O que está por trás da névoa mental no hipotireoidismo controlado

Nancy A. Melville

Notificação

21 de junho de 2021

A névoa mental descrita por alguns pacientes com hipotireoidismo em tratamento costuma ser associada a fadiga e sintomas cognitivos, e pode ser atenuada por diversas alternativas terapêuticas – farmacológicas ou não, sugere nova pesquisa.

Os achados são provenientes de uma pesquisa com mais de 700 pacientes com hipotireoidismo causado por cirurgia da tireoide e/ou terapia com iodo radioativo (TIR) ou Hashimoto, que referiram névoa mental.

Os pesquisadores Dr. Matthew D. Ettleson e Ava Raine, da University of Chicago, nos EUA, apresentaram os resultados do estudo em 29 de maio no encontro anual de 2021 da American Association of Clinical Endocrinology (AACE), que foi realizado on-line.

Muitos pacientes com hipotireoidismo continuam a apresentar sintomas, apesar de fazerem a terapia de reposição do hormônio tireoidiano e de apresentarem resultados normais nos exames de função tireoidiana.

Esses sintomas podem incluir alterações cognitivas, de qualidade de vida e metabólicas quantificáveis. No entanto, "alguns pacientes também apresentam sintomas vagos e difíceis de quantificar, que eles descrevem como névoa mental", disse Ava.

Esse fenômeno foi descrito com características um tanto variadas em diversas doenças crônicas diferentes como síndrome de taquicardia ortostática postural , encefalomielite miálgica/síndrome de fadiga crônica , fibromialgia , síndrome pós-menopausa e, recentemente, entre pessoas com covid-19 e sintomas prolongados .

No entanto, a névoa mental associada ao hipotireoidismo tratado não foi explorada em profundidade, apesar de os pacientes referirem o sintoma com frequência, observou Ava.

Resultados do estudo podem ajudar os médicos a cuidarem de pacientes com névoa mental

A fadiga foi o sintoma de névoa mental mais proeminente na pesquisa, seguido por esquecimento e dificuldade concentração. Por outro lado, o repouso e o relaxamento foram os fatores mais associados ao alívio dos sintomas, seguidos do ajuste do hormônio tireoidiano.

"Tomara que esses achados ajudem os médicos a reconhecer e tratar os sintomas da névoa mental, e que esclareçam um quadro até então pouco compreendido", disse o Dr. Matthew.

Convidado a comentar, o moderador da sessão Dr. Jad G. Sfeir, médico da Mayo Clinic, nos EUA, disse ao Medscape: "De fato vemos pacientes com muitas queixas sobre essa névoa mental. A questão é como podemos ajudar e o que funcionou para eles no passado?".

Quando você tem sintomas vagos, como névoa mental, não há muitas ferramentas objetivas para verificá-los, então não dá para fazer um estudo que analise o impacto de um determinado medicamento nos sintomas. Ao confiar de informações subjetivas de pacientes dizendo o que funcionou para eles e o que não funcionou, você pode obter muitas implicações para a prática clínica".

Os resultados da pesquisa, o Dr. Jad disse, "ajudarão os médicos a saber que tipo de perguntas fazer aos pacientes com base nas respostas da pesquisa, e como dar algumas orientações que podem ajudar".

Fadiga, problemas de memória e dificuldade concentração caracterizam a névoa mental

A pesquisa on-line foi feita com grupos de apoio ao hipotireoidismo e por meio da American Thyroid Association. Dos 5.282 respondentes com hipotireoidismo e sintomas de névoa mental, 46% (2.453) relataram episódios de névoa mental antes do diagnóstico de hipotireoidismo.

A população analisada para o estudo foi composta de 731 participantes (17% do total de respondentes) que referiram névoa mental de semanas a meses após o diagnóstico de hipotireoidismo. Dos pacientes incluídos no estudo, 33% tinham tireoidite de Hashimoto, 21% tinham história de cirurgia de tireoide, 11% de terapia com iodo radioativo e 15,6% de cirurgia de tireoide + terapia com iodo radioativo.

