Diagnóstico prescindível de TDAH em crianças e adolescentes

Dr. Sivan Mauer

Notificação

5 de julho de 2021

Neste artigo

Dr. Sivan Mauer

Nesta seção o psiquiatra Dr. Sivan Mauer seleciona e comenta estudos relevantes no campo da psiquiatria. O Dr. Mauer é especialista em transtornos do humor. Tem residência em psiquiatria da infância e adolescência e tem experiência em psicogeriatria. É mestre em pesquisa clínica pela Boston University School of Medicine e doutor em psiquiatria pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Além da prática privada exercida em São Paulo e Curitiba, o Dr. Mauer é clinical assistant professor na Tufts University School of Medicine, Boston (EUA).

1. Diagnóstico prescindível de TDAH em crianças e adolescentes: uma revisão sistemática

O debate sobre adequação do diagnóstico de transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) vem aumentando, assim como as taxas de diagnóstico da doença. Os desentendimentos continuam sobre qual parcela dessas taxas pode ser atribuída ao aumento da frequência, à melhora na detecção ou à inflação diagnóstica por erro diagnóstico e/ou diagnóstico prescindível (overdiagnosis, em inglês). O conceito de diagnóstico prescindível é bem estabelecido na oncologia, mas também ocorre em outras áreas.

O diagnóstico prescindível de TDAH pode ocorrer por conta da ampliação dos critérios diagnósticos, que passaram a incluir sintomas leves e inespecíficos, por vezes implicitamente patologizando comportamentos que antes não eram vistos como anormais. No entanto, os autores pontuaram que, para o aumento da detecção que resulta no diagnóstico prescindível, ao contrário do subdiagnóstico de TDAH, é necessário que existam evidências de que estes casos adicionais não derivem para uma rede que se beneficie destes diagnósticos. Os benefícios do tratamento são conhecidos, mas os prejuízos são subestimados.

Neste estudo, os autores revisaram de maneira sistemática a literatura para identificar, avaliar e sintetizar as evidências de diagnóstico prescindível de TDAH em crianças e adolescentes. Os pesquisadores também avaliaram a ausência de evidências. Eles realizaram as seguintes cinco perguntas para detectar o diagnóstico prescindível em doenças não oncológicas:

  1. Existe potencial para aumento na taxa de diagnósticos?

  2. A taxa de diagnósticos atualmente aumentou?

  3. Existem casos subclínicos ou de baixo risco?

  4. O comprometimento associado aos sinais e sintomas é maior do que as consequências do diagnóstico e tratamento?

  5. Existem outros casos sendo tratados?

Foram incluídos 334 estudos na análise. A maioria dos estudos teve um risco de viés baixo. Os autores concluíram que existem evidências da ocorrência de diagnóstico e tratamento prescindíveis de TDAH em crianças e adolescentes.

Para lembrar:

O diagnóstico de TDAH é controverso, pois tem como sintoma central a agitação motora, que também é o principal sintoma dos quadros de mania; ou seja, a grande maioria dos pacientes poderia estar apresentando um quadro de mania. Os que não apresentam agitação motora podem manifestar aumento da velocidade do pensamento e assim alterar a atenção. Sempre lembrando que não existe função atencional perfeita, uma superatenção ocorre em episódios psicóticos. Vale lembrar ainda o quanto as anfetaminas são tóxicas para o cérebro em formação.

Referência: Kazda, L. et al. Overdiagnosis of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents: A Systematic Scoping Review. JAMA Netw. Open 4, e215335–e215335 (2021).

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