Modelo matemático calcula risco de mau prognóstico na tuberculose

Clarinha Glock

27 de julho de 2021

A tuberculose é causada pelo Mycobacterium tuberculosis, o agente infeccioso que mais mata no mundo, superado apenas pelo SARS-CoV-2, responsável pela covid-19. Em 2019, 1,5 milhão pessoas de pessoas morreram em decorrência da tuberculose. Com o objetivo de diminuir esse número, pesquisadores e médicos membros do consórcio Regional Prospective Observational Research for Tuberculosis (RePORT) – Brazil desenvolveram um modelo matemático que permite prever com aproximadamente 80% de acuidade quais casos têm mais probabilidade de falha terapêutica, recaída ou morte. A ferramenta já está disponível para profissionais de saúde. [1]

Os resultados do estudo no qual o modelo em questão foi desenvolvido foram descritos em um artigo publicado no periódico Clinical Infectious Diseases.[2]

O consórcio RePORT–Brazil é uma iniciativa firmada em 2013 entre os National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos e o Ministério da Saúde do Brasil. Um trabalho anterior realizado pelo consórcio comparou as características clínicas e demográficas iniciais dos desfechos associados ao tratamento da tuberculose em pessoas inscritas na coorte do RePORT–Brazil entre 2015 e 2019, com o registro de casos de tuberculose notificados ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde no mesmo período. [3]

No estudo atual, os pesquisadores analisaram dados de 944 pessoas com tuberculose pulmonar ativa que iniciaram tratamento nas seguintes instituições: Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, Clínica de Saúde Rinaldo Delmare, Secretaria de Saúde de Duque de Caxias (Rio de Janeiro), Instituto Brasileiro para Investigação da Tuberculose – Fundação José Silveira (Salvador) e Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (Manaus). Os locais foram escolhidos por sua estrutura e por apresentarem maior carga da doença, além da variedade étnica de sua população.

Dos 944 pacientes, 191 (20%) tiveram desfechos desfavoráveis. A pesquisa observou uma relação mais forte com variáveis como diabetes, infecção por HIV, hemoglobina, idade, nível educacional e uso de drogas em geral – mais especificamente de tabaco. "Ao criar uma ferramenta que ajuda os profissionais a identificarem o paciente que pode ter problemas capazes de dificultar o manejo, antes que aconteçam, é possível fazer um planejamento de assistência personalizado", explicou um dos autores do artigo, Dr. Bruno de Bezerril Andrade, médico pesquisador do Instituto Brasileiro para Investigação da Tuberculose (IBIT) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e coordenador do RePORT–Brazil.

"Identificando riscos individuais, o modelo pode ser muito útil em estudos futuros, em diferentes contextos epidemiológicos e níveis de atenção (primária, secundária e terciária)", acrescentou outro autor do estudo, Dr. Marcelo Cordeiro dos Santos, infectologista e gerente da micobacteriologia da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado.

No Amazonas, a distância entre os municípios e a dificuldade de acesso a algumas localidades, bem como de transporte das amostras, dos medicamentos e dos insumos, contribuem para que o estado tenha uma das maiores incidências de tuberculose do Brasil, disse o médico, explicando que, às vezes, apesar do maior risco de gravidade indicado pelo modelo matemático, o paciente tem um bom nível socioeconômico e acesso ao serviço de saúde, permitindo que siga as recomendações médicas, diferentemente do paciente que apresenta um risco intermediário, mas vive em uma condição de vulnerabilidade social enorme. "Talvez, neste caso, a estratégia para mitigar os riscos tenha de ser diferente".

O passo seguinte será definir um protocolo de intervenção sobre estas variáveis e buscar saber se, agindo sobre elas, é possível reverter ou minimizar a gravidade dos desfechos, disse o Dr. Bruno. Ele exemplifica: "Em caso de hemoglobina baixa, será que controlando a inflamação ou a anemia melhora o prognóstico? Se o meu paciente toma metformina e mantém o controle glicêmico adequado, seu risco é reduzido?"

 Os dados do estudo estão sendo cruzados com os das cerca de 900 mil pessoas cadastradas no Sinan, de forma a detectar diferenças de variáveis e adaptar o modelo em nível nacional.  Em médio prazo, o RePORT–Brazil, que integra o RePORT International, no qual Dr. Bruno e Dr. Marcelo são pesquisadores, vai verificar se a ferramenta pode ser expandida para aplicação no contexto epidemiológico de países como África do Sul, Índia, China, Filipinas e Indonésia.

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