Benefícios da atenção plena para crianças com TDAH e suas famílias

Emily Sohn

Notificação

2 de agosto de 2021

Meditação, ioga, exercícios de respiração e outras atividades de atenção plena podem ajudar crianças com transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade (TDAH). Mas não são apenas as crianças que se beneficiam.

Quando os familiares de crianças com TDAH completam um programa de atenção plena junto com elas, todos podem sair ganhando, sugere um novo estudo, com potencial reforço do autocontrole e da autocompaixão, e melhora dos sintomas psicológicos.

Os achados não sugerem que as crianças devam trocar os medicamentos pela concentração no momento presente, em vez disso, o estudo agrega ao número cada vez maior de evidências de que a atenção plena pode ser uma ferramenta útil, junto com outras estratégias para crianças e adultos com TDAH, disse o psicólogo Dr. John Mitchell, Ph.D., da Duke University que não participou do novo estudo. A atenção plena pode ajudar as famílias a aliviar o estresse e a melhorar a qualidade de vida.

"Falamos do TDAH, pois uma pessoa pode ter este diagnóstico, mas não vivemos em bolhas", disse o especialista. "Estamos todos interligados e temos um impacto mútuo. E é muito importante ter tratamentos que reconheçam isso e mensurem isso na literatura científica".

O treinamento de atenção plena, que tem as suas raízes nas tradições orientais, costuma ter como objetivo ensinar as pessoas a permanecerem no momento presente e a não julgarem. Ao longo das últimas duas décadas, os pesquisadores que trabalham com depressão e outras doenças reuniram evidências de que a prática da atenção plena pode ajudar de várias formas, como pela autorregulação da atenção e das emoções. Não demorou muito para que esses achados chamassem a atenção dos pesquisadores que estudam o TDAH, disse Dr. John.

A pesquisa sobre a atenção plena para esse transtorno começou com adultos, e os resultados foram animadores, disse Dr. John. As pessoas que fazem todo o programa de atenção plena tendem a apresentar alguma melhora na concentração, impulsividade e hiperatividade, segundo os estudos. Em um pequeno estudo piloto, Dr. John e colaboradores descreveram melhora dos sintomas e na função executiva de adultos com o transtorno.

Estudos com crianças ficaram para trás, mas os trabalhos recentes têm sido promissores. Ao analisar dados de vários estudos, pesquisadores encontraram pequenas reduções na falta de atenção, hiperatividade e impulsividade de jovens com TDAH. Vários ensaios clínicos randomizados e controlados também demonstraram redução dos sintomas, de acordo com a classificação dos pais e dos professores.

Maior compreensão, mais aceitação

Em uma pesquisa relacionada, houve uma nítida redução do estresse entre os pais que fizeram o treinamento de atenção plena que os ensinou a escutar atentamente, aceitar e ter compaixão por si mesmos e por seus filhos, e a se controlarem no seu relacionamento com seus filhos.

Ainda assim, o tratamento de primeira linha para as crianças com TDAH geralmente é feito por meio de uma combinação de medicamentos, terapia cognitivo-comportamental e orientações, embora essas estratégias nem sempre funcionem bem para todos, disse a Dra. Corina Greven, Ph.D., psicóloga de Radboudumc e no Karakter, Academisch Centrum voor Kinder-en Jeugdchiatris, na Holanda.

Apesar dos resultados sugestivos, os dados sobre a atenção plena permanecem turvos, em parte porque os estudos preliminares que avaliaram o treinamento da atenção plena em crianças com TDAH foram pequenos. Poucos ensaios clínicos feitos sobre o tratamento do TDAH a partir da atenção plena incluíram os pais, disse Dra. Corina.

Para preencher algumas lacunas, Dra. Corina e colaboradores fizeram um ensaio clínico com 103 famílias que tinham uma criança com TDAH entre 8 e 16 anos de idade. Metade das famílias foram designadas aleatoriamente simplesmente para continuar o atendimento habitual, que para a maioria também era feito com medicamentos.

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A outra metade continuou o tratamento habitual e participou de um programa chamado MYMind, que usou terapia cognitiva com atenção plena para as crianças e o treinamento da atenção plena para os pais no trato com os filhos.

As famílias participaram de sessões de grupo de 90 minutos uma vez por semana durante oito semanas, com uma sessão extra dois meses depois. O grupo da atenção plena também realizou tarefas de casa todo dia, com duração de cerca de 30 a 45 minutos para os pais e 15 minutos para as crianças. As tarefas de casa incluíram leituras e meditações guiadas.

