Alterações na córnea podem indicar covid-19 prolongada

Marcia Frellick

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6 de agosto de 2021

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A perda de fibras nervosas e o aumento das células dendríticas (as principais células imunitárias na córnea) pode ajudar a identificar a covid-19 prolongada, de acordo com um pequeno estudo publicado on-line no periódico British Journal of Ophthalmology.

O Dr. Gulfidan Bitirgen, médico do Departamento de Oftalmologia do Necmettin Erbakan University Meram Medical Faculty Hospital, na Turquia, e colaboradores descobriram que a associação foi particularmente forte no estudo de 40 pacientes com covid-19 que apresentaram anosmia ou tontura, parestesia ou dor neuropática.

“O fato de que os médicos serão capazes de identificar objetivamente os pacientes com covid-19 prolongada nos permitirá identificar aqueles com algum problema definitivo, e também abre caminho para a avaliação do efeito de terapias que podem ajudar na reparação dos nervos”, disse ao Medscape o autor sênior do estudo, Dr. Rayaz A. Malik, médico do Weill Cornell Medicina Qatar, no Qatar.

Pelo menos uma a cada 10 pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 irá apresentar a covid-19 prolongada, definida neste artigo como persistência de sintomas por mais de quatro semanas após a resolução do quadro agudo. Os sintomas não são facilmente explicados por um diagnóstico alternativo.

Pesquisas anteriores sugeriram que lesões de fibras nervosas podem desempenhar um papel no surgimento da covid-19 prolongada.

“Nenhuma surpresa”

A equipe do Dr. Gulfidan avaliou essa hipótese com uma técnica de laser de alta resolução conhecida como microscopia confocal da córnea (MCC), para procurar danos nervosos na córnea e verificar a densidade das células dendríticas. Estas células têm um papel fundamental na resposta primária do sistema imunitário.

A microscopia confocal da córnea tem sido usada para identificar comprometimento nervoso e alterações inflamatórias em outras doenças, incluindo neuropatia diabéticaesclerose múltiplafibromialgia.

A Dra. Angie Wen, médica e professora na New York Eye & Ear Infirmary do Mount Sinai, nos EUA, disse: “A covid-19 acomete tantas partes do corpo, que o fato de acometer o olho não surpreende.”

Ela disse que verificar a córnea através da microscopia confocal da córnea pode servir como mais um elemento para embasar o diagnóstico de covid-19 prolongada em pessoas que apresentam, por exemplo, sintomas pulmonares e dor neuropática sem explicação aparente. “Mas parece que ainda não podemos tirar essa conclusão a partir desses resultados”, disse ela.

O Dr. Rayaz disse: “Nossa técnica não é específica para covid-19 prolongada, pois detecta danos de fibra nervosa e há muitas possíveis causas para isso. No entanto, se outras causas de danos neurais forem descartadas, podemos ficar bastante confiantes de que se trata de covid-19 prolongada.”

“Além disso, eu acho que a microscopia confocal da córnea é particularmente útil em pacientes com sintomas de covid-19 prolongada sem danos nos nervos da córnea, pois podemos tranquilizá-los de que não há nenhum problema grave subjacente.”

Quanto ao acesso à tecnologia da microscopia confocal, o Dr. Rayaz disse que a maioria dos grandes centros de oftalmologia no mundo tem o equipamento.

“Desde quando nós capitaneamos o uso desta técnica para avaliação de neuropatia diabética, há mais de 20 anos, o interesse cresceu exponencialmente, e há mais de 300 centros usando a técnica para avaliar uma série de neuropatias periféricas, inclusive neuropatia diabética, neuropatia inflamatória, neuropatia do HIV, neuropatia induzida por quimioterapia e doenças neurodegenerativas centrais como esclerose múltipla, Parkinson e demência”, disse ele.

No entanto, a Dra. Angie pontuou que, fora dos grandes centros acadêmicos, não há ampla disponibilidade do equipamento e que isso provavelmente limita a consolidação como ferramenta diagnóstica, “mas é uma via de pesquisa”.

Mais trabalhos necessários

As limitações do estudo incluem o pequeno tamanho da amostra, o fato de ter sido realizado em um único local e o uso de um questionário para definir a gravidade dos sintomas neurológicos, em vez de medidas mais objetivas.

“São necessários mais estudos, com coortes maiores e outros parâmetros de avaliação da neuropatia e microscopia confocal da córnea”, escreveram os autores.

Os participantes haviam se recuperado da fase aguda da covid-19 entre um e seis meses antes do estudo. Eles preencheram um questionário de 28 itens do National Institute of Health and Clinical Excellence (NICE) para rastrear a presença de sintomas consistentes com covid-19 prolongada.

As respostas que sugeriram presença de covid-19 prolongada foram extremamente correlatas com lesão de nervos da córnea.

Na quarta semana do estudo, 22 de 40 (55%) pacientes tinham sintomas neurológicos e na 12ª semana, 13 de 29 (45%) pacientes apresentavam esses sintomas.

Os pesquisadores então realizaram a microscopia confocal da córnea, buscando por pequenos danos na fibra nervosa e avaliando a densidade das células dendríticas.

O exame da córnea dos pacientes foi comparado ao de 30 pessoas hígidas sem história de covid-19.

Os exames indicaram que, quatro semanas depois de se recuperarem da covid-19 aguda, os pacientes com sintomas neurológicos tiveram maiores danos e perda de fibras nervosas da córnea, com maior número de células dendríticas, do que aqueles sem história de covid-19.

O número de fibras nervosas da córnea dos pacientes que não apresentaram sintomas neurológicos foram equivalentes aos dos pacientes sem história de covid-19, mas mais células dendríticas.

“Até onde sabemos, este é o primeiro estudo que descreve a perda de nervos na córnea e o aumento da densidade de células dendríticas em pacientes que se recuperaram da covid-19, especialmente em indivíduos com sintomas persistentes, consistentes com covid-19 prolongada”, escreveram os autores.

Os Drs. Gulfidan, Rayaz e a Dra. Angie informaram não ter conflitos de interesses.

Br J Ophthalmol. 2021;0:1-7. Texto completo

Marcia Frellick é jornalista freelancer residente em Chicago. Ela já assinou artigos em Chicago Tribune, Science News e Nurse.com, e atuou como editora no Chicago Sun-Times, Cincinnati Enquirer e no St. Cloud Times. Acompanhe seu trabalho no Twitter: @mfrellick

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