Dados de segurança dos implantes fitoterápicos hormonais ‘não são nada tranquilizadores’

Jake Remaly

Notificação

29 de junho de 2021

As mulheres que fazem tratamento com implantes hormonais fitoterápicos podem ter uma probabilidade significativamente maior de efeitos colaterais como instabilidade do humor, ansiedade, mamas doloridas, mudança do padrão capilar, acne e ganho ponderal, em comparação às mulheres que fazem tratamentos hormonais aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos, indica estudo.

Além disso, o sangramento uterino pode ser significativamente mais comum nas mulheres que colocam implantes fitoterápicos hormonais do que nas mulheres que fazem tratamento com as opções aprovadas pela FDA, de acordo com o estudo retrospectivo publicado on-line no periódico Menopause.

As mulheres que usam implantes fitoterápicos também tiveram maior probabilidade de fazer histerectomia na vigência do tratamento hormonal, e apresentaram níveis de estradiol e testosterona total acima dos níveis fisiológicos durante o tratamento, quando comparadas às mulheres fazendo o tratamento convencional, revela o estudo feito com 539 mulheres.

Os achados, apresentados na reunião anual da North American Menopause Society, foram destacados durante uma palestra na reunião virtual de 2021 do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG).

Os dados não são "nada tranquilizadores", disse o médico Dr. Robert P. Kauffman, professor de ginecologia e obstetrícia na Texas Tech University, nos EUA, que não participou do estudo.

O Dr. Robert comentou sobre a pesquisa na reunião do ACOG durante uma revisão das preocupações em torno do uso de tratamentos de reposição hormonal sem aprovação da FDA. Estas preocupações compreendem as variações nas fórmulas dos produtos, a ausência de dados de ensaios controlados e randomizados que subsidiem a sua utilização, e os dilemas éticos que possam existir se os médicos receberem incentivos financeiros para prescrever o tratamento hormonal bioequivalente composto em vez dos tratamentos aprovados pela FDA.

Nenhum estudo revisado por especialistas mostra que as fórmulas hormonais fitoterápicas em cremes ou implantes sejam mais seguras, mais eficazes ou tenham menor probabilidade de causar efeitos adversos em comparação aos produtos aprovados pela FDA, disse Dr. Robert.

Dados da Pensilvânia

No estudo retrospectivo, o médico Dr. Xuezhi (Daniel) Jiang, Ph.D., e seus colaboradores identificaram pacientes no climatério no Reading Hospital Electronic Medical Record System, das quais, 10.801 estavam fazendo tratamentos hormonais aprovados pela FDA e 1.061 estavam fazendo tratamentos hormonais com implantes fitoterápicos. A análise se concentrou nos dados dos prontuários de 384 mulheres em tratamento hormonal com implante fitoterápico e de 155 mulheres em tratamento hormonal aprovado pela FDA (convencional). O Dr. Daniel é afiliado ao Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Reading (Pa.) Hospital and Sidney Kimmel Medical College, nos EUA.

Os pesquisadores examinaram os dados de 2005 a 2017 das pacientes do grupo implante fitoterápico e de 1985 a 2017 das pacientes do grupo tratamento convencional.

As pacientes do grupo tratamento convencional receberam 24 marcas de produtos hormonais aprovados pela FDA; 4,5% receberam testosterona ou metiltestosterona, além de estrogênio. O tratamento das pacientes do grupo implante fitoterápico foi prescrito por médicos de duas clínicas particulares que utilizam essa estratégia terapêutica no sistema hospitalar. As pacientes do grupo do implante fitoterápico receberam compostos de estradiol e testosterona manipulados em farmácias no Tennessee (EUA). Quase todas as pacientes do grupo do implante fitoterápico receberam implantes de testosterona e estradiol.

A diminuição da libido foi registrada como a razão pela qual as mulheres iniciaram o tratamento para 83,5% do grupo implante fitoterápico comparadas a 4,5% do grupo tratamento convencional.

