Diabetes e distúrbios do sono podem ser uma combinação letal

Mitchel L. Zoler

Notificação

20 de julho de 2021

Uma simples pergunta sobre hábitos noturnos feita a pessoas com diabetes inscritas no banco de dados UK Biobank, do Reino Unido, identificou um subgrupo com quase o dobro de taxa de mortalidade durante quase nove anos de acompanhamento: aqueles que referiram distúrbios do sono regulares.

A pergunta era: você nunca, raramente, às vezes ou geralmente tem dificuldade de adormecer/acorda no meio da noite?

Adultos inscritos no UK Biobank que referiram qualquer tipo de diabetes/uso de insulina e distúrbios do sono frequentes, apresentaram uma taxa de mortalidade 87% maior do que os que disseram não ter diabetes nem distúrbios do sono (ou raros episódios), em um modelo totalmente ajustado, com acompanhamento médio de 8,9 anos, de acordo com o que a Dra. Kristen L. Knutson , Ph.D., e seus colaboradores relataram no periódico Journal of Sleep Research.

A mortalidade foi 11% maior entre os entrevistados que relataram distúrbios frequentes do sono, mas não tinham diabetes, do que entre aqueles sem distúrbios frequentes do sono. Além disso, pacientes com diabetes, mas sem distúrbios frequentes do sono, tiveram uma taxa de mortalidade 67% maior, em comparação com aqueles sem diabetes. Ambas as diferenças foram estatisticamente significativas em um modelo que ajustou para idade, sexo, etnia, tabagismo, duração do sono, índice de massa corporal e outras covariáveis.

Os achados sugerem que o diabetes e os frequentes distúrbios do sono se sobrepõem para aumentar o risco de mortalidade, disse a Dra. Kristen, epidemiologista e neurologista especializada em medicina do sono na Northwestern University, nos Estados Unidos.

A neurologista sugeriu que, com base nessas descobertas, os médicos considerem fazer essa importante pergunta sobre a frequência de distúrbios do sono todos os anos aos seus pacientes com diabetes. Os médicos devem então fazer o acompanhamento dos pacientes que referirem distúrbios frequentes, encaminhando-os para uma clínica do sono, onde realizarão exames de distúrbios do sono, como insônia ou apneia do sono. A apneia do sono, em especial, é "particularmente comum em pacientes com diabetes tipo 2 ", observou a Dra. Kristen em uma entrevista.

A necessidade de conscientizar sobre diabetes e alterações do sono

O estudo conduzido por Dra. Kristen e colaboradores "é um dos maiores estudos de base populacional" para examinar a relação entre distúrbios do sono, diabetes e mortalidade, comentou a Dra. Sirimon Reutrakul , endocrinologista e especialista em diabetes do University of Illinois Hospital, nos EUA.

"Este estudo destaca os efeitos prejudiciais dos distúrbios do sono em pessoas com ou sem diabetes e adiciona os efeitos dos distúrbios do sono, como sintomas de insônia. Pessoas com diabetes costumam ter distúrbios do sono. A apneia obstrutiva do sono é muito comum em pessoas com diabetes, e sintomas de insônia podem estar presentes em pessoas com apneia obstrutiva do sono ou podem ser um problema separado", explicou a Dra. Sirimon em uma entrevista. Os distúrbios do sono podem surgir de efeitos diretos do diabetes, como noctúria, preocupação com os níveis de glicose, dor, sintomas depressivos e ansiedade, ou podem resultar de comorbidades que interferem no sono.

"É prudente perguntar aos pacientes com diabetes sobre seus padrões de sono", disse a Dra. Sirimon, endossando a pergunta específica recomendada pela Dra. Kristen. Outros aspectos da qualidade do sono possivelmente úteis para o diagnóstico incluem a duração do sono, o momento em que a pessoa adormece e o ronco.

"Alguns médicos fazem essas perguntas, mas precisamos disseminar essa ideia", acrescentou ela.

Antes de encaminhar os pacientes para uma clínica do sono, a Dra. Sirimon sugeriu que os médicos também avaliem os possíveis gatilhos, como glicemia descompensada, dor e ansiedade, e recomendem boas estratégias de higiene do sono , como preconizado pela Sleep Foundation .

Distúrbios do sono são 'altamente prevalentes' entre adultos no Reino Unido

O UK Biobank inscreveu pouco mais de 500.000 pessoas entre 37 e 73 anos de idade de 2006 a 2010, dentre os quais, 487.728 tinham dados disponíveis que permitiram sua inclusão na análise. O grupo incluído tinha em média 57 anos de idade, 54% eram mulheres, 94% eram brancos e o índice de massa corporal médio era de 27 a 28 kg/m2.

Mais de um quarto dos participantes referiu distúrbios do sono "comuns", mostrando que esses distúrbios são "altamente prevalentes" entre residentes do Reino Unido, observaram os autores. Pouco menos de um quarto dos indivíduos relatou que nunca ou raramente teve distúrbios do sono, e a outra metade dos participantes disse que "às vezes" tinha distúrbios do sono.

Além disso, 69% referiram não ter diabetes nem distúrbios frequentes do sono, 26% informaram distúrbios frequentes do sono, mas disseram não ter diabetes, 3% relataram ter diabetes, mas não ter distúrbios frequentes do sono e 2% afirmaram ter diabetes e distúrbios do sono frequentes.

Durante o acompanhamento médio de 8,9 anos, houve 19.177 mortes por todas as causas (4%), das quais, 3.874 envolveram doenças cardiovasculares. Apesar da associação significativa entre diabetes e distúrbios frequentes do sono com uma taxa elevada de morte por todas as causas, a mesma combinação não mostrou nenhuma ligação significativa com a mortalidade cardiovascular no modelo totalmente ajustado do estudo. Isso pode ter ocorrido porque, "distúrbios frequentes do sono podem levar a uma variedade de causas de morte", sugeriu a Dra. Kristen.

As informações coletadas pelo UK Biobank não permitiram que os pesquisadores distinguissem entre os tipos 1 e 2 de diabetes.

Os resultados "sugerem que, independentemente da causa do distúrbio do sono , relatar distúrbios do sono frequente é um sinal importante de risco elevado de morte. Esses sintomas devem, portanto, ser investigados pelos médicos, particularmente em pacientes que também foram diagnosticados com diabetes", escreveram Dra. Kristen e coautores. "Este é o primeiro estudo a examinar o efeito da combinação de insônia e diabetes no risco de morte." Mas a Dra. Kristen destacou que "os problemas do sono são importantes para todos, não apenas para as pessoas com diabetes".

A Dra. Kristen, os coautores e a Dra. Sirimon informaram não ter conflitos de interesses.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.com – Medscape Professional Network.

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