Estimulante pode reduzir ‘tempo cognitivo lento’ em adultos com TDAH

Jennifer Lubell

Notificação

14 de julho de 2021

Um estimulante usado por pacientes com transtorno do déficit da atenção e/ou hiperatividade (TDAH) pode ser útil para tratar sintomas paralelos, segundo sugerem resultados de um ensaio clínico randomizado e cruzado.

No estudo, os pesquisadores informaram que a lisdexanfetamina (Vyvanse) reduziu em 30% os sintomas do tempo cognitivo lento referidos pelos pacientes, além de diminuir em mais de 40% os sintomas do TDAH.

O medicamento também corrigiu os déficits na função cerebral executiva. Os pacientes tiveram menos episódios de procrastinação, ficaram mais aptos a determinar prioridades e mostraram melhora em manter as coisas em mente.

"Esses achados destacam a importância da avaliação dos sintomas do tempo cognitivo lento e da função cerebral executiva dos pacientes ao diagnosticar o transtorno do déficit da atenção e/ou hiperatividade", disse o Dr. Lenard A. Adler, médico e primeiro autor do estudo, em um comunicado de imprensa.

Os resultados foram publicados em 29 de junho de 2021 no Journal of Clinical Psychiatry.

O ensaio clínico em tela é inovador, porque é o primeiro estudo feito com adultos sobre o tratamento do TDAH incluindo o tempo cognitivo lento, disse em uma entrevista o Dr. Lenard, diretor do programa de TDAH do adulto na New York University Langone Health, nos Estados Unidos. O Dr. Lenard disse que o psicólogo Dr. Russell A. Barkley, Ph.D., professor de psiquiatria na Virginia Commonwealth University, também nos EUA, define tempo cognitivo lento como tendo nove sintomas cardeais:

  • propensão a fantasiar;

  • tédio fácil;

  • dificuldade de permanecer acordado;

  • sensação de névoa mental;

  • dispersão;

  • letargia;

  • desempenho abaixo do ideal;

  • pouca energia; e

  • não processar as informações de forma rápida ou precisa.

O Dr. Russell, que estudou mais de 1.200 pacientes com tempo cognitivo lento, descobriu que quase metade também tinha TDAH, disse Dr. Lenard. Os que tinham sinais e sintomas paralelos também tiveram maior comprometimento.

Se o conjunto de sinais e sintomas do tempo cognitivo lento é ou não outro transtorno, ou se é uma constelação de sintomas que cursa com o TDAH, tem sido uma área de pesquisa, disse Dr. Lenard, que também é professor nos Departamentos de Psiquiatria e de Psiquiatria Infantojuvenil na New York University. Outros sintomas paralelos conhecidos são os déficits da função executiva e a dificuldade de controle emocional.

Até hoje, em termos de melhora do tempo cognitivo lento, os estimulantes só foram comprovadamente benéficos para as crianças. O objetivo deste estudo foi determinar a eficácia da lisdexanfetamina na natureza e na gravidade dos sinais e sintomas do TDAH e nos indicadores comportamentais do tempo cognitivo lento em adultos com as duas doenças.

Duas coortes, esquemas alternantes

Os pesquisadores recrutaram 38 adultos com TDAH e tempo cognitivo lento, de acordo com a definição da 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5, sigla do inglês Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th Edition). Os pacientes foram recrutados em dois centros universitários, a New York University e a Icahn School of Medicine at Mount Sinai. O ensaio clínico randomizado e cruzado feito em 10 semanas teve dois períodos de tratamento duplo-cego a cada quatro semanas, com um intervalo de duas semanas, o período cego de eliminação do medicamento com placebo.

"Na estratégia cruzada, os pacientes são seus próprios controles, porque recebem os dois tratamentos", disse Dr. Lenard. Recrutar menos participantes ajuda a alcançar significância estatística nos resultados.

Durante as primeiras quatro semanas, os participantes receberam doses diárias de lisdexanfetamina (30 a 70 mg/dia; média de 59,1 mg/dia) ou um comprimido de açúcar como placebo (média de 66,6 mg/dia). Os pesquisadores utilizaram testes padronizados para os sinais e sintomas do tempo cognitivo lento, do TDAH e de outras medidas de função cerebral para rastrear semanalmente a saúde psiquiátrica. Após um mês, os dois esquemas das coortes foram trocados — os que tomaram placebo iniciaram as doses diárias de lisdexanfetamina e os que tomaram o medicamento passaram a tomar placebo.