No total, 57,6% das pacientes em tratamento com implante fitoterápico tiveram efeitos colaterais, contra 14,8% recebendo tratamento aprovado pela FDA, observaram os pesquisadores. As pacientes em tratamento hormonal com implante fitoterápico referiram maior incidência de oscilações do humor (7,0% vs. 1,9%), ansiedade (18,5% vs. 5,8%), mamas doloridas (10,1% vs. 2,6%), alteração do padrão capilar (13,5% vs. 2,6%), acne (8,6% vs. 1,3%) e ganho ponderal (34,4% vs. 4,5%), em relação às pacientes recebendo opções terapêuticas aprovadas pela FDA.

Entre as pacientes com útero preservado ao iniciar o tratamento (246 das que receberam implantes fitoterápicos e 133 das que fizeram tratamentos aprovados pela FDA), houve episódios de sangramento em 55,3% das que tinham implantes fitoterápicos, em comparação a 15,2% das que receberam tratamentos aprovados pela FDA (razão de chances ajustada ou adjusted odds ratio, AOR = 7,9); 20,3% das pacientes com implantes fitoterápicos vs. 6,3% das que fizeram tratamentos aprovados pela FDA (AOR = 3.2) foram submetidas a histerectomia secundária por sangramento uterino.

Em muitos casos, os prontuários mostram que as pacientes optaram por fazer a histerectomia para poder continuar o tratamento com implante fitoterápico sem se preocupar com o sangramento uterino, disse o Dr. Daniel em uma entrevista.

O Dr. Robert atendeu pacientes fazendo tratamento com implante fitoterápico, em geral com o implante tendo sido feito por médicos de família, evoluindo para sangramento no climatério por causa dos altos níveis de estrogênio. "Nossa experiência também mostra que, se você tiver um implante fitoterápico, a probabilidade de histerectomia por problemas de sangramento é maior. Acredito que estas são as questões de segurança que precisam ser avaliadas em um escopo mais amplo", disse o médico em uma entrevista.

Embora a histerectomia possa interromper o sangramento, outros riscos de segurança podem permanecer com o tratamento fitoterápico por implante, observou a médica Dra. Sharon Winer, ginecologista e obstetra com subespecialidade em endocrinologia reprodutiva e infertilidade, que faz consultório em Beverly Hills nos EUA.

Os implantes, que têm aproximadamente o tamanho de um grão do arroz, são feitos tipicamente no quadril, no hipogástrio ou na região glútea, e os hormônios são liberados durante três a seis meses. Os implantes fitoterápicos não são recuperáveis. "A pergunta passa a ser, e se a paciente tiver diagnóstico de câncer de mama ou um diagnóstico que implique contraindicação ao uso de estrogênio? A paciente já tem o estrogênio no seu organismo", disse Dra. Sharon.

"A histerectomia pode resolver o problema do sangramento (...), mas não resolve o problema de segurança em geral", disse Dra. Sharon, que também é professora de ginecologia e obstetrícia, e codiretora da clínica de endocrinologia reprodutiva e infertilidade da University of Southern California, Los Angeles, nos EUA.

Altos níveis

A média de pico sérico do estradiol foi significativamente maior no grupo implantes fitoterápicos do que no grupo tratamento convencional (237,70 pg/mL vs. 93,45 pg/mL), bem como a média do pico sérico de testosterona (192,84 ng/dL vs. 15,59 ng/dL), informaram os pesquisadores. As pacientes fazendo tratamentos aprovados pela FDA tiveram menos probabilidade de dosar seus níveis hormonais. Como as concentrações dos níveis hormonais se correlacionam com os efeitos colaterais, não está claro, disse o Dr. Daniel.

O estudo foi limitado por ser monocêntrico, ter um desenho retrospectivo e por algumas características das pacientes diferirem entre os grupos terapêuticos, observaram os autores.

