‘Não pode mais beijo nem abraço’: o impacto da pandemia na saúde mental das crianças pequenas

Leah Gullet (KHN)

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1 de julho de 2021

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Lucretia Wilks, diretora de uma pequena creche no Missouri, Estados Unidos, está acostumada a ver crianças se abraçarem, darem as mãos e brincarem bem de pertinho. Mas a pandemia de covid-19 tornou esse comportamento normal entre crianças pequenas potencialmente perigoso.

"É estranho que estejam vivendo em um momento no qual é esperado que eles não se toquem ou se abracem", disse Lucretia, fundadora do Their Future's Bright Child Development Center, que cuida de cerca de 12 de crianças, que vão desde bebês até sete anos de idade. "Eles estão criando laços, fazendo amizade, e é assim que demonstram afeto."

Creches e outros prestadores de cuidados infantis disseram que estão aliviados em ver a queda de casos de covid-19 com o avanço da vacinação nos EUA; mas, mesmo com a reabertura do país, especialistas em saúde mental e desenvolvimento infantil se perguntam quais serão, se é que haverá alguma, as consequências em longo prazo para a saúde mental e o desenvolvimento a serem enfrentadas por essas crianças.

No curto prazo, médicos e especialistas em desenvolvimento infantil disseram que a pandemia prejudicou a saúde mental até de crianças pequenas e as privou de importantes partes do desenvolvimento social e emocional típico. Além de não conseguirem chegar tão perto de outras pessoas, como de costume, muitas crianças pequenas viram suas rotinas interrompidas ou sofreram estresse familiar quando os pais perderam o emprego ou adoeceram. A pandemia e suas consequências econômicas também forçaram muitas famílias a alterar a formatação do cuidado.

"O coronavírus está tendo um impacto psicológico em crianças e nas famílias de várias maneiras. O maior e mais evidente é na estrutura e na rotina das crianças", disse a Dra. Mini Tandon , psiquiatra e professora associada de psiquiatria da Washington University School of Medicine, nos EUA.

"Crianças pequenas prosperam com estrutura e rotina, então quando você interrompe isso, as coisas rapidamente desandam no dia a dia."

A Dra. Mini, que tem falado frequentemente com pais e cuidadores desde o início da pandemia, disse que ela e seus colegas têm visto casos mais graves de ansiedade e níveis mais altos de estresse em crianças pequenas do que antes.

Especialistas em comportamento infantil indicaram uma série de problemas agravados pela pandemia no seminário virtual do National Center on Early Childhood Health and Wellness em 2020, incluindo ansiedade de separação, problemas de sono e dificuldade para aprender novas informações. Algumas crianças também apresentaram regressão do desenvolvimento – como urinar na cama, mesmo depois de já terem aprendido a usar a privada ou o penico, por exemplo.

Para crianças pequenas, as mudanças na formatação do cuidado podem ser uma grande fonte de estresse. E a pressão financeira da pandemia forçou muitas famílias a repensarem a forma como cuidam de seus filhos mais novos.

O custo médio mensal de creches no Missouri, por exemplo, é de 584 dólares para crianças de quatro anos e 837 dólares para bebês, de acordo com a Procare Solutions, que trabalha com mais de 30.000 programas para crianças. Esse valor está alto demais para alguns pais que perderam seus empregos na pandemia. O programa de auxílio emergencial do presidente da República dos EUA, Joe Biden, sancionado em março, provê até 300 dólares por criança e, se aprovada, sua proposta mais recente ajudará a reduzir as despesas com creches e a aumentar o acesso à pré-escola .

Mas, nos muitos meses em que a creche ficou inacessível, alguns pais precisaram reorganizar seus horários de trabalho para cuidar de bebês ou crianças pequenas, enquanto ajudavam crianças em idade escolar com o aprendizado virtual. Outros contaram com a ajuda dos avós, embora essa opção fosse potencialmente perigosa antes do início da vacinação. Manter os filhos separados dos avós tem sido difícil tanto para as crianças como para os idosos.

