Transplante fecal + suplementação de fibras parece melhorar a insulina na obesidade

Nancy A. Melville

Notificação

29 de julho de 2021

À medida que o uso do transplante microbiano fecal evolui, novas pesquisas mostram que uma abordagem não invasiva (administração oral) combinada com a suplementação de fibra melhora significativamente a sensibilidade à insulina de pacientes com obesidade grave e síndrome metabólica.

"Acreditamos que esta abordagem não invasiva substituirá o transplante microbiano fecal invasivo", disse ao Medscape a autora do estudo, Dra. Karen L. Madsen.

Os achados de Dra. Karen, Ph.D., do Center of Excellence for Gastrointestinal Inflammation and Immunity Research, da University of Alberta Faculty of Medicine and Dentistry, no Canadá, e colaboradores foram publicados no periódico Nature Medicine.

"O potencial de melhorar a saúde humana por meio do microbioma é imenso", disse a Dra. Karen em uma nota à imprensa de sua instituição. "Estamos apenas nadando no raso no momento."

O estudo se baseia em achados anteriores, disse o Dr. Amir Zarrinpar, Ph.D., médico da Divisão de Gastroenterologia da University of California, San Diego, nos Estados Unidos, que não participou do estudo.

"Acho que é animador o fato de o estudo reproduzir achados anteriores de um estudo menor, mostrando que a modulação do microbioma com transplante microbiano fecal levou a uma mudança de seis semanas na sensibilidade à insulina (...) e que esses resultados podem ser replicados com transplante microbiano fecal por comprimidos orais com suplementação de fibras, enquanto um estudo anterior que usou cápsulas orais diárias, não encontrou uma diferença significativa" nos resultados metabólicos em pacientes com obesidade, disse ele.

Cápsulas, suplementação de fibra, efeitos além do C. difficile

Foi demonstrado que os transplantes fecais, que contêm microrganismos de doadores de fezes saudáveis, fornecem benefícios substanciais no tratamento da infecção por Clostridium difficile via colonoscopia ou, menos comumente, um tubo nasoduodenal para o transplante.

Vem aumentando o interesse no potencial uso da estratégia para uma ampla gama de enfermidades possivelmente influenciadas pelo microbioma intestinal, e pesquisadores estão investigando alternativas não invasivas para entregar o material microbiano fecal.

Para avaliar esta abordagem em pacientes com obesidade/síndrome metabólica, e testar a teoria de que a suplementação de fibra pode melhorar ainda mais a resposta ao tratamento, a Dra. Karen e sua equipe recrutaram 61 pacientes com síndrome metabólica (índice de massa corporal ≥ 40 kg/m2).

Em um estudo duplo-cego, os pacientes foram aleatoriamente designados para dois grupos: (1) suplemento diário em pó com fibra altamente fermentável, como a encontrada no feijão; (2) suplemento similar com fibra de baixa fermentação, essencialmente celulose, como é encontrado em grãos inteiros.

O objetivo era ver se as diferentes fibras teriam efeitos diferentes.

Cada grupo de suplementação de fibra foi subdividido em outros dois subgrupos: um subgrupo recebeu um esquema de dose única de 20 cápsulas orais de material para transplante fecal de doadores saudáveis e o outro recebeu a mesma quantidade de cápsulas contendo placebo. As cápsulas não tinham sabor ou odor.

Todos os grupos foram compostos de 17 pacientes, com exceção do grupo fibra não fermentável/transplante fecal oral, que teve 19.

Para o desfecho primário de mudança na sensibilidade à insulina desde o início do estudo até a sexta semana, determinado pela avaliação do modelo homeostático (HOMA2-IR/IS), melhoras significativas foram observadas apenas entre os pacientes no grupo de transplante microbiano fecal + suplemento de fibra de baixa fermentação, com uma melhora média na pontuação HOMA2-IR de 3,77 no início do estudo para 3,16 em seis semanas (P = 0,02).

É importante ressaltar que as melhorias foram observadas após o ajuste para uma série de fatores, incluindo dieta e medicamentos.

Não houve diferenças entre os grupos com relação aos resultados secundários de glicose em jejum ou nível de hemoglobina glicada (A1c) em seis semanas. Um acompanhamento de 12 semanas mostrou que as melhorias na sensibilidade à insulina não foram mantidas quando a ingestão diária de fibras não foi continuada.

Digno de nota, para todos os pacientes houve reduções significativas na pressão arterial, com exceção daqueles no grupo do suplemento de alta fibra fermentável. Além disso, aqueles no grupo do suplemento de fibra de baixa fermentação haviam perdido peso na 12ª semana.

As intervenções foram seguras e bem toleradas, sem eventos adversos graves relacionados ao tratamento.

As fibras com baixa fermentação podem ampliar os efeitos do transplante microbiano fetal?

Como os pacientes foram retirados de uma lista de espera para cirurgia bariátrica, todos já estavam recebendo terapia clínica e orientação nutricional de uma equipe bariátrica.

"Os achados interessantes foram que fomos capazes de melhorar a saúde metabólica do sujeito, mesmo quando ele estava no padrão ouro da terapia disponível", disse a Dra. Karen.

Ela especulou que a suplementação de fibra pode ser a chave para os benefícios, agindo para combater a perda progressiva de material microbiano fecal do doador.

“Se você der um novo microrganismo e não o alimentar, e se continuar fazendo uma dieta com alimentos processados e sem fibras, então esse microrganismo provavelmente morrerá”, explicou ela.

"Embora este estudo não compare o transplante microbiano fecal + fibras fermentáveis com o transplante fecal isolado, é provocativo que as fibras de baixa fermentação possam ampliar os efeitos do transplante microbiano fecal", disse o Dr. Amir.

Em última análise, "precisamos de estudos maiores, com mais participantes e mais análises sobre o que está acontecendo com o microbioma intestinal, para compreendermos melhor como o transplante microbiano fecal pode afetar a fisiologia do hospedeiro", concluiu.

Os autores do estudo e o Dr. Amir informaram não ter conflitos de interesses.

Nat Med. Publicado on-line em 05 de julho de 2021.  Abstract

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