado pelo Connaught New Researcher Award da University of Toronto. Os pesquisadores informaram não ter conflitos de interesses.

A Dra. Beth informou receber royalties de livros da Cambridge University Press sem relação com o estudo em pauta. A Dra. Kelly informou não ter conflitos de interesses, mas atua no Pediatric News Editorial Advisory Board.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.com – Medscape Professional Network.

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