Passar menos tempo sentado é vital para atenuar a migrânea

Tara Haelle

Notificação

23 de junho de 2021

Pessoas com migrânea tendem se exercitar menos do que quem não tem a doença, apesar dos efeitos benéficos da atividade física na redução da frequência das crises, segundo uma apresentação na reunião anual de 2021 da American Headache Society.

Embora existam poucas pesquisas confiáveis sobre a quantidade de atividade física necessária para quem tem migrânea, há o suficiente para revelar a necessidade de os médicos ajudarem os pacientes a identificar maneiras de praticar mais atividade física e de fazer disso um hábito, disse o Dr. Dale S. Bond, Ph.D., professor de psiquiatria e comportamento humano no Miriam Hospital e na Brown University, nos Estados Unidos.

O especialista reforçou a necessidade não só de substituir o sedentarismo pela atividade física, mas de reduzir globalmente o tempo de inatividade.

"É importante notar que, como a atividade e o sedentarismo representam diferentes domínios comportamentais, as pessoas podem ser ativas – ou seja, alcançar os níveis recomendados de atividade física moderada a vigorosa (MVPA) –, e ainda assim muito sedentárias por permanecerem sentadas muitas horas por dia", disse o Dr. Dale.

"Isso é importante, porque a atividade física moderada a vigorosa não irá necessariamente eliminar os riscos à saúde de longas horas na cadeira."

O Dr. Dale revisou a literatura existente sobre atividade física e comportamento sedentário entre pacientes com migrânea. Sua apresentação, "mais movimento, menos cadeira" visou encontrar maneiras de incorporar mais atividade física na vida cotidiana dos pacientes com migrânea. O Dr. Dale começou fazendo uma breve revisão dos reconhecidos benefícios associados à prática de atividade física, como um sono saudável; saúde cardiovascular, respiratória, musculoesquelética, mental e cognitiva; e funcionamento metabólico.

"A atividade física e o exercício em particular melhoram o funcionamento do organismo, inclusive os sistemas de relevância direta para a migrânea e suas comorbidades", disse o Dr. Dale. "Os efeitos sistêmicos positivos do exercício no organismo têm o potencial de reduzir a gravidade da migrânea e a incapacidade e a morbidade relacionadas."

O especialista também explicou como o excesso de inatividade pode deflagrar crises de migrânea. "Passar longos períodos ininterruptos sentado aumenta a glicemia e os lipídios na circulação, o que por sua vez, estimula o sistema imunitário a atacar o corpo por meio do processo inflamatório", disse Dr. Dale. "Há muito tempo se conjectura que baixos graus de inflamação crônica desempenham algum papel na patogenia da migrânea."

Níveis de exercício recomendados

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Department of Health & Human Services dos Estados Unidos recomendam pelo menos 150 a 300 minutos de atividade física aeróbica de intensidade moderada ou 75 a 150 minutos de atividade vigorosa por semana. Uma recomendação adicional é ao menos dois dias por a semana de exercícios de força, que mobilizem todos os principais grupos musculares.

Embora nenhuma dessas organizações tenha diretrizes específicas sobre a redução necessária do tempo de inatividade, a Canadian Society for Exercise Physiology recomenda limitar o tempo de inatividade a oito horas ou menos por dia.

Exercício e migrânea

"Infelizmente, atualmente temos poucos estudos dos quais podemos tirar conclusões sobre em que medida as pessoas com migrânea fazem atividades físicas e seguem as diretrizes contra o sedentarismo", disse o Dr. Dale. Os estudos existentes variam muito em termos de tipos de amostra, desenho, verificação e desfecho da atividade física moderada a vigorosa, inclusive sobre o tipo ou a definição da atividade física moderada a vigorosa. "Essa ampla variação das medidas e dos desfechos dificulta tirar conclusões sobre a adoção das diretrizes pelos pacientes com migrânea", disse o pesquisador.

