Exame de sangue para vários tipos de câncer – excesso de falso-positivos?

Roxanne Nelson e Zosia Chustecka

Notificação

22 de junho de 2021

Novos dados sobre o exame de sangue Galleri (Grail) mostram que o teste detectou sinais de câncer para uma vasta gama de tipos da doença, e que mais de metade dos tipos detectados estava na fase inicial, quando o câncer costuma ser mais tratável.

Os novos resultados são provenientes do ensaio clínico PATHFINDER e foram comunicados na reunião anual de 2021 da American Society of Clinical Oncology (ASCO).

No entanto, um especialista que não participou do ensaio clínico, ressaltou que "houve mais falso-positivos do que verdadeiros positivos, o que pode ser problemático se oficialmente liberado para toda a população".

No mês passado, a empresa Grail anunciou que o exame estava prestes a fazer a sua estreia clínica nos Estados Unidos, e hoje o Providence Health System já oferece o exame mediante prescrição médica.

Novos resultados

O ensaio clínico PATHFINDER recrutou 6.662 participantes com mais de 50 anos com diferentes fatores de risco, mas sem suspeita de câncer ativo. Destes, 6.629 puderam ser avaliados.

Na ASCO 2021, foi apresentada uma análise interina dos resultados pelo Dr. Tomasz M. Beer, médico e vice-diretor do Knight Cancer Institute, Oregon Health and Sciences University, nos EUA.

Foram detectados sinais de câncer em 92 participantes (1,4%); dentre os quais, 65 tiveram o diagnóstico firmado até março de 2021, informou o médico.

Entre estes 65 participantes, 29 receberam resultados verdadeiramente positivos, com um diagnóstico de câncer confirmado, e 36 tiveram resultados falso-positivos.

"Trinta e seis participantes foram classificados como falso-positivos, segundo a investigação diagnóstica inicial, e a situação final desses pacientes será definida após o término dos 12 meses de acompanhamento", disse o Dr. Tomasz.

"Dos 63 pacientes com diagnóstico inicial feito pelo exame de detecção precoce para vários tipos de câncer, 90% tinham pelo menos um exame de imagem", disse o pesquisador.

A mediana do número de exames de imagem foi de 1,26, e 88% dos pacientes fizeram procedimentos minimamente invasivos, observou.

Foram esses resultados que preocuparam o comentarista do estudo, Dr. Max Diehn, Ph.D., médico e professor-associado de radiologia oncológica na Stanford University, nos EUA.

O Dr. Max destacou o fato de ter havido mais falso-positivos do que verdadeiros positivos e pontuou que "foi realizado um número expressivo de procedimentos invasivos em pacientes com resultados falso-positivos, que poderiam ter prejudicado estes pacientes que não têm câncer".

Além disso, o médico destacou que a maioria dos verdadeiros positivos foram de neoplasias linfoides, não de tumores sólidos, e não se sabe se a detecção precoce da neoplasia linfoide tem alguma utilidade clínica. "A maioria dos casos era de neoplasia linfoide e, como geralmente pensamos nestes quadros como doenças sistêmicas ao diagnóstico, não está claro se o fato de descobrir esses tumores mais cedo trará algum benefício de sobrevida", disse Dr. Max.

Taxa de detecção

Na apresentação, o Dr. Tomasz afirmou que, nesta análise interina, a taxa global de detecção de câncer foi de 1,4% e o valor preditivo positivo (VPP) global da detecção de câncer foi de 44,6%.

Entre os participantes com algum fator de risco adicional de câncer (como história de tabagismo, predisposição genética ou história de câncer há mais de três anos), o valor preditivo positivo aumentou para 57,1%, mas para os participantes sem estes fatores de risco, o valor preditivo positivo caiu para 30,0%. No entanto, o Dr. Tomasz destacou que o estudo não foi projetado para fazer uma comparação estatística entre estas duas coortes.

"A acurácia do sinal de câncer de nossa previsão original entre verdadeiros positivos foi elevada, de 85% para o primeiro indício original de câncer e de 96,3% para o primeiro ou o segundo indício", disse o pesquisador.

