Brasil testará pelo menos mais três vacinas anticovídicas

Mônica Tarantino

Notificação

24 de junho de 2021

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Em pouco mais de dois meses, entre abril e junho, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a realização de pesquisas clínicas com quatro candidatas a vacinas anticovídicas.

Em 08 de abril, a agência reguladora aprovou o pedido das empresas canadense Medicago e britânica GlaxoSmithKline (GSK) para administrar sua inovadora fórmula à base de plantas contra o SARS-CoV-2 em brasileiros; em 19 de abril, saiu a liberação de estudos com o imunizante da empresa chinesa Sichuan Clover Biopharmaceuticals; em 13 de maio, foi a vez da Covaxin, da empresa indiana Bharat Biotech – apesar do aval da Anvisa, a aplicação da vacina no Brasil ainda é incerto, por conta de suspeitas de corrupção no processo de aquisição do imunizante pelo governo brasileiro.

Mais recentemente, em 09 de junho, a Anvisa avalizou a aplicação, pela primeira vez em humanos, da vacina ButanVac, desenvolvida pelo Instituto Butantan com tecnologias criadas pelas universidades norte-americanas Icahn School of Medicine at Mount Sinai e University of Texas. Antes dessa leva, a última vacina anticovídica a obter o consentimento da Anvisa para ser testada no Brasil havia sido a da Janssen (Johnson&Johnson), em agosto de 2020.  Além da vacina contra covid-19 produzida pela Janssen, em 2020, a agência já havia autorizado estudos com os imunizantes das farmacêuticas Pfizer/BioNTech (21 de julho), Sinovac/Instituto Butantan (03 de julho) e Oxford/AstraZeneca (02 de junho). Testes com a vacina russa Sputnik V não foram aprovados no país.
 

Não é segredo a razão pela qual o Brasil se tornou um local tão atraente para a realização de ensaios clínicos com vacinas anticovídicas: o descontrole da pandemia. "Infelizmente estamos mantendo um patamar elevado de novos casos e grande circulação de variantes", lamenta o Dr. Renato Kfouri, infectologista especializado em pediatria, membro da Sociedade Brasileira de Imunizações e presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Um dos ensaios mais esperados é o que avalia a ButanVac, cuja data de início da vacinação experimental ainda não foi divulgada. O motivo foi declarado no dia 10 de junho pelo gerente geral de medicamentos e produtos biológicos da Anvisa, Gustavo Mendes, em entrevista ao canal de notícias GloboNews: "Essa vacina vai ter seu desenvolvimento todo feito no Brasil e vai trazer mais autonomia, no sentido de que o Butantan produzirá o insumo farmacêutico ativo (IFA)".

Como outras vacinas anticovídicas, a ButanVac usa um vírus geneticamente modificado para levar a proteína Spike do novo coronavírus para dentro do organismo humano, estimulando a produção de anticorpos. Essa proteína é chave no processo de infecção das células humanas pelo SARS-CoV-2. A vacina da Oxford/AstraZeneca, por exemplo, usa um adenovírus que infecta chimpanzés para carregar o DNA da proteína Spike. A vacina produzida pela Janssen recorre a um adenovírus pouco comum, que infecta seres humanos. No caso da ButanVac, o vírus escolhido para carregar as informações da proteína S foi o paramyxovírus aviário sorotipo 1 (APMV-1, sigla do inglês Avian Paramyxovirus Type 1), que acomete aves e é inofensivo aos humanos.

Pesquisadores esperam que o fato de o APMV-1 ainda não ter sido usado em outras vacinas e, por isso, não ser reconhecido pelo organismo humano, seja uma vantagem para potencializar a resposta imunológica.

O estudo com a ButanVac prevê a realização das fases 1 e 2 simultaneamente, e será feito pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) e pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (HCFMRP-USP). Como cada fase foi subdividida em três etapas pelos pesquisadores, inicialmente o estudo contará com 400 voluntários. Na primeira etapa, serão avaliadas três doses com diferentes concentrações de ativos para saber qual produzirá a melhor resposta. Ao todo, cerca de seis mil brasileiros acima de 18 anos receberão as duas doses da ButanVac, com um intervalo de 28 dias entre as doses. De acordo com uma postagem nas redes sociais do governador de São Paulo, João Dória, o Instituto Butantan já fabricou sete milhões de doses da nova vacina, que estão estocadas.

No final de maio, foi iniciado o recrutamento de voluntários para os ensaios clínicos de fase 2 em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, com a vacina desenvolvida pela Sichuan Clover Biopharmaceuticals. Os candidatos devem preencher um formulário elaborado pela Unidade de Pesquisa Clínica do Hospital Universitário de Santa Maria. Em andamento em vários países, os estudos devem incluir 22 mil adultos (idosos incluídos). O plano é que mais da metade da população selecionada para o ensaio (cerca de 12,1 mil pessoas) seja de brasileiros residentes dos estados do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro.