Em curto prazo, a equipe informou que as crianças no grupo da atenção plena apresentaram discreta melhora dos sintomas de déficit de atenção e/ou hiperatividade, ansiedade, sintomas autistas e dificuldade de conciliar o sono. Os parâmetros de autocontrole de uma em cada três crianças no grupo da atenção plena melhoraram, acrescentou a Dra. Corina, em comparação com apenas uma em cada 10 crianças no grupo do tratamento habitual.

Os pais extraíram benefícios maiores e mais duradouros do treinamento de atenção plena. Em comparação com os pais que não fizeram treinamento, os que praticaram atenção plena apresentaram mais autocontrole, autocompaixão e bem-estar, menos sinais e sintomas de depressão, ansiedade e estresse, além de seus próprios sinais e sintomas de TDAH terem atenuado. Dado o grande componente genético do transtorno, é comum que os pais de crianças com TDAH também tenham o diagnóstico. Além disso, Dra. Corina disse que as famílias que foram até o final do programa de atenção plena referiram melhora em suas relações, bem como aceitação em relação ao TDAH.

Nova terapia?

Os achados sugerem novas possibilidades terapêuticas para crianças com TDAH e seus pais, disse a Dra. Corina, bem como a necessidade de estudar este transtorno de forma mais ampla. "Embora os pais das crianças com TDAH costumem ter altos níveis de estresse em relação à maternidade e à paternidade, ansiedade ou seus próprios sinais e sintomas de TDAH, as intervenções habituais para as crianças com TDAH não costumam mirar na saúde mental dos pais", disse. "Como pesquisadores, precisamos ir além da simples constatação de se uma intervenção reduz sintomas e agrega outros desfechos considerados importantes pelas famílias."

Será necessário fazer mais pesquisas para descobrir quem tem a maior probabilidade de se de beneficiar do treinamento em atenção plena e quanto tempo durarão esses benefícios, mas o novo estudo é um ponto de partida útil, disseram os especialistas.

"O treinamento em atenção plena teve efeitos potencialmente benéficos em curto e longo prazo para as crianças com TDAH e seus pais", disse o Dr. Samuel Wong, médico e diretor da Escola JC da Saúde Pública e de Atendimento Primário na Universidade Chinesa de Hong Kong. Dr. Samuel disse ser mais provável que a atenção plena se torne um complemento do que um substituto para outros tipos de terapias.

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"Os médicos devem considerar a combinação ou o acréscimo do treinamento familiar da atenção plena ao atendimento habitual de crianças com TDAH que ainda apresentam sintomas apesar do tratamento atual", disse Dr. Samuel.

O treinamento da atenção plena pode ajudar com várias questões além dos sinais e sintomas clássicos que acompanham o TDAH, disse Dr. John, ajudando a melhorar a vida familiar em geral, mesmo que algumas características do transtorno não se modifiquem muito.

"Particularmente com este estudo, vemos que há alguns efeitos bastante promissores de que pode haver algo benéfico para além dos 18 sintomas nucleares do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM, sigla do inglês Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders)", disse. "Este é um estudo importante, porque vai ser a base da pesquisa científica sobre este tema. É digno de entusiasmo!"

Fontes:

  • Journal of Attention Disorders: "Mindfulness for Children With ADHD and Mindful Parenting (MindChamp): A Qualitative Study on Feasibility and Effects," "A Comparison of Mindfulness-Based Group Training and Skills Group Training in Adults With ADHD: An Open Study," "A Pilot Trial of Mindfulness Meditation Training for Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Adulthood: Impact on Core Symptoms, Executive Functioning, and Emotion Dysregulation," "The Effect of Mindfulness Interventions for Parents on Parenting Stress and Youth Psychological Outcomes: A Systematic Review and Meta-Analysis."

  • John Mitchell, PhD, psychologist, Duke University, Durham, NC.

  • Frontiers in Psychology: "Mindfulness and Emotion Regulation: Insights from Neurobiological, Psychological, and Clinical Studies."

  • Corina Greven, PhD, psychologist, Radboud University Medical Centre and Karakter Child and Adolescent Psychiatry, the Netherlands.

  • The Journal of Child Psychology Psychiatry: "A randomised controlled trial (MindChamp) of a mindfulness-based intervention for children with ADHD and their parents."

  • Samuel Wong, MD, director, JC School of Public Health and Primary Care, Chinese University of Hong Kong.

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