Estudo visa combater a infecção latente por tuberculose em pessoas com HIV no Brasil

Clarinha Glock

9 de agosto de 2021

Pesquisadores brasileiros e norte-americanos buscam avaliar novas estratégias para o diagnóstico e o tratamento da infecção pelo Mycobacterium tuberculosis em pessoas que vivem com o HIV.

"Além de ser a doença infecciosa de causa identificada que mais mata no mundo (depois da covid-19), a tuberculose é também a doença oportunista que mais mata pessoas vivendo com HIV. Não há como eliminar a tuberculose sem enfrentar a infecção latente", disse o Dr. Marcelo Cordeiro dos Santos, infectologista e gerente de micobacteriologia na Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, no Amazonas, um dos centros responsáveis pelas pesquisas.

A infecção latente por tuberculose (ILTB) é um estado de resposta imunitária persistente à estimulação por antígenos do agente infeccioso (detectável por exames)em que não há evidência de tuberculose ativa, ou seja, não há sintomas.

Embora a infecção latente por tuberculose não seja transmissível, pode se manifestar como doença ativa no futuro, daí a importância de detectar e tratar o quadro o quanto antes, evitando o adoecimento e a morte, especialmente de indivíduos em maior risco, dentre os quais, estão as pessoas que vivem com o HIV.

"Mesmo com CD4 alto, os pacientes vivendo com HIV têm 28 vezes mais chances de adoecer por tuberculose do que a população em geral", explicou a Dra. Betina Durovni, médica infectologista da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, que também participa da pesquisa.

O estudo PREVINE-TB ( PR event: EValuating the implementation of NEw strategies for preventive TB among people living with HIV in Brazil) tem como objetivo determinar a eficácia e os custos do QuantiFERON-TB® Gold Plus (QFT+) associados a carga viral de rotina e contagem de CD4 para a prevenção da tuberculose.

O QTF+ é um exame de sangue do tipo IGRA (Interferon-Gamma Release Assays) que mensura a liberação de interferon gama por parte dos linfócitos T em resposta a antígenos específicos do M. tuberculosis. Assim, na coleta rotineira de exame de sangue para a contagem de CD4 e verificação da carga viral em pacientes com HIV, o médico poderá identificar também se há infecção latente por tuberculose e, se necessário, dar início ao tratamento. No caso de resultado negativo, o exame deve ser repetido anualmente.

Com previsão de incluir seis mil participantes até 2023, o PREVINE-TB está sendo realizado pela Johns Hopkins University em parceria com unidades básicas de saúde (UBS) no Rio de Janeiro, Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado e Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de São Paulo. O projeto está sendo financiado pelos National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos.

Já existe um protocolo de rastreamento e tratamento da infecção latente por tuberculose no Brasil há pelo menos uma década, mas a adesão dos profissionais de saúde ainda é baixa. O Ministério da Saúde recomenda investigação anual para infecção latente por tuberculose em pacientes com HIV e CD4 > 350 células/mm3.

O exame disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) é a prova tuberculínica, que se baseia em uma reação de hipersensibilidade cutânea após a aplicação de PPD via intradérmica. A desvantagem em relação ao IGRA é que a pessoa tem de voltar à unidade de saúde para fazer a leitura da reação, que é realizada de 48 h a 72 h depois da aplicação. Em pacientes com CD4 < 350 células/mm3 não é necessário esperar o resultado do teste, deve-se iniciar imediatamente a terapia (desde que descartada a presença de tuberculose ativa). "Um dos desafios é convencer alguns médicos de que uma pessoa sem sintomas precisa fazer o tratamento", explicou o Dr. Marcelo. Os benefícios são comprovados por estudos recentes. [1]

O centro do Amazonas e as UBS do Rio de Janeiro vão avaliar também a viabilidade da ampliação do uso de um tratamento encurtado para infecção latente por tuberculose em pessoas que vivem com HIV, crianças e adolescentes de 2 a 15 anos, e contatos de pacientes com tuberculose pulmonar. O tratamento consiste em doses semanais de rifapentina e isoniazida durante três meses (3HP). O estudo feito em parceria com a Jonhs Hopkins University integra o consórcio internacional IMPAACT4TB. [2] Os tratamentos encurtados estão previstos nas recomendações da Nota Informativa do Ministério da Saúde publicada em 06 de julho de 2021. [3]

A Dra. Sumire Sakabe, infectologista do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de São Paulo e do Hospital 9 de Julho, disse que a tuberculose "é uma doença democrática"; embora oM. tuberculosis tenha nichos preferenciais, e a infecção por HIV é um deles, outros pacientes com doenças graves complexas, como alguns tipos de câncer e transplantados, que precisam usar imunossupressores, se beneficiariam do diagnóstico e tratamento da infecção latente por tuberculose. "Muita gente pode ser protegida do adoecimento por tuberculose. O impacto é grande", acrescentou Dra. Betina.

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