Parar de prescrever: a quimioterapia adjuvante não traz benefícios para tratar o câncer cervical

Roxanne Nelson

Notificação

7 de junho de 2021

Uma das melhores apresentações do mais prestigiado congresso de oncologia deste ano teve resultado negativo – mas este Abstract é "muito importante", disse a Dra. Lori J. Pierce, médica e presidente da American Society of Clinical Oncology (ASCO).

O estudo, conhecido como OUTBACK, que foi uma das estrelas da sessão plenária da reunião anual da ASCO de 2021, teve alguns detalhes divulgados em uma coletiva de imprensa antes da reunião.

Os resultados mostram que a quimioterapia adjuvante acrescentada ao tratamento convencional com radioterapia e quimioterapia não melhorou os desfechos de sobrevida entre as mulheres com câncer cervical local avançado.

O tratamento também foi associado a índices mais altos de eventos adversos graves.

"A última coisa que queremos fazer é prescrever um tratamento que não melhore os desfechos e piore a qualidade de vida da paciente pelos seus efeitos colaterais", comentou a Dra. Lori.

"É por isso que este Abstract me parece muito importante e acho que destaca a importância dos ensaios clínicos".

A Dra. Lori disse ao Medscape que "somente porque um ensaio clínico tem um resultado negativo, isso não significa que não vamos discuti-lo".

Na verdade, este ensaio irá modificar a conduta porque fará com que os médicos parem de prescrever tratamento adjuvante agora que estes dados estão disponíveis.

"Também nos informa que precisamos pensar em outras estratégias de ensaios clínicos para as pacientes que evoluem depois de fazer radioterapia e quimioterapia", disse a médica.

"O ensaio clínico nos diz para parar de fazer isso, começar a elaborar outros ensaios clínicos que precisamos fazer, mas absolutamente não prescrever mais quimioterapia adjuvante para as pacientes, como feito no estudo".

Resultados que modificam a conduta

O câncer de colo do útero continua sendo uma causa comum de morte relacionada a neoplasia entre as mulheres no mundo inteiro, e um percentual importante delas recidiva e morre de metástases à distância apesar do tratamento.

"Alguns influentes estudos já feitos sugeriram que administrar mais quimioterapia após a radiação poderia ajudar e modificaram a conduta em alguns centros", comentou a especialista em pesquisa clínica Dra. Linda R. Mileshkin, oncologista clínica no Peter McCallum Cancer Center, na Austrália.

"No entanto, a comunidade internacional percebeu que havia algumas falhas nesses ensaios clínicos e considerou importante fazer um ensaio clínico de confirmação", explicou a especialista.

Por isso, realizaram o estudo OUTBACK, um ensaio clínico internacional randomizado de fase 3 do Gynecologic Cancer InterGroup (GCIG). A coorte contou com 919 mulheres com câncer cervical local avançado (estágio FIGO 2008 fase IB1 com linfonodo positivo, IB2, II, IIIB ou IVA) consideradas como tendo indicação de tratamento primário com quimiorradioterapia de intenção curativa.

As participantes foram randomizadas para fazer a quimiorradioterapia convencional com cisplatina (controle) ou quimiorradioterapia convencional com cisplatina seguida por quatro ciclos de quimioterapia adjuvante com carboplatina e paclitaxel.

A sobrevida geral em cinco anos, que foi o desfecho primário, foi muito semelhante nos dois braços de tratamento: 72% com quimioterapia adjuvante em comparação a 71% sem (razão de risco ou hazard ratio, HR, de 0,91; P = 0,91).

O desfecho secundário de sobrevida livre de progressão da doença em cinco anos também foi semelhante entres as mulheres que fizeram tratamento adjuvante em comparação ao grupo de controle (63% versus 61%; diferença 2%; HR = 0,87; P 0,61).

Também não houve indícios de benefício nos subgrupos de mulheres com doença de alto risco, observou a Dra. Linda.

Os efeitos colaterais típicos foram significativamente maiores no braço da quimioterapia adjuvante: ocorreram eventos de grau 3 a 5 em 81% das pacientes do grupo do tratamento adjuvante em comparação a 62% das participantes do grupo de controle. A qualidade de vida foi pior para as pacientes no grupo do tratamento adjuvante nos três a seis meses subsequentes, mas semelhante entre os grupos em um ano.

"A quimioterapia adjuvante administrada após a quimiorradioterapia convencional com cisplatina para mulheres com câncer cervical local avançado não melhorou a sobrevida global ou livre de progressão da doença", concluíram os autores.

"O tratamento convencional deve continuar a ser a radioterapia pélvica com cisplatina semanal concomitante", acrescentou a médica.

"Novas pesquisas devem visar tratamentos adjuvantes que possam ser mais bem tolerados e eficazes quando administrados depois do tratamento convencional", comentou Dra. Linda.

Um especialista convidado para comentar levantou a hipótese de que as futuras "melhoras dos resultados para as nossas pacientes virão do tratamento direcionado ou da imunoterapia, não mais da quimioterapia".

O Dr. Richard T. Penson, médico e diretor clínico da oncologia ginecológica no Mass General Cancer Center, nos EUA, também observou que o advento da quimiorradioterapia para o câncer cervical local avançado deflagrou um alerta do National Cancer Institute em 1999, com melhora de 10% da sobrevida geral em comparação à radioterapia isolada, isso tendo sido descrito em cinco ensaios clínicos randomizados.

"Dez anos mais tarde, em 2009, o acréscimo de gencitabina à cisplatina semanal com dois ciclos adjuvantes sugeriu melhora dos resultados, mas com efeitos tóxicos inaceitáveis", disse Dr. Richard.

"Já transcorreu mais de uma década desde então, junto com o altruísmo de quase mil mulheres no esforço de responder à questão da quimioterapia adjuvante com o definitivo estudo OUTBACK, no qual quatro ciclos de tratamento adjuvante com carboplatina  e paclitaxel não melhoraram a sobrevida global nem a sobrevida livre de progressão da doença".

O estudo OUTBACK foi financiado pelo National Health and Medical Research Council. Os editorialistas revelaram não ter conflitos de interesse financeiros relevantes ao tema. A Dra. Lori Pierce informou ter relações financeiras com a PFS Genomics e a Uptodate. O Dr. Richard T Penson informou atuar nos conselhos consultivos das empresas AbbVie, AstraZeneca, Cancer Panels, Care4ward ( pro bono), Eisai, Genentech, Intellisphere, Merck, Sutro Biopharma, Tesaro, Biogenics vascular, WebMD; receber financiamento de pesquisa das empresas Array, AstraZeneca, Eisai, Genentech, Regeneron, Sanofi Aventis, Tesaro, Biogenics Vascular; receber royalties das empresas BMJ Publishing, Uptodate, Elsevier, Wolters Kluwer Health e Wiley Blackwell.

ASCO Annual Meeting 2021. Abstract LBA3. Apresentado em 03 de junho de 2021.

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