'Dependência da internet' e problemas de sono

Pauline Anderson

Notificação

9 de julho de 2021

Mais evidências sugerem que a intensidade da compulsão pela internet está diretamente relacionada com a gravidade dos problemas de sono entre os jovens.

Os resultados de um estudo com mais de 4.000 estudantes adolescentes mostram que a intensidade da compulsão pela internet foi relacionada com menos horas de sono e com sonolência diurna. Além disso, os rapazes entre 12 e 14 anos de idade viciados em jogos on-line, em comparação às redes sociais, foram os mais atingidos.

Os problemas de sono podem ser "manifestações facilmente detectáveis da compulsão patológica pela internet", disse para o Medscape o médico pesquisador Dr. Sergey Tereshchenko, Ph.D., do Instituto Científico de Pesquisa de Problemas Médicos do Norte na Universidade Médica do estado de Krasnoyask, na Rússia.

Estes problemas de sono exigem atenção e correção, acrescentou Dr. Sergey.

Os achados foram apresentados no Virtual Congress of the European Academy of Neurology 2021.

Novo fenômeno

O uso compulsivo da internet é um fenômeno psicológico relativamente novo, sendo mais prevalente nos "grupos socialmente vulneráveis", como os adolescentes, disse Dr. Sergey.

O pesquisador citou vários estudos que "demonstraram com eloquência" que a dependência da internet costuma cursar com uma ampla gama de quadros psicopatológicos como depressão, ansiedade e transtorno do déficit da atenção e/ou hiperatividade.

Também há um número cada vez maior de evidências – inclusive de revisões sistemáticas em 2014 e em 2019 – de que a compulsão pela internet tem repercussão em uma ampla gama de parâmetros do sono.

Entretanto, a maioria de estudos feitos com adolescentes usou somente uma ferramenta psicométrica para avaliar a compulsão, revelando apenas o "padrão geral da compulsão pela internet" e não o tipo de compulsão na internet, observou Dr. Sergey.

Os adolescentes podem não ser viciados na internet em si, mas em certos comportamentos como jogos ou redes sociais, disse o médico.

A "vantagem indubitável" da pesquisa de sua equipe é o uso de mais de uma ferramenta, possibilitando "a verificação do conteúdo predominante da compulsão", acrescentou o médico.

Os pesquisadores já tinham identificado a prevalência geral da compulsão pela internet entre adolescentes na Sibéria e descobriram cerca de 6,8% dos participantes apresentavam comportamentos patológicos de dependência da internet – e que a dependência dos jogos é mais comum entre rapazes, enquanto a dependência das redes sociais é mais comum entre as moças.

Esta prevalência é menor que a observada em países como Filipinas (21,1%), Hong Kong (16,4%), Malásia (14,1%), China (11,0%) e Coreia do Sul (9,7%), mas ligeiramente maior que a do Japão (6,2%).

A prevalência de dependência da internet entre os adolescentes na Europa varia de 1% a 11%, com uma média de 4,4%, disse Sergey.

Sono dos estudantes siberianos

O estudo em tela foi feito com 4.344 estudantes com média de idade de 12 a 18 anos (cerca de 15 anos) de 10 escolas públicas em três grandes cidades na Sibéria Central (Krasnoyarsk, Abakan e Kyzyl). Na amostra estudada, havia um número ligeiramente maior de moças do que de rapazes.

Os participantes completaram a versão russa da escala Chen Internet Addiction Scale (CIAS), que cobre cinco critérios de sintomas de comportamento compulsivo: abstinência, tolerância, uso compulsivo, problemas psicológicos ou físicos e dificuldade de gerenciamento do tempo.

Neste questionário, os participantes classificaram várias declarações sobre o efeito do uso da internet, cada uma em uma escala Likert de 4 pontos: nem um pouco (1 ponto), um pouco (2 pontos), moderadamente (3 pontos) e extremamente (4). O total da pontuação variou de 26 a 104.

Uma pontuação de 26 a 42 na Chen Internet Addiction Scale indica uso bem adaptado da internet; de 43 a 64 indica o uso mal adaptado da internet e ≥ 65 indica uso patológico da internet, que foi classificado como "viciado em internet".

