Covid-19: Mais da metade dos pacientes na UTI têm injúria miocárdica

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

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21 de julho de 2021

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Mais da metade dos pacientes com covid-19 grave internados em unidades de terapia intensiva (UTI) apresenta injúria miocárdica. Isso é o que mostra o Abstract de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Hospital Unimed-Rio, que foi apresentado nas sessões científicas de 2021 do American College of Cardiology (ACC) e publicado no periódico do ACC. [1]

Segundo a Dra. Gláucia Maria Moraes de Oliveira, cardiologista, professora da UFRJ e uma das autoras da pesquisa, o grupo observou ainda que a elevação da troponina ultrassensível (biomarcador de injúria miocárdica) foi significativamente associada a mortalidade nessa população. A médica falou ao Medscape sobre os dados do trabalho.

Os autores analisaram 190 pacientes com infecção pelo SARS-CoV-2 confirmada por meio de teste por reação em cadeia da polimerase (PCR, sigla do inglês, Polymerase Chain Reaction). Todos tinham covid-19 grave e estavam em terapia intensiva entre março e julho de 2020.

O grupo identificou que 54,73% dos participantes apresentavam injúria miocárdica. A alta prevalência do quadro em pacientes com covid-19 grave já havia sido reportada pela Dra. Gláucia e sua equipe em um estudo anterior, publicado nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia. [2] “Quando não se procura, não se faz uma busca sistemática. Acabamos deixando de identificar a injúria miocárdica, mas o que vemos é que o quadro é muito comum nesse grupo de pacientes”, destacou a médica.

Os resultados mostraram ainda que pacientes com injúria miocárdica ficaram mais tempo hospitalizados (25,13 dias versus 15,90 dias) e houve maior mortalidade intra-hospitalar entre esses pacientes do que entre aqueles que não apresentaram o quadro (52,88% vs. 13,95%).

Segundo a Dra. Gláucia, análises conduzidas por meio de inteligência artificial, aprendizado de máquina (machine learning), árvores de regressão e de prognóstico identificaram que a troponina ultrassensível foi um marcador de mortalidade independente para uma cadeia de eventos. Isso significa, de acordo com a especialista, que à medida que a troponina ultrassensível aumenta, vários eventos adversos parecem ser desencadeados, entre eles, a morte. Essa associação se manteve mesmo após ajuste para fatores como injúria e insuficiência renal, necessidade de ventilação mecânica, entre outros.

A regressão multilinear revelou que idade, escore de SAPS3 (em português, escore fisiológico agudo simplificado), valor de proteína C reativa, hipertensão arterial sistêmica, taxa de filtração glomerular e síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) grave foram preditores de injúria miocárdica. “Parece que a troponina se associou a todos esses marcadores. É como se a injúria miocárdica mostrada pela troponina fosse um fator preditor de tudo isso que leva à morte – uma cadeia de eventos que vai levar o paciente a óbito pela covid-19”, destacou a médica.

Segundo a ela, o ponto de corte desse biomarcador foi de 37,7 ng/mL. “Esse valor é um divisor de águas para determinar quem vai viver e quem vai morrer pela covid-19. Uma das coisas interessantes que encontramos é que, somente o fato de o indivíduo ter troponina elevada já mostra que ele tem um risco maior de eventos adversos na covid-19, mas esse valor (37,7ng/mL) foi o que separou os pacientes que tinham, por exemplo, SAPS3 maior e maior proteína C reativa; foi melhor do que qualquer outro marcador para predizer a morte”, explicou.

Para a médica, a detecção precoce de níveis elevados de troponina ultrassensível pode contribuir para iniciar intervenções mais rapidamente. “Se observamos níveis elevados desse biomarcador, já sabemos, por exemplo, que o paciente tem um risco maior de ter insuficiência renal, bem como de perpetuar a infecção e de ter um escore maior de SAPS3. Às vezes, ele ainda não apresenta um escore de gravidade tão elevado, mas já passamos a ter um olhar diferenciado para esse paciente e a procurar possíveis complicações mais amiúde”, ponderou.

Ela acrescentou que o uso do biomarcador pode até contribuir para redução de despesas, uma vez que permite direcionar exames seriados de forma mais racional. “Se tenho injúria renal, por exemplo, vou cuidar dos fatores que levam à injúria renal, avaliar fluxo renal, como estou hidratando esse paciente, como estou perfundindo, monitorar a pressão arterial, ou seja, atentar para fatores que predizem um desfecho ruim e tentar evitar isso”, explicou.

Os dados completos da pesquisa em questão serão publicados em breve. Segundo a Dra. Gláucia, o artigo final já foi submetido e está em processo de avaliação.

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