Revisão sistemática indica alta prevalência de sífilis entre homens que fazem sexo com homens

Lucy Hicks

Notificação

4 de agosto de 2021

Em todo o mundo, cerca de 8% dos homens que fazem sexo com homens (HSH) podem ter sífilis, sugere uma nova revisão sistemática com metanálise. Esta estimativa, proveniente de 275 estudos em 77 países, é 15 vezes maior do que as estimativas mais recentes de prevalência de sífilis entre os homens da população geral.

“Esta disparidade é absolutamente inaceitável”, disse em uma entrevista para o Medscape o Dr. Matthew Chico, Ph.D., professor associado da London School of Hygiene and Tropical Medicine, no Reino Unido, e autor sênior da revisão.

Embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) tenha como meta a redução da prevalência global da sífilis em 90% até 2030, um ambicioso objetivo estabelecido em 2016, pesquisas recentes sugerem que os números estão se movendo na direção oposta. Os casos nos Estados Unidos aumentaram 74% entre 2015 e 2019, e outros países, como Austrália, Coreia do Sul e Reino Unido, estão vendo tendências semelhantes.

A prevalência da sífilis costuma ser maior entre os homens que fazem sexo com homens, especialmente nos subgrupos que mantém múltiplos parceiros sexuais, disse o Dr. Kenneth Mayer em entrevista para o Medscape. O Dr. Kenneth é médico e diretor de pesquisa clínica do Fenway Institute, nos EUA, e não participou do estudo.

Os conhecimentos básicos de saúde, a falta de acesso ao atendimento médico e a falta de confiança nos médicos podem ser desafios para o rastreamento, a identificação e o tratamento da infecção nesta população.

Para reduzir os casos de sífilis será necessário concentrar as intervenções em grupos de maior risco, como homens que fazem sexo com homens, disse o Dr. Matthew; no entanto, havia “um verdadeiro vácuo no conhecimento sobre a prevalência mais provável da sífilis entre os homens que fazem sexo com homens em nível mundial”, disse o pesquisador.

Para ajudar a preencher as lacunas, Dr. Matthew e sua equipe de pesquisa procuraram estudos contendo dados de prevalência de sífilis nessa população publicados entre 1º de janeiro de 2000 e 1º de fevereiro de 2020. Os pesquisadores excluíram os estudos feitos apenas com homens que fazem sexo com homens com HIV, usuários de drogas injetáveis, pacientes que frequentam de rotina as clínicas de infecção sexualmente transmissível (IST) e pessoas que só buscaram atendimento para IST ou outros sintomas genitais, porque esses estudos teriam vieses, aumentando as estimativas da prevalência global de sífilis.

A revisão sistemática em pauta, publicada em 08 de julho no periódico Lancet Global Health, concluiu que a prevalência mundial agrupada de sífilis entre 2000 e 2020 entre os homens que fazem sexo com homens foi de 7,5% – indo de 1,9% na Austrália e na Nova Zelândia a 10,6% na América Latina e no Caribe. Em comparação, a OMS estima que, em todo o mundo, 0,5% dos homens da população geral têm sífilis, uma diferença de 15 vezes.

Esta alta estimativa não surpreende, e a revisão sistemática traz uma visão mais internacional da sífilis. As tentativas anteriores de estimar a prevalência da sífilis entre homens que fazem sexo com homens foram em geral feitas em países de renda mais alta, como os EUA, disse o Dr. Kenneth. “É importante que os médicos reconheçam que esta é uma questão de saúde mundial, para que possam fazer o rastreamento adequado.”

A revisão sistemática constatou que as regiões com prevalência do HIV > 5% tiveram maior prevalência de sífilis (8,7%) em comparação às regiões com prevalência do HIV < 5% (6,6%). As estimativas agrupadas da prevalência da sífilis também foram mais altas nos países de renda média baixa e média alta (8,7% e 8,6%, respectivamente).

A prevalência mundial de sífilis caiu de 8,9% em estudos de 2000 a 2009 para 6,6% em estudos de 2010 a 2020. Na Europa, América do Norte, América Latina, Caribe e Oceania (exceto Austrália e Nova Zelândia), as estimativas de prevalência da sífilis para 2015 a 2020 foram maiores em comparação a 2010 a 2014.

Os autores reconheceram que o estudo tem algumas limitações, particularmente o fato de regiões do Oriente e Sudeste Asiático terem contribuído com mais da metade (54,5%) dos dados mundiais utilizados na pesquisa, representando > 82% dos participantes do estudo. Isto evidencia a carência de dados de outras regiões do mundo, disse Dr. Matthew.

O pesquisador espera que esses achados “sirvam como um clamor à ação” para concentrar as intervenções nos grupos de maior risco de sífilis, como os homens que fazem sexo com homens, na tentativa de reduzir drasticamente os casos da doença em todo o mundo. Dr. Kenneth concordou: “a sífilis é uma infecção de fácil diagnóstico e tratamento”, disse. “É definitivamente algo que deveríamos ter a capacidade de lidar, mas isso exige atenção aos diferentes subgrupos que têm índices particularmente altos da infecção”.

Lancet Glob Health. Publicado on-line em 08 de julho de 2021. Texto completo

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