Pesquisadores propõem alteração no ponto de corte da força de preensão

Roxana Tabakman

Notificação

25 de junho de 2021

Após avaliar dados de quase 6.000 pacientes, pesquisadores brasileiros fazem um alerta: o ponto de corte da força de preensão manual que costuma ser utilizado como critério para iniciar o tratamento pode estar errado. Os novos parâmetros propostos em um artigo publicado no Archives of Gerontology and Geriatrics[1] permitiriam, segundo os autores, o diagnóstico precoce e a elaboração de intervenções que devem ser realizadas antes do agravamento clínico.

O monitoramento da força de preensão manual é um dos principais elementos na avaliação da fragilidade e da sarcopenia, e valores baixos estão fortemente associados a limitação da mobilidade. Em idosos, um valor baixo é indica aumento do risco de desfechos negativos como incapacidade funcional, queda, internação hospitalar, institucionalização e morte prematura.

"Temos há algum tempo notas de corte da força da mão para mensurar o declínio da mobilidade, mas sempre houve a hipótese de que esses valores seriam muito baixos. Então resolvemos fazer um estudo juntando milhares de dados da Inglaterra e do Brasil, e testamos qual seria o melhor ponto de corte para o declínio da mobilidade", explicou ao Medscape o Dr. Tiago da Silva Alexandre, Ph.D., pesquisador no Departamento de Gerontologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e coordenador do International Collaboration of Longitudinal Studies of Aging (InterCoLAging).

Dr. Tiago é fisioterapeuta com doutorado em Saúde Pública pelo Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado no Departamento de Saúde Pública e Epidemiologia da University College London (UCL), no Reino Unido.

Os 5.783 participantes avaliados tinham a partir de 60 anos de idade e estavam inscritos em dois estudos longitudinais: Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE), de residentes na cidade de São Paulo, e English Longitudinal Study of Ageing (ELSA) de residentes na Inglaterra. A pesquisa contou com pesquisadores da UFSCar, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (FMRP-USP), Escola de Enfermagem e Faculdade de Saúde Pública da USP e UCL.

Uma velocidade de caminhada < 0,8 m/s foi considerada limitação de mobilidade. Independentemente da idade, hábitos, comorbidades, medidas antropométricas e condições socioeconômicas, obter < 32 kg (homens) e < 21 kg (mulheres) aumentou as chances de limitação da mobilidade em 1,88 (intervalo de confiança, IC, de 95% de 1,50 a 2,37) para os homens e em 1,89 (IC 95% de 1,57% a 2.27) para as mulheres. Os valores demonstraram boa especificidade (79,8% em homens e 72,9% em mulheres) e sensibilidade (49,1% homens e 58,6% mulheres).

Com base nesta pesquisa, os autores sugerem revisar os pontos de corte utilizados atualmente, que são os propostos pelo European Working Group on Sarcopenia in Older People (EWGSOP), de 27 kg para homens e 16 kg para mulheres. [2]

"Os pontos de corte que encontramos permitem o diagnóstico precoce de declínio da mobilidade. A intervenção precoce é sempre melhor do que a tardia, porque a chance de recuperação é muito maior", afirmou o Dr. Tiago, que considera importante que os profissionais de saúde comecem a usar o ponto de corte mais alto na prática clínica.

O estudo, no entanto, não é um ensaio clínico, portanto, qualquer intervenção ainda deve ser testada. A pesquisa epidemiológica longitudinal da equipe está avançando em outra direção: estabelecer outros desfechos, entre eles, o risco de morte.

"Utilizamos como parâmetro de força para avaliar a sarcopenia os valores < 27 kg para homens e < 16 kg para mulheres, indicados pelo grupo europeu em 2018", disse ao Medscape o médico geriatra Dr. Marcelo Valente, professor do setor de geriatria da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC).

O Dr. Marcelo, que não participou da pesquisa, destacou que há várias publicações mostrando diferentes pontos de corte da força de preensão, e este trabalho correlacionou a perda de mobilidade a um ponto de corte cinco quilos acima do adotado atualmente.

"Será que deveríamos adotar um ponto de corte mais alto? Será que há diferença entre as diferentes regiões do Brasil? Será que o ponto de corte da força muscular nos países latino-americanos deve ser diferente do de países europeus ou asiáticos? Acredito que sejam necessários mais estudos para chegarmos a um consenso em relação à adoção de um novo ponto de corte. É importante lembrar que o primeiro consenso publicado pelo grupo europeu, em 2010, indicava pontos de corte mais elevados (< 30 kg para homens e < 20 kg para mulheres)."

De acordo com o Dr. Marcelo, a avaliação de algo simples como a força de preensão, permite que os médicos façam uma correlação precoce com a redução da mobilidade e, consequentemente, com a perda da capacidade funcional em idosos. Aquele que tem baixa força é um paciente elegível para intervenção, "ou seja, já tenho que colocar esse indivíduo num programa de exercício físico e numa avaliação nutricional para adequação da dieta".

No consultório

Para a pesquisa, a força de preensão manual foi medida por meio de um dinamômetro, que é um método simples e confiável, que pode ser facilmente incorporado à prática clínica. Durante os testes, a pessoa permanece sentada, com o cotovelo apoiado sobre uma mesa e mantém o antebraço e a palma das mãos virados para cima; e então é instruída a apertar o instrumento o mais forte possível.

Apesar de simples, o Dr. Marcelo refere que poucos serviços de atenção primária dispõem de um dinamômetro para avaliar a força muscular de idosos. O Dr. Tiago disse que o recurso é muito utilizado na área da gerontologia e geriatria, mas o ideal seria que outros médicos incorporassem esse exame na prática clínica, e explicou a importância de realizar essa avaliação: "Usar a força da mão como ferramenta de triagem de idosos é muito importante. É um alerta, porque essa perda pode ser resultado de algum problema que está diminuindo a força e problemas maiores podem estar por vir."

A sarcopenia é muito pouco avaliada na atenção primaria, apesar de ser um quadro grave, que pode ser tratado e revertido, afirmou o Dr. Marcelo. "Nós sabemos que está correlacionada a maior chance de problemas cognitivos, queda, hospitalização e desfechos negativos, mas é pouco avaliada por falta de conhecimento." De acordo com o Dr. Marcelo, falta melhorar o conhecimento dos médicos e depois que cada serviço que atenda idosos adquira o instrumento para fazer a medida de força e treine a equipe de saúde no método correto de medir.

Quando o instrumento não estiver disponível, é possível realizar o rastreamento da sarcopenia por meio de um questionário, a escala SARC-F que já foi validada para o português do Brasil. [3]

Os pilares do tratamento são prática de musculação e adequar a ingestão de proteínas. No entanto, outras causas ou doenças subjacentes devem ser investigadas. O tempo de recuperação varia: "Um indivíduo frágil vai ter uma recuperação mais lenta. Se a perda de força for causada pela descompensação do diabetes, ao controlar a doença e praticar exercícios, a recuperação é mais rápida", exemplificou o Dr. Tiago.

O Dr. Tiago ressaltou a necessidade de o paciente ser acompanhado por uma equipe multidisciplinar e afirmou que a avaliação da força de preensão deveria ser uma prioridade no cuidado da saúde do idoso. "Mas os efeitos dos exercícios se dão em longo prazo. Então, para construir uma reserva muscular, o ideal é que a pessoa sempre pratique exercícios de resistência, e nunca pare."

O Dr. Tiago da Silva Alexandre e o Dr. Marcelo Valente informaram não ter conflitos de interesses.

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