COMENTÁRIO

Realidade virtual e o futuro da cirurgia

Dra. Mariana Perroni

Notificação

7 de julho de 2021

Ao falarmos a respeito das tecnologias transformando a medicina, é impossível deixar de citar a realidade virtual. Trata-se do uso do poder computacional para a criação de uma realidade simulada. Com o auxílio de softwares, óculos especiais e joysticks, o usuário é colocado "dentro" de uma experiência virtual.

Diversas são as possibilidades de uso dessa tecnologia, que pode beneficiar tanto estudantes e profissionais da saúde quanto pacientes, por exemplo, reduzir a ansiedade dos pacientes antes de procedimentos médicos, tornar sessões de fisioterapia e reabilitação mais dinâmicas e ensinar anatomia aos estudantes são algumas das aplicações mais citadas. Entretanto, o uso desse recurso em uma área específica tem demonstrado enorme potencial de benefício: a cirurgia.

Há dois principais campos para isso: o planejamento cirúrgico e a educação/atualização médica.

Planejar procedimentos cirúrgicos com o auxílio da realidade virtual é um processo feito por meio de softwares capazes de combinar imagens de múltiplos exames (como tomografias, ressonâncias magnéticas e angiogramas) para criar um modelo tridimensional que possa ser visualizado e manipulado, de modo que o médico consiga definir as melhores vias de acesso e as técnicas a serem utilizadas no momento da cirurgia propriamente dita.

A Stanford University, por exemplo, já conta com um Laboratório de simulação Neurocirúrgica para isso. E os cirurgiões que fazem uso dessa tecnologia para planejar seus procedimentos referem maximização da acurácia e precisão das abordagens, redução do tempo de cirurgia e, consequentemente, aceleração da recuperação dos pacientes.

O potencial de uso da realidade virtual para a educação/atualização médica surgiu em meio à percepção de que a maneira como os cirurgiões são treinados e avaliados mudou pouco ao longo do tempo, e tem importantes gargalos. Até hoje, o número e a diversidade de procedimentos realizados por um cirurgião em formação estão diretamente relacionados às características do serviço onde ele fez sua residência e ao grau de autonomia que tinha nela. Tanto que um estudo da University of Michigan chegou a demonstrar que 30% dos cirurgiões não eram capazes de operar de maneira independente ao fim de seus programas de residência.

O tema ganhou ainda mais atenção após a publicação de um estudo da University of California, Los Angeles, no qual os participantes foram randomizados entre um grupo que recebeu treinamento tradicional e um grupo treinado na plataforma de realidade virtual. Após os programas de treinamento, cada participante realizou um procedimento de colocação de haste intramedular: o desempenho do grupo treinado com realidade virtual foi 230% melhor do que o do grupo que recebeu treinamento tradicional.

Outro exemplo é a Suíça, que, desde 2013, usa uma plataforma de realidade virtual  que simula procedimentos ortopédicos para avaliar os cirurgiões que prestam exame de título de especialista.

"Assista um, faça um, ensine um". A frase foi dita por William Halsted e, desde então, se tornou um mantra nos programas de residência de cirurgia e nos treinamentos de cirurgiões. Com o advento da realidade virtual, é possível que esteja chegando a hora de atualizá-lo para o século XXI.

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