Mesmo quando os pais podiam pagar uma creche, o medo de pegar ou disseminar a covid-19 influenciou a decisão de quando e se enviar as crianças para a creche. E algumas instituições fecharam temporariamente durante a pandemia.

Aimee Witzl, de 34 anos, moradora do Missouri, contadora e mãe há pouco tempo, disse que ela e o marido hesitaram em mandar a filha, Riley Witzl, para uma creche no início da pandemia. Riley nasceu prematuramente em novembro de 2019 e teve que passar nove semanas na unidade de terapia intensiva neonatal antes de voltar para casa. Assim, o casal esperou até agosto para mandá-la para a creche em meio período, depois até janeiro para mandá-la em tempo integral.

"Já éramos de alto risco", disse Aimee. "Então aconteceu a covid-19 e a mantivemos em casa por mais tempo do que o planejado."

Felizmente, ela disse, ninguém na família contraiu o vírus.

Em março de 2020, a Early Childhood Development Action Network , uma rede global de agências e instituições que promovem a saúde e a segurança infantil, divulgou um "pedido de atitude" compartilhado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), manifestando preocupação com o fato de a pandemia estar colocando "as crianças em alto risco de não atingirem todo o seu potencial", porque os primeiros anos são uma "janela crítica de rápido desenvolvimento do cérebro que estabelece a base para a saúde, o bem-estar e a produtividade ao longo da vida".

A Dra. Mini disse que está especialmente preocupada com crianças pequenas que podem ter sido confinadas em casas inseguras, onde foram maltratadas. Os maus-tratos têm maior probabilidade de passar despercebidos, disse ela, quando as crianças estão fora das creches e escolas, onde os adultos são obrigados a denunciar o abuso infantil e a negligência.

Mas a Dra. Mini disse que o estresse da pandemia pode afetar a saúde mental de qualquer criança, o que a motivou a escrever um livro infantil sobre uma menina lidando com a ansiedade durante a pandemia .

Agora, embora as vacinas ainda estejam a meses de serem administradas nas crianças mais novas, está ocorrendo uma mudança que pode causar uma nova rodada disruptiva para eles. Nancy Rotter , psicóloga infantil e professora assistente da Harvard University, disse que crianças pequenas podem estar sofrendo de ansiedade de separação enquanto fazem a transição completa de volta para suas escolas e creches depois de ficarem em casa com seus pais.

Para ajudar as crianças a superar este momento, os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) sugerem que as famílias garantam que as crianças permaneçam conectadas a parentes e amigos. A agência também aconselha que os pais façam o possível para reconhecer e lidar com o medo e o estresse em si mesmos e em seus filhos, e que busquem ajuda profissional se necessário. Os especialistas dos CDC sugerem que os pais conversem sobre suas emoções e ofereçam espaço para que as crianças expressem seus medos em um ambiente seguro.

No entanto, à medida que crianças e bebês voltam a uma nova normalidade, isso pode não ser tão estranho para eles quanto para os adultos. Embora a pandemia tenha apresentado fatores estressantes, disse Nancy, as crianças podem ser muito resilientes.

"Cuidadores e ambientes emocionais de apoio ajudam na resiliência da criança", disse ela. "Resiliência não é apenas o que está na criança, mas o que está presente no ambiente dela. É o lar, a comunidade religiosa e o ambiente escolar que ajudam no desenvolvimento da criança e em como ela lida com as mudanças."

E a pandemia pode deixar um benefício para as crianças: a ênfase em lavar as mãos. Especialistas em cuidados infantis disseram que os bons hábitos de higiene são uma lição de vida importante, que provavelmente perdurará para além desta crise sanitária.

KHN (Kaiser Health News) é a redação da KFF (Kaiser Family Foundation), que produz jornalismo em profundidade sobre questões de saúde. Junto com Análise de Política e Pesquisas, a KHN é um dos três principais programas da KFF. A KFF é uma organização sem fins lucrativos que fornece informações sobre saúde.

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