O impacto da pandemia na saúde mental: três estudos

Dr. Sivan Mauer

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8 de junho de 2021

Neste artigo

Dr. Sivan Mauer

Nesta seção o psiquiatra Dr. Sivan Mauer seleciona e comenta estudos relevantes no campo da psiquiatria. O Dr. Mauer é especialista em transtornos do humor. Tem residência em psiquiatria da infância e adolescência e tem experiência em psicogeriatria. É mestre em pesquisa clínica pela Boston University School of Medicine e doutor em psiquiatria pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Além da prática privada exercida em São Paulo e Curitiba, o Dr. Mauer é clinical assistant professor na Tufts University School of Medicine, Boston (EUA).

1. Respostas de saúde mental à pandemia de covid-19

Logo após o início da pandemia da covid-19 diversos países começaram a observar um declínio na saúde mental de suas populações, tendo sido relatados sintomas como ansiedade, depressão, estresse e sofrimento psíquico. Desde maio de 2020 alguns estudos demonstraram melhora destes sintomas, no entanto, esses estudos apresentam alguns problemas metodológicos relacionados às amostras, aos ajustes para covariantes e às avaliações da saúde mental.

A maioria desses estudos usou amostras não probabilísticas, o que significa que não se pode ajustar para viés de amostragem. Muitos estudos apresentam um viés de atrito considerável, sendo que pacientes com algum comprometimento mental são mais suscetíveis a abandonar os estudos, resultando em uma tendência de avaliação mais otimista da saúde mental da população estudada.

Muitos estudos também não têm dados comparativos obtidos antes pandemia, o que seria importante para entender se houve um aumento agudo no sofrimento psíquico da população do estudo, bem como um retorno aos níveis anteriores.

Os fatores de risco de deterioração da saúde mental na fase inicial da pandemia mais relatados foram: ser do sexo feminino, ter menos de 40 anos, ter história de doença crônica mental ou física, estar desempregado e muito contato com mídias sociais ou notícias sobre a covid-19. A maioria destes fatores de risco já eram associados a uma saúde mental pior antes da pandemia.

No início da pandemia, jovens, mulheres e pais/mães de crianças pequenas (em fase pré-escolar) apresentaram uma deterioração da saúde mental quando comparados a estudos pré-pandemia.

O UK Household Longetudinal Study usou uma amostra longitudinal e probabilística grande representativa da população adulta do Reino Unido. O principal objetivo dos pesquisadores foi descrever a tendência populacional de saúde mental durante os seis primeiros meses da pandemia, estratificada por idade e gênero. Além disso, eles buscaram identificar trajetórias distintas em relação a saúde mental durante este período, características dos indivíduos em cada uma destas possíveis trajetórias e ainda identificar adversidades que predizem a piora da saúde mental durante a pandemia. Foi utilizada a análise de classes latentes para identificar trajetórias discretas e regressão de efeitos fixos para detectar preditores de mudança na saúde mental.

Para o trabalho, 19.763 indivíduos com mais de 16 anos de idade tiveram a sua saúde mental avaliada, dos quais, 58,1% eram do sexo feminino. A análise de classe latente identificou cinco trajetórias distintas em relação a saúde mental. A maioria dos indivíduos (37,5%) apresentaram uma boa ou muito boa saúde mental durante os seis primeiros meses de pandemia; 12,0% apresentaram uma piora durante este período, mas em outubro de 2020 voltaram aos níveis anteriores à pandemia; 4,1% tiveram uma piora no início da pandemia e assim se mantiveram; 7,0% apresentaram leve deterioração inicial e mantiveram uma constante piora. Os dois últimos grupos contaram com mais afrodescendentes, pessoas com história de doença crônica física ou mental e moradores de regiões mais pobres. Dificuldade financeira foi um preditor de deterioração da saúde mental.

Para lembrar:
O estudo em questão apresenta dados importantes sobre os preditores de saúde mental. Além deste, diversos outros estudos já demonstraram que crises financeiras são importantes preditores de deterioração da saúde mental. Outro dado importante é que apenas por volta de um em cada nove indivíduos apresentou uma deterioração consistente da saúde mental ¬– todos com história de doença mental. É de extrema importância que estudos como este também sejam realizados em países de renda média e baixa.

Referência:
Pierce, M. et al. Mental health responses to the covid-19 pandemic: a latent class trajectory analysis using longitudinal UK data. The Lancet. Psychiatry (2021). doi:10.1016/S2215-0366(21)00151-6

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