Evidências sugerem que em algum lugar entre 32% e 66% dos pacientes com migrânea são pelo menos moderadamente ativos, embora não esteja claro o que significa um comportamento "moderadamente ativo". Aparentemente, os níveis de atividade dos pacientes com migrânea são em geral baixos, mas é menos clara a extensão em que estes níveis são mais baixos do que os dos controles, dada a escassez de evidências.

Em um dos poucos estudos utilizando medidas objetivas para avaliar a atividade física em pacientes com migrânea, o nível diário de atividade física moderada a vigorosa foi significativamente menor entre 25 mulheres com migrânea do que entre 25 mulheres sem migrânea pareadas por índice de massa corporal (IMC) e idade (P < 0, 003). Ambos os grupos tinham obesidade. O mesmo estudo constatou que praticamente nenhuma mulher com migrânea seguiu as diretrizes que recomendam menos de oito horas por dia de tempo inativo, em comparação a 30% das mulheres sem migrânea.

"Além disso, a pouca atividade física e os altos níveis de sedentarismo parecem ser homogêneos entre os dias com ou sem cefaleia", disse Dr. Dale. "Esta constatação, em particular, levanta uma questão interessante: se a gravidade da migrânea não está relacionada com a atividade física e com o tempo de inatividade, o que na migrânea contribui para um estilo de vida inativo e sedentário?"

O Dr. Dale indicou que novas pesquisas precisam conter registros de frequência, duração e intensidade das atividades realizadas, bem como o percentual de participantes que seguem as diretrizes de atividade física e diminuição do tempo de inatividade. Idealmente, estes estudos devem conter não somente as informações dos pacientes, como também medidas objetivas de atividade, além da avaliação do sono e da identificação de barreiras e facilitadores da prática de atividades físicas pelos pacientes.

Evitando exercícios

O Dr. Dale descreveu os achados da pesquisa com 100 mulheres realizada por ele, para compreender melhor as potenciais barreiras, e relatou que 78% das pacientes referem evitar atividades físicas intencionalmente. Essas pacientes tipicamente evitaram em média quatro dias por semana, independentemente da intensidade do exercício, e achados adicionais encontraram "que as participantes que informaram qualquer evasiva tinham crenças mais fortes de que a atividade física desencadearia e agravaria uma crise de migrânea, em comparação às participantes que não referiram nenhum tipo de evasiva", disse o especialista.

Esse achado corresponde à experiência clínica da médica Dra. Jennifer Robblee, professora assistente de neurologia do Barrow Neurological Institute in Phoenix, que assistiu à apresentação, mas não participou.

"Muitas vezes os pacientes acham que a prática de exercícios é um gatilho para agravar uma crise ou pode, para alguns, deflagrar uma crise, e se sentem pior caso a crise ocorra durante a atividade", disse Dra. Jennifer ao falar em uma entrevista sobre os seus pacientes que se exercitam com menos frequência. "Como muitos pacientes que atendo têm cefaleia diária e constantemente, o problema é como podem começar a se exercitar se isso piora o quadro, mesmo que os faça sentir melhor em longo prazo".

No entanto, pesquisas experimentais sugerem que a atividade física não é necessariamente um gatilho confiável de crises de migrânea e só piora a migrânea em uma minoria de crises, disse Dr. Dale, revelando um paradoxo interessante: "Embora a atividade física regular seja uma importante estratégia de controle da migrânea, a maioria dos participantes do estudo relatou fazer exatamente o oposto – isto é, evitar a atividade física como estratégia de controle –, e essa estratégia foi associada a maior frequência e duração das crises. A pesquisa de nosso grupo, e de outros também, sugere que pacientes com migrânea podem superestimar o papel da atividade física na deflagração ou no agravamento das crises".

Incentivar a prática de exercícios

Como os benefícios da atividade física e da limitação do tempo de inatividade superam os potenciais prejuízos, "alguma atividade física é melhor do que nenhuma", disse Dr. Dale. Para ajudar os pacientes a começarem a praticar mais atividades físicas, o pesquisador recomendou que sejam orientados a começar com pequenas quantidades e, a seguir, aumentar gradualmente a frequência, a intensidade e a duração ao longo do tempo.