A formulação da Sichuan se enquadra na categoria das vacinas feitas com subunidade proteica. De acordo com a farmacêutica, a plataforma foi criada para desenvolver "proteínas de fusão trimerizadas recombinantes", o que permitiu a criação de uma versão da proteína S baseada na cepa original do SARS-CoV-2 e posteriormente somada a adjuvantes e hidróxido de alumínio. Ainda segundo a empresa, em ensaio de fase 1 o novo imunizante "mostrou fortes respostas imunológicas com perfil de segurança favorável."

A expectativa da Sichuan é ter resultados preliminares até meados de 2021. "Se mostrar bons resultados, esta poderá ser uma das primeiras vacinas à base de proteína", disse o Dr. Renato. "Outra vacina em desenvolvimento que utiliza essa tecnologia é a da empresa Novavax, nos Estados Unidos", lembra o médico. A Sichuan também está preparando versões do seu antígeno contra as variantes alfa (Reino Unido), beta (África do Sul) e gama (Manaus). A mesma plataforma está sendo testada para vacinas contra raiva, influenza, HIV/AIDS, vírus sincicial respiratório (VSR) e medicamentos.

A empresa indiana Bharat Biotech, produtora da vacina Covaxin, também está recrutando voluntários para o ensaio clínico de fase 3 com o imunizante recém-autorizado pela Anvisa. Desenvolvida em colaboração com o Instituto Nacional de Virologia da Índia e o Conselho Indiano de Pesquisa Médica, essa vacina é feita com vírus inativados, tecnologia largamente empregada na produção de vacinas. A partir de uma amostra isolada, o SARS-CoV-2 é cultivado em células Vero e inativado, perdendo a habilidade de se replicar, como ocorre na produção da CoronaVac. Depois são misturados a adjuvantes.

Os estudos serão coordenados pelo Hospital Albert Einstein e envolverão, ao todo, 4,5 mil voluntários residentes dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Mato Grosso do Sul.

Aplicada em 402 brasileiros residentes da cidade do Rio de Janeiro até 09 de junho de 2021, a vacina da Medicago/GSK usa um método de produção bastante diferente. Feita à base de plantas da família do tabaco e sem a presença do SARS-CoV-2, esta pode ser considerada a primeira vacina anticovídica transgênica.

Em artigo publicado na revista Questão de Ciência , a microbiologista Natalia Pasternak descreveu o processo de produção do imunizante de modo objetivo: "A técnica em si não é novidade: clona-se a sequência genética de interesse em uma bactéria capaz de infectar células vegetais, e a planta começa a produzir a proteína que escolhemos, no caso, proteínas que são uma espécie de 'assinatura' do vírus Cov2. Essas proteínas poderão ser usadas em uma vacina: afinal, vacinas funcionam treinando o sistema imune para reagir a agentes causadores de doenças. Se a proteína já basta para que as células de imunidade identifiquem o vírus, não precisamos do vírus inteiro para fazer o treinamento."

Essa plataforma tecnológica é chamada de VLP (sigla do inglês Virus Like Protein). Na produção da vacina anticovídica, a bactéria usada foi a Agrobacterium sp, que recebeu genes da proteína S do SARS-CoV-2 para infectar a planta N. benthamiana. De acordo com a Medicago, essa planta é o hospedeiro experimental mais utilizado em virologia vegetal, principalmente por causa do grande número de vírus que podem infectá-la com sucesso.

"Quando a planta começa a produzir as novas proteínas, elas passam a ter uma formulação muito parecida com o vírus replicando junto com a proteína S. É uma forma de replicação proteica na planta", explica a alergista e imunologista Dra. Priscila Geller Wolff, líder do estudo do centro de ensaios clínicos IBPClin, no Rio de Janeiro, um dos nove locais que selecionarão voluntários para receber a nova vacina.

Ao todo, o centro do Rio de Janeiro incluirá 1.350 pacientes. A perspectiva é que o Brasil chegue a ter entre 3,5 e 5 mil participantes selecionados em cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília, entre outras.

"Como o estudo é competitivo, esse número pode variar dependendo da inclusão feita pelos centros de pesquisa clínica", explica a Dra. Priscila. No mundo, a perspectiva é aplicar a vacina em 30 mil pessoas. "Cerca de sete mil pessoas já receberam esta vacina em vários países até agora", disse a médica.

Ela ressalta que o desenho do estudo da Medicago tem algumas particularidades. Além de ser duplo-cego e randomizado como os outros, prevê um crossover. A partir de um determinado momento, que os pesquisadores chamam de período 2, os participantes que receberam as duas doses da vacina irão tomar mais duas doses de placebo e vice-versa. Os voluntários continuarão sem saber quando tomaram o placebo ou a vacina.

"O crossover deve ocorrer entre 60 e 90 dias do início do estudo. No final, todos terão sido efetivamente vacinados, o que é muito relevante quando se tem vacinação paralela no sistema de saúde", disse a Dra. Priscila, que participou dos estudos com a vacina da Janssen.

Outra característica dessa pesquisa é o fato de aceitar voluntários acima de 18 anos, saudáveis e com comorbidades, além de idosos (acima de 65 anos).

"Nosso alvo atual é atingir os indivíduos que por algum motivo ainda não tomaram as vacinas disponíveis no Programa Nacional de Imunizações, o que inclui comorbidades", explica a especialista.

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