Os pesquisadores também utilizaram a escala Social Media Disorder Scale com nove itens, bem como o Pittsburgh Sleep Quality Index para avaliar o sono noturno.

Entre outras perguntas, os adolescentes foram indagados quanto tempo geralmente levam para adormecer e a que horas costumam se deitar e acordar nos dias que tinham escola.

Para avaliar a sonolência diurna, os pesquisadores utilizaram o questionário direcionado Pediatric Daytime Sleepiness Scale, tornando-se um dos poucos grupos de pesquisa a utilizar este instrumento psicométrico, observou o Dr. Sergey.

Após o consentimento dos pais ou responsáveis, os alunos fizeram os testes ao final das aulas do dia. O tempo total de teste foi de cerca de 45 minutos.

Perturbações do sono

Os resultados iniciais do estudo mostraram que, em comparação aos outros grupos, os adolescentes com uso patológico da internet tenderam a ir deitar mais tarde, acordar mais tarde, levar mais tempo para adormecer, dormir menos à noite, ter mais despertares noturnos e mais sonolência diurna.

A qualidade do sono foi mais prejudicada entre os rapazes com 12 a 14 anos de idade viciados em jogos on-line. "Neste grupo, cinco dos seis parâmetros de avaliação do sono estudados estavam alterados", informou Dr. Sergey. A diminuição do tempo total de sono noturno foi mais comum entre os adolescentes mais velhos.

Em média, os rapazes e moças de 15 a 18 anos de idade dormiam menos do que as oito horas de sono recomendadas por noite. Os rapazes viciados na internet dormiam apenas cerca de 6,4 horas por noite e moças viciadas na internet dormiam cerca de 6,6 horas.

Curiosamente, a dependência da internet costuma ser mais prevalente entre as moças adolescentes do que os rapazes na Rússia, que não é o caso na Europa e na América do Norte, observou Dr. Sergey.

Os mecanismos que associam o vício em internet aos distúrbios do sono não são claros, mas a relação provavelmente é multifatorial, e talvez interrelacionada, criando tipo um "ciclo vicioso", disse o pesquisador.

"Os distúrbios do sono que refletem problemas psicossociais, depressão e transtornos da ansiedade ou fóbicos, podem preceder e contribuir para o vício da internet. Por outro lado, os distúrbios do sono, como a insônia, podem levar ao aumento do uso da internet ao anoitecer e durante a noite, agravando ainda mais o problema", disse Dr. Sergey.

Faltam pesquisas sobre tratamentos úteis para os jovens com compulsão pela internet, mas estes jovens provavelmente se beneficiariam de estratégias da terapia comportamental, acrescentou o autor.

Sem saída?

Convidado pelo Medscape para comentar o estudo, o médico Dr. Maurice M. Ohayon, Ph.D., diretor do Stanford Sleep Epidemiology Research Center na Stanford University, nos Estados Unidos, disse que o tema da compulsão pela internet entre os jovens é "muito importante".

Pesquisas feitas nesta área mostraram um grande impacto da compulsão pela internet não somente no sono, mas também no humor – com irritabilidade, depressão e mesmo pensamentos suicidas, que são possíveis sinais de alerta, disse o Dr. Maurice, que não participou do estudo em pauta.

Curiosamente, sua própria pesquisa também observou que os rapazes no início da adolescência correm mais risco de ter compulsão por jogos on-line.

Embora o jogo on-line tenha alguns efeitos positivos, como a promoção de habilidades de liderança e relacionamentos, têm se tornado cada vez mais violentos e isolados, com mais jogadores profissionais adultos apresentando uma atitude predatória em relação aos jogadores mais novos, disse Dr. Maurice.

"O principal problema é que isso está colocando as crianças em um mundo virtual do qual é difícil escapar", acrescentou o comentarista.

O Dr. Maurice também ressaltou a preocupação sobre os efeitos futuros no desenvolvimento das crianças que jogam videogame por horas a fio, sem sair do quarto e sem nenhum contacto físico com outros jogadores.

Os pais devem intervir antes que esta situação ocorra e restringir o tempo que seus filhos passam jogando, disse o especialista.

Congress of the European Academy of Neurology (EAN) 2021: EPR302 session on sleep disorders. Apresentado em 21 de junho de 2021.

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