A Dr. Jennifer adota uma estratégia semelhante, levando em conta as circunstâncias particulares de cada paciente e todos os medicamentos que tomam, inclusive os efeitos colaterais destes medicamentos.

"Trata-se de começar de onde estão", disse Dra. Jennifer. "Alguns pacientes, apesar de terem migrânea grave, se prepararam e estão fazendo exercícios três ou quatro vezes por semana, ou todos os dias, e eu tenho outros pacientes que nunca se exercitam", disse a médica. "Para os pacientes muito sedentários, se eu puder iniciar com cinco minutos por semana, para que sintam que conseguiram fazer algo, então é assim que começo. A seguir, aumentar lentamente ao longo do tempo. Como a maioria das coisas no mundo da migrânea, individualizo a abordagem para cada paciente".

O Dr. Dale ofereceu as seguintes dicas específicas para os médicos, para que eles orientem e incentivem os pacientes a praticarem mais atividades físicas:

  • Oriente os pacientes sobre os benefícios em curto e longo prazo de se movimentar mais e permanecer menos tempo sentado, tanto para as crises de migrânea quanto para a saúde em geral.

  • Corrija os equívocos sobre os efeitos negativos da atividade física na migrânea. Personalize a lógica da atividade física com os valores e objetivos individuais específicos do paciente.

  • Incentive os pacientes a utilizar um monitor de atividade, tanto para rastrear a atividade física como o tempo de inatividade, e para monitorar as crises de migrânea, o estresse e os níveis de energia e fadiga nos dias que se exercitam ou não.

  • Ajude os pacientes a definir metas para um dia conseguirem seguir as recomendações de atividade física moderada a vigorosa e interromper os períodos prolongados que permanecem sentados com breves intervalos de movimento.

  • Ajude os pacientes a identificar recompensas por atingir objetivos associados com a atividade, como novas roupas para praticar exercícios.

  • Encoraje os pacientes a dedicar o mesmo tempo para a atividade física todos os dias, com o objetivo de criar um hábito. "Idealmente pela manhã, antes que as barreiras e a vida se interponham", disse o médico.

Por fim, a própria atividade física deve tornar-se intrinsecamente gratificante, disse Dr. Dale.

"Para limitar o tempo sentado e incentivar a realização de mais movimentos ao longo do dia, queremos facilitar a escolha de fazer atividades físicas, acrescentando pistas ambientais que incentivem a sua prática", disse o pesquisador. "Por outro lado, queremos dificultar a escolha da adoção de um comportamento sedentário, aumentando a quantidade de esforço necessário para a prática desses comportamentos."

A Dr. Jennifer considerou a ênfase do Dr. Dale em permanecer menos tempo sentado – diferentemente de se movimentar mais – um parâmetro útil a considerar para os seus pacientes.

"Gosto muito da estratégia de olhar para a questão deste ponto de vista: além de como conseguimos levantar os pacientes e fazê-los se movimentarem, quanto tempo permanecem sentados e com que frequência isso pode ser interrompido para lapsos de tempo cada vez menores, de modo que fiquem de pé com mais frequência?" disse Dra. Jennifer. "Isso algumas vezes parece menos assustador do que 'vamos fazer você praticar exercícios'." Então, "vamos começar a fazer você ficar um pouco menos sentado". Acho que é algo que eu posso começar a usar".

Não foi registado nenhum financiamento externo para o estudo. A Dr. Jennifer Robblee é a pesquisadora responsável de um estudo patrocinado pela empresa Eli Lilly e recebe remuneração das empresas Neurology MedLink e Neurodiem. O Dr. Dale S. Bond informou não ter conflitos de interesse.

Este conteúdo foi originalmente publicado no MDedge.com – Medscape Professional Network.

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