Ainda assim, "os médicos devem permanecer atentos em dar uma orientação completa para as pacientes sobre os efeitos colaterais identificados no estudo em tela", concluíram Dr. Daniel e coautores. Os médicos também precisam discutir os potenciais riscos de câncer de mama, câncer de endométrio e doenças cardiovasculares com as pacientes.

Muitos médicos do atendimento primário se baseiam em informações defasadas da Women's Health Initiative, publicadas em 2002 e em 2004, para formar seu entendimento acerca do tratamento de reposição hormonal no climatério e de seus riscos e benefícios, disse Dr. Daniel. E alguns pacientes consideram o tratamento hormonal feito por manipulação mais seguro e natural, "o que é totalmente ilusório".

Os implantes e outros medicamentos manipulados contendo testosterona podem fazer as pacientes se sentirem melhor e com mais energia, reconheceu Dr. Daniel. "Essa é uma razão pela qual as pacientes (...) tendem a perseverar, mesmo apresentando efeitos colaterais. O único problema é a segurança".

Outras questões permanecem. Os pesquisadores começaram recentemente a examinar os índices de câncer de mama e as anomalias nos laudos histopatológicos da mama e das mamografias. "É uma longa viagem", disse o médico.

Muitas opções aprovadas

Medicamentos manipulados não são aprovados pela FDA e não são recomendados pelas sociedades médicas de menopausa, disse o Dr. Daniel. Contudo, há muitos tratamentos hormonais aprovados disponíveis com dados de segurança, inclusive tratamentos com bioequivalentes.

Um relatório de consenso de estudos de 2020 da National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine examinou o uso de tratamento hormonal manipulado e traz orientações para os médicos, é um bom começo para abordar esta importante questão, acrescentou o médico.

Um comitê determinou que "não existem evidências suficientes para corroborar a utilidade clínica geral dos tratamentos de manipulação com bioequivalentes hormonais como tratamento do climatério e de sinais e sintomas de hipogonadismo masculino".

Se existir alguma opção aprovada pela FDA, "eu sempre vou preferir o produto aprovado pela FDA ao produto manipulado" disse Dra. Sharon. Um surto de meningite fúngica em 2012 associado a uma farmácia de manipulação evidenciou os riscos associados aos medicamentos manipulados de baixa qualidade.

"Acredito que pelo menos agora já se reconheça que a manipulação é uma questão que precisa ser abordada", disse Dra. Sharon. É algo "tão difundido e às vezes não se dá atenção (...) que me parece realmente difícil para a FDA controlar".

A Dra. Sharon viu pacientes fazendo tratamento manipulado tomando subdoses ou doses excessivas. "Eu também atendi pacientes que ficam muito bem com este tratamento, mas não me agrada manter este tratamento porque amanhã pode haver variações na potência ou qualidade, resultando em uma resposta clínica diferente", disse a médica.

Mesmo assim, as farmácias de manipulação são necessárias, disse Dra. Sharon. Se a paciente quer a progesterona natural, que é aprovada pela FDA, mas é feita com óleo de amendoim, haverá uma apresentação farmacêutica com óleo de canola, preferível caso a paciente tenha alergia ao amendoim, por exemplo. Outras pacientes precisam de doses tão baixas que não estão disponíveis como produtos aprovados pela FDA.

Em geral, muitos profissionais precisam ser mais bem informados sobre o tratamento hormonal, e as pacientes precisam entender que o uso de hormônios manipulados não equivale a tomar uma vitamina, disse Dra. Sharon. "Os medicamentos manipulados são medicamentos. E todo medicamento tem riscos e benefícios, independentemente de como são produzidos."

Os Drs. Daniel Jiang e Robert P. Kauffmann informaram não ter relações financeiras relevantes. A Dra. Sharon Winer já trabalhou com as empresas AbbVie (em endometriose), TherapeuticsMD (em um comprimido hormonal e um produto vaginal bioequivalente ao estrogênio) e Biogix (em um suplemento antioxidante para os sinais e sintomas do climatério).

Este conteúdo foi originalmente publicado noMDedge.com – Medscape Professional Network.

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