Os sintomas de névoa mental foram relatados como ocorrendo "frequentemente" por 44,5% e "o tempo todo" por 37,0%. A pontuação composta de sintomas foi de 22,9 em 30,0.

Fadiga, ou falta de energia, foi o sintoma mais referido, tendo sido relatado por mais de 90% dos grupos de cirurgia de tireoide/terapia com iodo radioativo e de Hashimoto, e como ocorrendo "o tempo todo" por cerca da metade em cada grupo. Outros sintomas referidos por pelo menos metade de ambos os grupos incluíram problemas de memória, dificuldade concentração, problemas de sono, dificuldade de tomar decisões, confusão, distúrbios do humor e ansiedade.

"Cada domínio foi relatado com alguma frequência por pelo menos 85% dos respondentes, independentemente da etiologia do hipotireoidismo, então foi realmente uma alta carga de sintomas observados, mesmo naqueles cujos sintomas eram menos frequentes", observou Ava.

As pontuações de sintomas geralmente se correlacionam com as pontuações de satisfação do paciente, particularmente com as que se referem a sinais cognitivos e dificuldade concentração.

Dissipando a névoa: o que os pacientes dizem que ajuda?

A pesquisa perguntou aos pacientes quais fatores melhoram ou pioram seus sintomas de névoa mental. De longe, a resposta mais frequente foi repouso/relaxamento, endossada por 58,5%. Outros 10,5% referiram exercícios/atividades ao ar livre, mas 1,5% disseram que a prática de exercícios piora os sintomas.

Ajustes não especificados de medicamentos para a tireoide foram indicados como fator atenuante dos sintomas em 13,9%. Os hormônios tireoidianos específicos apontados como fator atenuante foram a liotironina em 8,8%, o extrato dessecado da tireoide em 3,1% e a levotiroxina em 2,7%. No entanto, 4,2% disseram que a tiroxina piorou os sintomas.

Dietas saudáveis/nutritivas melhoram os sintomas em 6,3%, enquanto o consumo de glúten , dieta rica em açúcar e consumo de álcool pioram os sintomas em 1,3%, 3,2% e 1,3%, respectivamente. Foi dito que a cafeína ajudava em 3,1% e prejudicava em 0,6% dos casos.

Um pequeno número de pacientes referiu melhora nos sintomas com vitaminas B12 e D, Adderall ou outros estimulantes , antidepressivos, naltrexona , exposição ao sol e controle glicêmico.

Outros fatores relatados como agravantes dos sintomas foram menstruação, infecção ou outra doença aguda, dor e "barulho alto".

O Dr. Matthew apontou: "Para muitos desses pacientes a névoa mental pode não ter nada a ver com a tireoide. Vimos uma grande parcela de pacientes referindo sintomas bem antes de serem diagnosticados com hipotireoidismo, mas muitos associaram os sintomas à tireoide."

No entanto, ele disse: "Acho que é imperativo que o médico ao menos participe dessas conversas e não apenas pare quando os testes de função da tireoide estiverem normais. Temos muitas sugestões de estilo de vida provenientes deste estudo que me parece que os médicos podem dar para os pacientes que estão lidando com isso... no início do processo, além do ajuste do hormônio da tireoide, que pode ajudar alguns pacientes".

Os Drs. Matthew e Jad, e Ava informaram não ter conflitos de interesses.

Encontro anual de 2021 da AACE. Abstract 1000765. Apresentado em 29 de maio de 2021.

Miriam E. Tucker é jornalista freelancer, mora na região de Washington, DC, nos EUA e é colaboradora regular do Medscape. Outros trabalhos seus foram publicados em Washington Post, NPR's Shots e Diabetes Forecast. Acompanhe seu trabalho no Twitter: @MiriamETucker.

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