Pesquisadores avaliam papel da função hormonal na síndrome congênita associada a infecção por Zika

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

5 de agosto de 2021

Estudo que analisou uma coorte de crianças com microcefalia congênita associada a infecção pelo vírus Zika em dois hospitais públicos da Bahia revela que, na maioria dos casos, os problemas de desenvolvimento pré e pós-natal não são causados por disfunção hormonal. Segundo o artigo publicado no periódico JAMA Network Open, [1] o hipopituitarismo é pouco frequente nessas crianças.

A pesquisa, que avaliou 65 pacientes nascidos entre janeiro de 2015 e abril de 2016, foi realizada durante o doutorado da Dra. Leda Lúcia Ferreira na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP), sob orientação do Dr. Bruno Bezerril, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professor do Centro Universitário UniFTC, da Universidade Salvador (Unifacs) e da EBMSP, e coorientação do Dr. Sonir Antonini, professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). O trabalho contou ainda com a participação de outros colaboradores da FMRP-USP, da Fiocruz, da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) Salvador.

Os 65 participantes foram acompanhados rotineiramente por uma equipe multidisciplinar no Hospital Geral Roberto Santos e no Hospital Professor Edgard Santos. Além das avaliações clínicas, o grupo entrevistou os responsáveis pelas crianças, realizou dosagem bioquímica de amostras de sangue e urina dos pacientes, bem como exames de tomografia do sistema nervoso central (SNC).

A média de idade ao recrutamento era de 27 meses; 61 participantes tinham graves defeitos cerebrais da linha média, incluindo agenesia ou hipoplasia do corpo caloso (38,5%), e atrofia do nervo óptico (58,5%); 36 participantes tinham microcefalia grave e 29, microcefalia leve à moderada. A maioria apresentou grave comprometimento da mobilidade e importante atraso no desenvolvimento neurológico. Quase todas as mães (83,1%) apresentaram sinais clínicos evidentes de infecção pelo vírus Zika durante a gestação.

Quanto à análise hormonal, o hipopituitarismo foi raro, ocorrendo em apenas três pacientes. Além disso, os pesquisadores não detectaram hipotireoidismo central ou primário. Segundo o Dr. Sonir, coordenador do Serviço de Endocrinologia e Metabologia Pediátrica e chefe do Departamento de Puericultura e Pediatria da FMRP-USP, a equipe esperava encontrar maior prevalência de hipopituitarismo, em função da relativa semelhança das lesões do SNC destes pacientes com pacientes com defeitos da linha média cerebral. Esses pacientes “têm uma ou múltiplas deficiências hormonais em até 50% dos casos”, destacou em entrevista ao Medscape.

A equipe identificou ainda que quatro pacientes (6,2%) tinham baixos níveis de cortisol (< 3,9 µg/dL) e seis (9,2%) tinham baixos níveis de hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) (< 7,2pg/mL). Esses achados “podem corresponder a insuficiência adrenal central, embora este diagnóstico precise ser confirmado com testes de estímulo farmacológico, o que não foi possível realizar”, disse o Dr. Sonir, lembrando que a insuficiência adrenal pode deflagrar quadros de hipoglicemia e choque circulatório em situações de estresse orgânico importante, como infecção grave.

Os pesquisadores também avaliaram 21 pacientes para diabetes insipidus, dentre os quais, um teve o diagnóstico confirmado. Em outros três casos, houve suspeita da doença.

Outro achado descrito no estudo foi o fato de a estatura dos recém-nascidos com microcefalia grave ter sido significativamente do que a dos demais participantes, no entanto, aos 27 meses, essa diferença havia desaparecido. Para o pesquisador, esse é um dado interessante. A hipótese da equipe é que a restrição de espaço intrauterino associada à infecção pode ter comprometido o desenvolvimento fetal, e, assim como a maioria das crianças submetidas a esse tipo de restrição, após o nascimento há uma recuperação parcial do crescimento.

Avaliar a função hormonal de pacientes com microcefalia causada pela síndrome congênita associada a infecção pelo vírus Zika é algo importante, visto que, em caso de alteração, o quadro pode ser tratado com reposição hormonal ao longo da vida. Para o Dr. Sonir, a função hormonal dessas crianças deveria ser anualmente avaliada durante a infância e a puberdade. “É possível que essas deficiências hormonais apareçam anos depois do nascimento. Além disso, talvez elas tenham risco aumentado de desenvolver puberdade precoce”, afirmou.

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