Os desfechos primários foram a ADHD Rating Scale e a Barkley Adult ADHD Rating Scale-IV, subescala do tempo cognitivo lento.

Em comparação ao placebo, adultos com TDAH e tempo cognitivo lento em paralelo apresentaram melhora significativa após tomar lisdexanfetamina nas classificações do tempo cognitivo lento e dos sinais e sintomas de TDAH. Este também foi o caso em relação a outros sinais e sintomas em paralelo, como os déficits de função executiva.

No desenho cruzado, os pacientes que começaram recebendo o medicamento não voltaram inteiramente ao estado ao início do estudo quando os pesquisadores os passaram para o grupo do placebo. "Então, não pudemos combinar as duas etapas do tratamento", disse o Dr. Lenard. Entretanto, o efeito do medicamento em comparação ao placebo foi comparável nos dois braços do estudo.

O tempo cognitivo lento não foi estudado isoladamente

O estudo teve algumas limitações, principalmente pelo fato de ter sido um estudo preliminar, com um tamanho de amostra modesto, disse o Dr. Lenard. Também não avaliou o tempo cognitivo lento isoladamente, "de modo que nós não podemos realmente dizer se o estimulante melhora o tempo cognitivo lento nos pacientes que não têm TDAH. O que chama atenção é quando você avalia a melhora do tempo cognitivo lento em função da melhora do TDAH, foi de apenas 25%". Isto significa que os efeitos que ocorreram nos sintomas do tempo cognitivos lento não foram causados unicamente pelos efeitos no TDAH.

"Não podemos dizer peremptoriamente que os pacientes sem tempo cognitivo lento responderiam ao estimulante. Este é um tema para um estudo futuro", disse o psiquiatra.

O Dr. Lenard gostaria de ver estudos sobre o tratamento de adultos com TDAH e tempo cognitivo lento em uma amostra maior, potencialmente com outros estimulantes. Além disso, os futuros ensaios clínicos poderiam examinar os efeitos dos estimulantes em adultos com tempo cognitivo lento sem TDAH.

Os resultados deste trabalho reforçam a importância da avaliação dos adultos com TDAH para sinais ou sintomas de comorbidades, como função executiva e controle emocional, continuou o especialista. "Sinais e sintomas do tempo cognitivo lento que trazem comprometimento podem perfeitamente se enquadrar neste contexto", disse o Dr. Lenard. "Sem identificá-los, não é possível os acompanhar em termos de tratamento."

Tempo cognitivo lento como "tempero" do TDAH

O resultado deste estudo demonstra que a lisdexanfetamina melhora significativamente tanto os sinais e sintomas do TDAH quanto os sinais e sintomas do tempo cognitivo lento, disse o Dr. David W. Goodman, médico e professor-assistente do Departamento de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Johns Hopkins University, nos EUA.

O Dr. David, que não participou do estudo, concordou que os médicos devem prestar atenção no tempo cognitivo lento ao avaliar adultos com TDAH, e conceitualizou o tempo cognitivo lento como um "tempero" do TDAH. "O tempo cognitivo lento não é muito conhecido pelos médicos fora da das pesquisas, mas provavelmente se tornará uma característica importante da apresentação do TDAH", disse o médico em uma entrevista.

"Novos estudos sobre o TDAH em adultos devem esclarecer melhor a prevalência do tempo cognitivo lento na população com este quadro, e abordar opções terapêuticas mais específicas e eficazes", disse o médico.

O Dr. James M. Swanson, Ph.D., que também não participou do estudo, concordou em uma entrevista que isso comprova o claro benefício imediato dos estimulantes nos sinais e sintomas do tempo cognitivo lento. Este estudo "pode ser muito oportuno, já que adultos que tiveram covid-19 muitas vezes têm sequelas residuais, que se manifestam como 'embotamento cerebral', que se assemelha ao tempo cognitivo lento", disse Dr. James, professor de pediatria da University of California, Irvine, nos EUA.

O estudo foi financiado pela Takeda Pharmaceutical, fabricante da lisdexanfetamina. O Dr. Lenard A. Adler recebeu subsídios e financiamentos de pesquisa e prestou consultoria para as empresas Shire/Takeda e para outras empresas. O Dr. David W. Goodman é um consultor científico da Takeda e de outros laboratórios farmacêuticos que pesquisam o TDAH. O Dr. James M. Swanson informou não ter conflitos de interesse.

Este conteúdo foi originalmente publicado no MDedge.com – parte da Medscape Professional Network.

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