"Foram diagnosticados 13 tipos diferentes de câncer entre 28 participantes e, destes, 82% eram casos novos e 18% representaram recidivas do câncer", disse o médico.

Mais de metade dos novos tipos de câncer detectados estava na fase inicial, quando o câncer costuma ser mais facilmente tratável. Entre os participantes que receberam o diagnóstico de novo câncer, verificou-se que 57% tinham câncer em fase I a III e 39% tinham câncer em fase I a II.

O Dr. Tomasz concluiu ressaltando que os participantes continuarão a ser acompanhados. "Identificaremos a incidência do diagnóstico de câncer entre todos os participantes 12 meses após a coleta inicial de sangue, momento no qual a especificidade e o valor preditivo negativo do exame de detecção precoce de vários tipos de câncer serão avaliados", afirmou o pesquisador.

"Os resultados interinos do PATHFINDER demonstraram que um exame de sangue de rotina pode detectar vários tipos de câncer diferentes, antes mesmo de os sinais e sintomas se manifestarem, estratégia com importantes vantagens potenciais", comentou Dr. Tomasz em um comunicado de imprensa da Grail.

"O mais importante é o exame poder detectar os tipos de câncer que atualmente não têm métodos para seu rastreamento, razão pela qual mais de dois terços das neoplasias não são rastreadas. Estes resultados são uma etapa crucial para ampliar a detecção precoce de vários outros tipos de câncer", acrescentou o médico.

Pontos fortes e limitações

Na discussão sobre o artigo, Dr. Max indicou que o estudo tinha pontos fortes e limitações, e que deixou algumas perguntas sem resposta.

"Os pontos fortes deste estudo são o fato de ter sido grande e prospectivo, e ter mostrado que a realização em tempo real de um exame de detecção precoce de vários tipos de câncer é viável", disse o comentarista. "O tempo foi relativamente curto até fechar o diagnóstico e um subconjunto significativo de tumores sólidos detectados estava nos estágios I e II."

As limitações foram o fato de o acompanhamento ainda estar incompleto e a sensibilidade e especificidade não terem sido avaliadas.

Várias questões importantes permanecem, disse Dr. Max. "Os casos sem resolução diagnóstica – que representaram quase um terço dos casos – poderiam ter sido enriquecidos por falso-positivos e, caso afirmativo, isso diminuiria o valor preditivo positivo? Aguardamos os resultados finais para avaliar", observou o comentarista.

Todavia, não se sabe se haverá muitos tipos de câncer diagnosticados entre os pacientes cujos resultados do exame foram negativos, disse Dr. Max.

"Isto é importante para avaliar a sensibilidade do exame, particularmente importante para os tumores sólidos em fase inicial."

O estudo foi financiado pela empresa Grail. O Dr. Tomasz M. Beer divulgou os seguintes dados: ações e outros investimentos – Arvinas, Salarius; consultoria ou assessoria – Arvinas, Astellas, AstraZeneca, Bayer, Bristol-Myers, Squibb, Clovis, Constellation, GRAIL, Janssen, Myovant, Novartis, Pfizer, Sanofi, Tolero; financiamento de pesquisa (inst) – Alliance Foundation Trials, Astellas, Bayer, Boehringer Ingelheim, Corcept, Endocyte, Freenome, GRAAL, Harpoon, Janssen, Medianation, Sotio, Theraclone e Zenith Epigenetics. O Dr. Max Diehn informou o seguinte: ações e outros investimentos – CiberMed, ForeSight Diagnostics; consultoria ou assessoria – AstraZeneca, BioNTech, Genentech, Gritstone Oncology, Illumina, Novartis, Reflexion, Roche; patentes, royalties, outros direitos de propriedade intelectual – registros de patentes de detecção de ctDNA atribuídos à Stanford University (inst); registros de patentes sobre mecanismos de resistência ao tratamento tumoral atribuídos à Stanford University (inst); despesas de viagens e hospedagem – AstraZeneca, Roche e Varian Medical Systems.

American Society of Clinical Oncology (ASCO) 2021 .

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