Estudo associa diagnóstico ou história de câncer a complicações obstétricas

Jaleesa Baulkman

Notificação

4 de agosto de 2021

Risco de complicações durante a internação hospitalar ou de piores desfechos ao parto é maior em gestantes com diagnóstico/história de câncer, sugere novo estudo.

O estudo, que foi publicado no periódico Mayo Clinic Proceedings , constatou que gestantes com diagnóstico atual ou história de câncer tiveram maior risco de morte, injúria renal e acidente vascular cerebral (AVC) durante a internação para o parto, em comparação com as gestantes sem diagnóstico ou história de câncer. Em relação aos desfechos obstétricos, o primeiro grupo também teve maior risco de parto prematuro. As pacientes com diagnóstico atual de câncer apresentaram chances de prematuridade 1,7 vezes maior do que as gestantes sem diagnóstico ou história de câncer.

“Nosso estudo descobriu que a ocorrência de metástase aumentou a probabilidade de mortalidade, cesariana, parto prematuro e óbito fetal”, apontaram os pesquisadores. “Fazendo uma correlação com pesquisas anteriores que demonstraram que gestantes têm mais chances de serem diagnosticadas com doença avançada, isso sugere que gestantes com neoplasia recém-diagnosticada apresentam mau prognóstico.”

Entretanto, apesar de as gestantes com história e câncer terem apresentado maior probabilidade de morte, os pesquisadores afirmaram que essa probabilidade não foi estatisticamente significativa.

O estudo de fato não demonstrou um aumento na mortalidade em gestantes com história de câncer, disse o Dr. Justin Chura, cirurgião, diretor de oncoginecologia e cirurgia robótica no Cancer Treatment Centers of America’s Eastern Regional Medical Center, nos Estados Unidos, que não participou do estudo. “E a razão para isso pode ser a ausência de aumento da mortalidade ou a raridade do evento raro. Seriam necessários 100 milhões de nascimentos para avaliar isso. Portanto, eu iria com bastante calma nessa interpretação.”

Os pesquisadores avaliaram mais de 43 milhões de hospitalizações para parto de mulheres com ou sem diagnóstico atual ou história de câncer entre janeiro de 2004 e dezembro de 2014. Eles descobriram que os diagnósticos mais frequentes foram de neoplasias hematológicas, tireoide, colo de útero, pele e mama.

Dos cinco tipos de câncer mais comuns, a prevalência de complicações maternas e desfechos adversos periparto foi maior entre as mulheres com neoplasia hematológica. Elas foram mais frequentemente diagnosticadas com miocardiopatia periparto, injúria renal aguda e arritmia, em comparação a outras neoplasias. Hemorragia puerperal, mortalidade materna e descolamento prematuro de placenta também ocorreram com mais frequência neste tipo de câncer.

“Eu fiquei surpreso com o fato de as neoplasias hematológicas terem apresentado os piores desfechos em comparação com os outros tipos de câncer analisados”, disse Dr. Justin. “Eu acho que tais informações são úteis para o aconselhamento das nossas pacientes, bem como para identificação do grupo de maior risco.”

Os achados do estudo também sugerem que as participantes com câncer de pele tiveram mais chance de AVC, e as com neoplasias de colo de útero e mama tiveram maior probabilidade de apresentar injúria renal aguda e parto prematuro.

Segundo Dr. Justin, tratamentos para o câncer podem ter impacto na saúde da gestante. Por exemplo, se uma mulher é diagnosticada com câncer de colo de útero, os médicos podem realizar uma conização, na qual grande parte do colo é removida, mas ainda mantém a sua função reprodutiva. Entretanto, essa mulher possui um risco aumentado de parto prematuro.

Para mulheres com neoplasias hematológicas, como linfoma não Hodgkin, radioterapia na região torácica pode causar algum dano ao miocárdio, “e o estresse da gestação aumenta a demanda sobre o coração, o que pode levar a complicações para a paciente”, disse Dr. Justin. Ele complementa: “Existem possíveis efeitos em longo prazo associados a radioterapia e a quimioterapia.”

Estudos anteriores demonstraram que a quimioterapia pode comprometer a gestação e o parto. Um estudo de 2019, publicado no periódico Journal of Cancer, também identificou que 59 gestantes com câncer tiveram aumento da mortalidade em comparação com as gestantes sem a doença. Outro estudo de 2018, publicado no periódico Cancer, descobriu que mulheres que conceberam em menos de um ano após o início da quimioterapia tiveram maior risco de parto prematuro em comparação com as que conceberam mais de um ano após início da quimioterapia.

Por outro lado, as mulheres que conceberam mais de um ano após o término da quimioterapia, com ou sem radiação, não tiveram risco de parto prematuro mais elevado.

Segundo Dr. Justin, o novo estudo pode obrigar os médicos considerarem os efeitos prolongados do tratamento oncológico e deixá-los mais preparados a pensarem em como fazer com que a terapia seja menos tóxica, com menos consequências em longo prazo, mas mantendo a eficácia.

“A maioria dos oncologistas, ao tratar pacientes jovens, ficam muito concentrados em curar o câncer, mas não necessariamente pensam nas consequências em 5 ou 10 anos”, disse o Dr. Justin. Esse estudo “pode ajudar a informar ou ao menos nos deixar cientes das consequências em longo prazo das nossas terapias neoplásicas.”

Dr. Justin Chura informou não ter conflitos de interesses.

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